GYLT
Hoje falarei de um jogo espetacular, que venho querendo terminar há muito tempo.
Ele é lindo, mas também assustador. Bora falar tudo, explicar a história, revelar os segredos, e também apresentar minhas experiências com Gylt.
Boa leitura.
Introdução
"Gylt" é um jogo de terror psicológico, que parece uma mistura de Silent Hill, Alan Wake, Limbo, Little Nightmares, Bramble, Kena, The Path, e mais um monte de jogos excelentes de terror psicológico. Tudo isso em um universo próprio, profundo e cheio de mistérios.
No jogo controlamos uma garota em busca da prima desaparecida, em um lugar parecido com sua cidade, mas toda distorcida e repleta de monstros, que parecem querer sugar sua alma.
É um jogo sinistro, mas ao mesmo tempo leve e até bonito. Algo perturbador, porém tão belo que mais admiramos do que tememos.
A Culpa
"GYLT" vem de "Guilt" que significa "Culpa". É interessante que este é o segundo jogo neste ano que experimentei que trata deste mesmo assunto. Mas diferente de "Blasphemous", a culpa aqui conseguiu me alcançar em significado.
Não se trata de religião, mas de socialização. O jogo assume o tema no instante em que introduz Sally, uma garotinha que sai em busca da prima desaparecida, mas que tem muito mais a ver com esse desaparecimento do que ela própria imagina.
O jogo fala de bullying, perseguição, tortura psicológica, perdas e principalmente abandono. Tudo isso em torno de uma personagem aparentemente inocente, mas que vai se preenchendo de culpa ao longo da descoberta, até chegar num ponto em que ela precisa decidir se aceita sua penitência, ou se a ignora.
Esse terror surge com base em textos que ela lê, mas também em insinuações nos cenários, nas criaturas que representam partes de seus pesares, na própria jogabilidade que em muito se conecta com o que ela sente, e principalmente com sua jornada individual e sua busca incansável pela prima.
Ou seja, toda a atmosfera é carregadíssima desse terror, e mesmo que não tenham sustos, sangue, mortes ou cenas perturbadoras, ele entrega uma boa dose de medo, com pura sutileza.
Como o Jogo Funciona
Sally sofre de asma e isso afeta diretamente sua mobilidade, então ela anda mas bem lentamente, e com medo, além de correr mas, não muito longe. Eu fiquei até surpreso quando caiu a ficha e percebi que, ela corria pouco, se cansava muito rápido, pois sua asma atacava.
Inclusive é usando o inalador que ela se cura, algo tão sutil, mas que vira rapidamente uma solução pra "vitalidade" dela, ao mesmo tempo que reflete sua condição física. Ela sempre carrega a bombinha, mas ela pode recarregar achando algumas pela cidade, quase como se elas tivessem sido deixadas estrategicamente pra ela.
O bom dela ser tão delicada e pequena, é que ela pode ser bem furtiva, andar lentamente e agachada, se espreitando para evitar as criaturas que a caçam.
Ela não é muito habilidosa, então não consegue pular, nem tem formas de combate físico. No máximo ela pode pegar latinhas e arremessar pra distrair as criaturas, e continuar se escondendo.
Ela também faz algumas coisas básicas como subir escadas (mas não sobe em objetos, por mais baixos que sejam), e consegue empurrar algumas poucas coisas (desde que tenham rodinhas).
Assustada, tudo que ela pode fazer é sair vasculhando a cidade estranha, que um dia foi bem familiar, mas agora parece totalmente abandonada. E, no caminho, seu objetivo maior não é escapar, mas sim encontrar sua priminha.
Combate
Lanterna
Semelhante a Alan Wake, Sally consegue força através de pura luz, que sai de sua Lanterna. Ela pode mirar nos inimigos, e enfraquecê-los ou até destruí-los apenas com luz.
De quebra isso ilumina o obscuro caminho dela, e suas passagens por lugares assombrosos fica mais fácil graças a essa lanterna, mas não é algo que ela carrega desde o começo, ela apenas encontra, pelo caminho, e faz desta sua melhor arma.
Ela também aprende a focar a luz criando um feixe mais potente, que pode desintegrar partes das criaturas sombrias, ou acionar alguns enigmas baseados em iluminação.
Porém, neste caso ela consome bateria, algo que fica apontado em sua mochila pela luz verde, que se torna vermelha conforme acaba. Lembra um pouco Dead Space, mas ao invés de vida, é bateria, o que faz ainda mais falta (é tudo que ela tem pra resistir).
Baterias podem ser restauradas apenas coletando mais pelos cenários, então não é um grande problema, pois algo sempre deixa algumas escondidas pra ela achar. Mas caso acabem, Sally não tem como se defender.
Aliás ela pode até eliminar algumas criaturas se pegá-las desprevenidas, enfiando a lanterna no meio das costas delas (na verdade é mais embaixo... tadinhas) mas isso infelizmente não funciona com todos os inimigos.
Flash
Também pode usar um flash poderoso para atordoar os inimigos mais próximos, e apesar disso causar um pouco de dano, não basta para eliminá-los, servindo apenas como recurso de emergência. Isso gasta uma energia própria que se regenera lentamente, então só da pra usar uma vez para fugir, ou se esconder.
Extintor de Incêndio
Para alguns inimigos, ela pode usar um Extintor de Incêndio que mais parece um lançador de nitrogênio líquido. Essa "arma" faz os monstros ficarem brevemente congelados, e ao invés das lanternas, não consome nada e tem carga ilimitada.
Porém os extintores sofrem com pressão, então quando essa pressão chega no limite, é preciso esperar um pouco para a carga voltar.
O bom é que ele também ajuda a passar por alguns obstáculos como fogo e até poças eletrificadas, e o negócio é tão potente que congela de tudo.
Sistema de Alerta dos Monstros
Esses são todos os recursos que Sally possui para enfrentar hordas de criaturas bizarras, que podem sugar sua energia vital só por estarem perto em alguns casos, e são todos muito hostis.
Eles enxergam de longe, e cada um tem uma forma de achar crianças desaparecidas, só pelo faro. Por isso há um sistema de 3 alertas, em que eles percebem e perseguem.
Eles sentem a presença dela, e se virem algo se mexendo, vão atrás onde ela esteve (fica até um espectro dela marcando o último ponto), e caso eles vejam ela completamente, aí eles só vão pra cima, e é bem difícil escapar.
Felizmente ela pode correr o suficiente pra chegar em algum duto de ar, ou uma mesa escondida, ou apenas passar por portas e achar um ponto pra eles esquecerem dela. No desespero vale tudo.
Personagens
Há muitos personagens ocultos na história, pessoas que viveram suas próprias experiências na cidade, e que vieram antes de Sally, mas também há alguns personagens que interagem diretamente com ela. São poucos, mas bem misteriosos.
Sally
A protagonista é uma menina de 11 anos, que vive colando cartazes da prima desaparecida. Em sua cidade vem se tornando corriqueiro certas pessoas sumirem, mas ninguém nunca parece se importar.
Enquanto procura, ela acaba sendo perseguida por alguns garotos, e decide usar um velho teleférico pra voltar pra sua cidade, e ir pra casa. Só que, a cidade dela aparece estranha.
Num lugar tomado por sombras e criaturas estranhas, ela vê sua prima correndo na escola em que frequentam, e tenta alcançá-la, apesar da garota sempre parecer fugir dela. E no fim, ela só tenta entender a razão de tudo isso.
Confusa com as criaturas, com as condições totalmente detonadas da cidade, e com a prima fujona, pouco a pouco ela descobre a verdade.
No fim, Sally foi culpada pelo sumiço de Emily, e precisa enfrentar isso.
Emily
A tão mencionada prima, é uma garotinha de 7 anos, que viveu um mês inteiro na escola, sozinha e escondida.
A escola porém não é a mesma que ela frequentava, mas uma versão assustadora e tomada por monstros, onde ela magicamente foi parar. Ironicamente, esse lugar era menos hostil, que sua escola real.
Na escola ela sofria bullying pesado de todos, as crianças zombavam dela sem motivos, atacavam ela, riam, e ninguém parecia se importar com ela. Nem os professores ligavam, e todos faziam algo pra prejudicá-la. Tudo que ela tinha como porto seguro, era Sally.
Mas Sally tinha seus amigos. Então pouco a pouco, até ela passou a rejeitá-la e destratá-la. A pequena Emily acabou mergulhando em depressão, e essa depressão a colocou nessa nova versão da escola.
Emily foi protegida de certa forma por uma entidade idosa com óculos escuros, mas também precisou contar com sua astúcia e determinação pra sobreviver... algo difícil uma vez que seu espírito parecia totalmente quebrado, mas por um mês inteiro ela venceu.
Viveu com lanches, bebidas que pegava da cantina, e ficou escondida em uma barraca improvisada em um canto de muito difícil acesso da escola... mas mesmo assim isso não bastava para ela ficar bem. O tempo dela estava acabando.
Velho Misterioso
Quem guia Sally para o teleférico é esse velhinho, que diz pra ela pegar um ticket mas nunca o recolhe.
Ele aparece algumas vezes, tentando guiar Sally até Emilly, e incentivando a busca, porém ele não se mistura muito, e sempre vira poeira no fim das conversas.
O velho usa óculos, mas por trás da lente é perceptível um brilho verde em seus olhos. Curiosamente, outros que também ficaram presos na cidade também foram confortados e protegidos por uma figura com olhos verdes, mas pra cada pessoa, a entidade assume uma forma diferente.
Essa forma que ele assumiu para Sally, na verdade é a personificação do avô falecido de Emily, que pode até ser visto numa das imagens secretas do jogo, em um retrato dentro de outro retrato (o pai dela segurando a foto). Também é relatado sobre a proximidade deles em um dos diários de memórias.
Ele tomou essa forma para protegê-la e dar conforto em seus últimos momentos, mas ao perceber que ela não era culpada, ele foi atrás de Sally para ajudá-la.
A "Entidade dos Olhos Verdes" é uma consequência natural, do que acontece na cidade onde as garotas foram parar. Mas isso remete mais à "maldição" do local, do que ao emocional. E pra entender quem ele é, é preciso entender o que a cidade é.
Cidade de Bethelwood
A cidade possui duas versões, uma normal, habitada, cheia de pessoas felizes, e uma toda destruída, com canos saindo do chão, penhascos formados por erosões repentinas, e uma quantidade absurda de monstros espalhados por todo canto.
Contudo, as duas versões se espelham, com a versão destruída se atualizando pouco a pouco com recursos e tecnologias vistas na cidade normal.
Fica um baita mistério sobre o que essa cidade é, se seria um limpo, uma memória personificada, o inferno personificado ou talvez só uma alucinação coletiva... e esse mistério é respondido com um pouco de ciência e um pouco de fantasia.
Na verdade a segunda cidade é um tipo de ciclo de alimentação, simples assim. Ela já foi a cidade original, mas foi evacuada por conta da "maldição" que tomou ela, maldição esta que não passava de uma crise ambiental provocada pela mineradora.
Havia uma pedra valiosa na cidade, essa pedra provocava alucinações e depressão em quem se aproximasse, e só podia ser encontrada nas cavernas abaixo da cidade. Ao mexer com isso, o negócio vazou e tomou tudo e todos ali. Mas, boa parte conseguiu escapar a tempo, sendo realocados pra uma cópia idêntica, financiada pela própria mineradora.
Os estudos e mineração na cidade forma interrompidos, mas o estrago já estava feito. Qualquer pessoa depressiva da nova cidade, era atraída pra antiga através de um teleférico, e lá se perdia.
A cidade induz as pessoas à depressão, força elas a mergulharem nisso, e no fim se alimenta dessa emoção pra criar mais Pedras Vermelhas. Só que pra equilibrar isso, nasceu uma entidade de olhos verdes reluzentes, que se projeta nas alucinações das vítimas, só pra dar conforto.
Essa entidade é o velho, ou um cachorro, ou uma esposa ou marido, um filho. Qualquer um pode oferecer conforto à vítima, que uma hora ou outra sucumbirá, e virará pedra.
Ps.: A ideia de uma cidade tomada por alucinações lembra em muito "Quanto as Cigarras Choram". O mistério que pode despencar pra qualquer lado, mas no fim é apenas um distúrbio natural mal compreendido.
Habitantes
Existiram muitas pessoas antes de Emily e Sally que passaram pela cidade, e todos tiveram o mesmo destino: viraram pedra.
De fato, caso Sally seja pega por algum monstro, ela não morre, ela apenas petrifica onde está, e ali permanece pra todo o sempre. Essa maldição funciona em três etapas:
Primeiro o corpo vira pedra, pra sempre, mas a pessoa continua viva lá dentro.
Segundo a alma da pessoa se solidifica, virando uma esfera vermelha, e se separa indo pro mais longe possível.
Terceiro, um livro aparece ao lado da vítima, com suas memórias transcritas.
Existem 10 pessoas que Sally pode encontrar petrificadas, e pode também achar seus diários de vida, entendendo quem foram, e o que os levou até lá. E no geral, todos eram habitantes da cidade, alguns simples moradores que se recusaram a ir embora, outros trabalhadores da mineradora, tanto mineiros quanto funcionários de outros setores.
Todos acabaram virando parte da cidade, com suas almas extraídas e transformadas num mineral chamado "Quartzo Vermelho". E esse era o item que a mineradora mais almejava ali.
Tudo que Sally pode fazer por eles, é encontrar suas almas solidificadas, e entregar à eles para que descansem em paz. Uma vez reunidos, eles podem morrer.
O positivo disso é que ela ganha a cada vítima que encontra, um pedaço de um ticket, o que no futuro é a forma dela escapar do pesadelo.
Isso tudo é uma sidequest opcional, que habilita um final secreto e bom, além de ser essência pra conseguir todas as respostas dos enigmas da cidade.
Mineradora Tomm
A empresa que só queria ganhar e acabou perdendo tudo, a "Tomm" fez de tudo pra conseguir lucrar com as pedras vermelhas, mesmo sem saber pra que elas serviam. É aquele caso de entusiasmo acima do bom senso.
Indígenas diziam que a montanha à qual a cidade fazia parte, sofria uma maldição, contavam lendas de desaparecimentos, de monstros, de visões, e a Tomm ficou empolgada com isso. Ao pesquisarem mais a fundo, descobriram o minério que passaram a chamar de Quartzo Vermelho, e também descobriram que havia muito dele debaixo da cidade.
Então começaram a extrair, e até se tornaram um símbolo de comercio e investimento da cidade, até os mineradores começarem a alucinar. Eles passaram a entrar em depressão, desistir da vida, ver coisas negativas por toda a mina e até no dia a dia, e pra tentar ajudar a Tomm contratou dezenas de psicólogos.
Mas os psicólogos também começaram a alucinar, a coisa começou a ficar tensa, até o dia que um funcionário, vendo tudo o que tava rolando e que a Tomm nunca iria expor a verdade, decidiu tacar fogo em tudo, causou uma destruição em massa na cidade, e forçou a evacuação. Muita gente morreu, mas muitos acabaram sendo salvos de uma tragédia muito maior.
Porém a Mineradora ao invés de parar, decidiu por construir uma cidade nova igualzinha a anterior, e ao que parece continuou minerando. Só que agora ainda mais às escondidas.
O problema disso é que a outra cidade continuou atuando, e cada vez mais se expandido. Foi ela que chamou Emily, e Sally, e todos que sumiram antes delas.
Detalhe, boa parte dessa história só é revelada quando a sidequest dos pássaros é feita.
Sally tem que libertar, queimando com luz, alguns pardais engaiolados. Depois disso ela precisa oferecer a alma deles pra estátua do fundador da Escola, que carrega uma gaiola na mão.
E isso abre um alçapão pra uma câmara onde o homem que iniciou o incêndio virou pedra, e onde da pra ver o coração da montanha.
Esse coração é provavelmente a causa de tudo, e a energia dele que transforma todos em pedras. Como Sally não é uma lutadora nem uma heroína, ela nem tenta destruir isso ou algo que normalmente faríamos em jogos do tipo. Mas ela fica cara a cara com a causa de tudo.
Isso também revela que a escola ajudou no processo de mineração e nos estudos sobre as pedras.
Inimigos e Significados
Há muitos inimigos, e pouquíssimos podem ser derrotados. Como luz é a única arma eficaz, o jogo inteiro se passa de noite, e os inimigos mais fortes possuem defesas bem pensadas contra a luz.
Crianças Malignas
Esses monstros são humanoides, com a cabeça invertida, dentes afiados, e a língua mais ainda. Eles falam coisas cruéis, ofensas, insultos dos mais pesados, e palavras de ódio.
São a representação dos alunos da escola, o rosto virado, com a boca maior que os olhos, indica que eles falam antes de ver, ou seja, não ligam pra quem estão xingando, só querem xingar.
Eles possuem calombos pelo corpo que se iluminados, os fazem sumir. Pode ser uma referência ao fato de bullys fraquejarem quando tem seus problemas expostos.
Crianças Corvos
Similar aos humanoides de cabeça virada, esse se difere apenas pelo bico enorme que tem no lugar da boca. Ele desaparece com frequência, parece apenas observar e gosta de se teletransportar.
Neste caso, ele representa as crianças que não faziam nada, mas gostavam de rir como corvos. Por muitas vezes Emily sofreu enquanto seus colegas a ignoravam e riam dela, e ela nunca teve ajuda. Na hora que precisava deles, sumiam. Mas quando ela apanhava ou era humilhada, estavam todos ali na rodinha, rindo, gargalhando.
É um inimigo que também pode ser derrotado pela luz, e segue o mesmo padrão do outro, só que é mais difícil pois teleporta.
Olhos Gigantes
Na escola há olhos enormes presos em tentáculos, que não atacam, apenas observam. Eles geralmente bloqueiam as saídas, e precisam ser cegados para o caminho se abrir.
Esses inimigos são a representação dos observadores silenciosos, também seguindo a ideia das crianças que só olhavam, mas também dos adultos que viam e não faziam nada. Por vezes Emily pediu ajuda, mas eles só olharam.
Existem duas versões dessa criatura, uma normal, que a luz já serve pra cegar, e uma pegando fogo, que é preciso tacar nitrogênio líquido do extintor.
Crianças Invisíveis
Há pouquíssimos inimigos desse tipo, e os que tem ainda se matam quando chegam perto, explodindo. São criaturas invisíveis, que só da pra perceber por uma silhueta leve, e as risadas que fazem ao se aproximarem. Mas, eles explodem, e neste jogo inimigos quando morrem nunca mais voltam.
Também representando crianças, este caso é mais raro pois são as crianças que tentaram se aproximar de Emily, talvez alguns amigos que tentaram fazer algo por ela, mas ou ela afugentou, ou as demais crianças fizeram questão de impedir. Por isso elas não tem forma, são como fantasmas, que tentam brincar, mas se desfazem pra sempre.
Elas não podem ser derrotadas com luz, já que são totalmente transparentes e a luz só atravessa, e o único jeito de lidar com elas é congelando com o extintor (literalmente dando um gelo), e correndo. Ou pode-se deixar elas explodirem por se aproximarem, mas elas nunca mais aparecerão.
Crianças Manequins
O monstro que mais tem são essa crianças, que são todas simples manequins de arte, com cabelo, e uma cabeça que pode abrir uma boca bizarra que suga a alma. Curiosamente elas falam coisas positivas, dizem amar, pedem confiança, e dizem querer apenas brincar.
Por lembrarem a Sally, pode-se deduzir que são todas personificações dela na visão de Emily, só que na verdade elas representam todas as "Sallys" do mundo. Todas as crianças e pessoas que dizem se importar, amar, oferecem ajuda, mas na primeira oportunidade viram a cara... esses são os manequins.
Elas não podem ser derrotadas de forma alguma, somente congeladas temporariamente, o que diz muito sobre como Emily não consegue lidar com esse tipo de gente. Ela se aproxima, e tem uma parte da alma sugada, sempre.
Há tantos, que dá pra entender que Sally não foi a única a oferecer ajuda pra Emily e depois substituí-la por seus amigos. Pelo que parecerem houveram outros, mas Sally foi a primeira e mais importante.
Manequins Adultos
Esses manequins não fazem nada, mas em alguns momentos podem se mover de leve, olhando Sally. São como bonecos de arte tamanho família, que as vezes apontam caminhos ou itens importantes, encenam bullying, ou apenas mexem a cabeça.
Eles não tem olhos, nem detalhes, e são a personificação de todos os adultos na vida de Emily. Pessoas que pareciam estar ali pra dar segurança, ajuda, mas eram só aglomeração no caminho. Nenhum adulto nunca a ouviu, nunca deu atenção pro que ela passava. Em casos raros, alguns ajudavam como sua mãe, permitindo faltar na escola pra não sofrer mais, mas depois disso nada foi feito.
Tem os que surgem na escola fazendo demonstração de diferentes formas de bullying, e representam as crianças mais velhas, que eram ainda mais cruéis que as pequenas. Aos olhos de Emily eram todos iguais.
No silêncio, na falta de ação, esses monstros estão lá só pra lembrar que mesmo tendo gente perto, Emily sempre esteve sozinha.
Chefes
Tem três chefes no jogo, se desconsiderarmos a Sally como principal inimiga da Emily (já que ela foge o tempo todo da gente). E todos eles tem simbolismo, somente pra Sally.
Em uma parte do jogo, passando pela escola, é possível encontrar desenhos da própria Sally que mostram esses monstros, o que ajuda a interpretá-los apesar de tudo.
Criatura Furiosa
O Valentão Principal... sempre tem aquela criança mais violenta que instiga os outros a cometerem mais e mais bullying. Adoram pegar no pé dos mais fracos, e Emily era prato cheio nesse sentido.
Havia alguém, tão violento, tão ignorante, que botava fogo por onde passava, sendo este o Valentão. Essa criatura surge na outra cidade, personificada com uma massa em uma mão, um pequeno olho no ombro, e lembra muito sabe o que? O pai da protagonista de Silent Hill f.
Essa ideia do cara mais bruto ser só uma massa de carne, se aplica bem ao tema de "ignorante violento".
Este monstro surge duas vezes ao longo do jogo, e sempre é derrotado com ajuda de água (de sprinkler ou canos quebrados). Na primeira forma basta iluminar o olhinho dele pra ele fugir, ainda mais furioso, e na segunda forma ele é derrotado (mas continua vivo e se mexendo, apenas caído) com o extintor, congelando seu núcleo.
A ideia dele nunca ser derrotado de fato, só mostra que este é um inimigo chave para o trauma de Emily.
Criatura Projetor
Este monstro é basicamente um projetor com múltiplas pernas, que sai olhando e seguindo Sally enquanto ela procura a prima.
O mais interessante é que ele não é a representação de alguém, mas sim da própria Emily, ou pelo menos das suas emoções e lembranças.
É que Emily via sua prima se esconder dela, sair com os amigos, se divertir sem ela, evitá-la. Ela via, e ficava quieta. Suas memórias disso se acumularam e viraram correntes que a prendiam na lembrança do isolamento contínuo.
Por essa razão, o Projeto aparece fora da escola, aparece fora do Arcade, aparece apenas olhando, de longe, e na verdade nunca se aproxima. Ele é Emily vendo Sally de longe, e sendo torturada por seus próprios pensamentos negativos.
Esse monstro é enfrentado no teatro, com Emily pendurada pelos tentáculos/fitas dele, enquanto um filme de suas humilhações passa atrás dela, projetados por manequins com cabeça de projetor.
Quando Sally destrói todos os projetores, sem ser pega pela iluminação do projetor principal, acima de Emily, ele cai e é destruído de vez.
Mas, de nada adianta remover as memórias, Sally continuava sendo vilã aos olhos de Emily, que foge dela.
Criatura Gigante
Há um monstro enorme, sem muitos detalhes, apenas olho e boca, além da silhueta humana quilométrica. Ele é visto pela primeira vez atravessando a floresta, atrás do Arcade.
E esse monstro, pode ser tanto a ideia dos adultos que mesmo sendo mais altos e inteligentes sempre ignoraram Emily, como também podem ser o tamanho do rancor, desprezo, auto sabotagem, ansiedade e melancolia que a menininha de apenas sete anos tinha.
A ideia de que a grande criatura era o acúmulo de tudo de ruim na mente dela, ganha muita força quando no fim nós jogamos como ela! É que no fim da história, Emily e Sally precisam fugir da criatura, mas pra isso a câmera nos coloca dentro da boca dela.
É como se Emily desse a chance de apesar de tudo de ruim, Sally ter a chance de escapar e ajudá-la.
Esse monstro enorme também tenta tirar tudo que Sally tem, pra afastar ela da prima. Mas ela avança mesmo assim e nunca desiste. Esse é o conceito de "auto sabotagem", onde alguém depressivo afasta até as pessoas que querem o melhor pra ele, pois é mais confortável, e menos arriscado assim... na mente dele.
Um emoção grande, colossal, mas que fica apenas rondando, e serve somente pra nos isolar numa falsa segurança.
História Resumida
Como deu pra notar, a história do jogo é bem simbólica, mas enquanto jogamos quase nada disso é perceptível.
A história começa com Sally procurando Emily, colando cartazes, até uns encrenqueiros (que já foram seus amigos antes) começam a perseguir ela, e ela se perde na floresta.
Mas ela encontra o teleférico, e tenta usá-lo pra voltar pra casa. Seria um bom atalho, se fosse o teleférico certo. A versão que ela achou era a antiga, que deveria estar desativada, mas não apenas funcionava, como tinha um ticket pra ela de graça.
O velho de óculos aparece na cabine de acesso, insistindo pra Sally pegar o ticket pois não poderia embarcar sem ele, e ela pega, mas ele some logo em seguida.
Quando vai pra cidade, as coisas mudam, e ela entra na zona da outra cidade, já percebendo coisas similares, mas antigas em comparação ao que ela conhecia. Como decorações de um festival da cidade que já passou, e os muitos buracos e crateras por todo canto.
Ela também nota os monstros, mas a coisa que mais chama sua atenção é Emily, vista correndo dentro da escola, de algumas criaturas.
Ela então faz de tudo pra alcançar a prima, questionado o que a levou até lá, e torcendo pra prima estar bem. Mas quanto mais avança, mais tudo começa a ficar estranho.
Partes da escola se misturam com uma mina abandonada, os monstros ficam cada vez mais diversificados, ela acha pessoas petrificadas, pedras vermelhas, pássaros de fumaça engaiolados, e até quadros com memórias dela e sua prima pintados.
Mas ela continua, até que o velho de óculos aparece e diz pra ela continuar, sendo que ela já estava continuando. Ele parecia torcer pra ela achar a prima, mas ele não ajuda diretamente.
Sally encontra Emily, mas ela teima em fugir, até que os três, ela, sua prima e o velho, conversam no topo de um prédio.
O velho explica que o único jeito delas saírem era usando o ticket, e voltando pro teleférico, e ele estava arrependido de Emily ter ido pra lá. Ele havia dito pra ela sobreviver o máximo que podia na escola, e ele que levou Sally pra ajudá-la.
Apesar de Emily detestar a prima por tê-la abandonado inúmeras vezes, no fim ela perdoa, mas é nessa hora que a Figura Gigante a captura e leva pra um lugar isolado.
Assim, o velho, que revela a verdade sobre a cidade, mostra os olhos verdes, e abre um portal na escola para esse local, onde Sally precisaria enfrentar obstáculos e salvar sua prima de vez.
E ao perder todas as armas que coletou, passar pelos monstros, e ainda fugir da criatura gigante, as duas garotas se salvam.
Porém, ao correrem para o teleférico, elas recebem a notícia de que é preciso ter um ticket por pessoa para o embarque.
Sally tem que escolher se salvará a prima, ou se salvará a si mesma. E isso define o final da sua história. O velho inclusive diz que o certo é Sally dar o ticket para Emily, mas a escolha é totalmente dela.
Final Ruim
Se ela escolher a si mesma, ela ignora a culpa por Emily, e diz que com o sumiço dela, ela virou alvo de bullying.
Tudo que ela queria era que Emily voltasse pra que tudo voltasse ao normal, pra ela.
O velho abraça Emily, como quem a quisesse proteger, mas ambos são cercados por manequins e somem ao horizonte.
E então ela é mostrada colando os cartazes em busca de Emily, pois o ciclo dela reinicia, e ela nunca deixa de sentir culpa pela prima.
Final Menos Ruim
Se ela escolher Emily, Sally empurra a prima pro teleférico contra sua vontade, se desculpa por tudo, e diz pra ela ser feliz.
E Emily assiste sua prima sendo consumida pelos muitos monstros manequins, sumindo no horizonte, enquanto o velho permanece sentado na cadeira.
De volta à escola, Emily tenta seguir a vida, triste por saber a verdade, mas ainda lutando. E agora é Sally quem está desaparecida.
E enquanto isso, Sally permanece na cidade, sabe-se lá por quanto tempo. Isso se ela não perdeu a alma naquele momento.
Final Bom
Caso Sally tente encontrar todas as pessoas petrificadas, e devolva suas almas (no caso são 10 pessoas petrificadas e 10 pedras vermelhas), eles entregam 1 pedaço de ticket cada. Com os 10 pedaços, um ticket completo é feito pelo velho de óculos.
Essa opção só fica habilitada nessas condições, e ao fazê-lo, Sally agradece o velho por toda a ajuda, dando pra ele seu ursinho, e o abraçando.
Depois, elas se afastam da cidade, vendo ele desaparecendo juntamente de todo o resto.
Assim, elas voltarão à rotina, traumatizadas, e talvez agora Sally fique mais com a Emily. Talvez ela tenha aprendido a lição.
Talvez assim, o peso no coração de Sally, e o peso na consciência de Emily, finalmente desaparecerão.
Encerramento
Este foi o jogo.
Tentei não enrolar muito, mas também queria falar sobre tudo.
Como deu pra notar, o tema é bem depressivo e tudo se agrava se pensarmos que tudo isso se passou com crianças. Uma menina super depressiva, e outra sem entender nada, as duas jogadas num pesadelo.
Lembra Silent Hill, mas com crianças.
Apesar do jogo não dar sustos, ele faz pensar. Ele toca naquele ponto sensível sobre o quanto uma pessoa pode estar sofrendo, isolada e em silêncio, enquanto o mundo todo só ignora. Só notam quando é tarde... e as vezes pequenas ações, gestos, alguns atos de carinho, já são suficiente pra nos tirar das sombras.
Aliás, este jogo foi originalmente desenvolvido para o Google Stadia, uma plataforma de streaming de jogo que encerrou em 2023 por fracasso. Na verdade era mó legal, você jogava qualquer coisa online, sem precisar instalar nada, mas infelizmente o negócio não vingou pois cobravam caro pelos jogos (além de assinar o streaming você tinha de pagar preço completo pelos jogos individualmente)... ele tinha jogos exclusivos, e a promessa da época era "Jogos sem precisar de Console, onde você quiser".
Gylt era um dos títulos exclusivos mas, como o Stadia foi descontinuado, o jogo foi repassado pra todas as plataformas... então... que bom né!? Queria que a Nintendo entrasse na onda da quebra de exclusividade pra preservar seus títulos... quem dera...
Enfim, em todo caso foi muito bom poder jogar, e eu fiz uma live do gameplay inteiro! Caso queira ver:
Agora eu to jogando sempre ao vivo antes de escrever os artigos. Assim, fica bem mais fácil registrar tudo o que acontece... se curtiu a ideia deixa um like lá, vai ajudar o canal... e quem sabe um dia eu consiga publicar vídeos completos sobre tudo que tem aqui no site.
Bem, é isso.
Obrigado pela leitura... fiz de coração.
See yah.
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