O Filme Pedido de Hoje: Alice no Pais das Maravilhas - Explicando e Comentando

Sempre quis dizer o que penso sobre o "Alice no País das Maravilhas" de Tim Burton, mas na época em que o filme saiu (2010), eu ainda tinha medo de escrever. Enfim cheguei ao momento que desejava e a coragem me alcançou.


Adaptando a animação/musical da Disney de 1951, sobre a personagem da literatura de Lewis Carroll de 1865, a atitude de Tim Burton não foi apenas fazer uma versão com seres humanos em carne e osso, mas sim uma releitura, tanto da obra fantasiosa de Lewis, quanto do desenho Disney.

O resultado foi uma espécie de "Continuação", que considera os eventos de obras prévias, mas as recria, reconta, e reencena de forma moderna, e até meio sombria.

Aos olhos do diretor, dúvidas costumeiras em relação ao livro, e à animação, vem a tona e são respondidas com um pouco mais de realidade. Porém, ele também reinterpreta conceitos, para fazê-los coincidir com a mensagem que quer transmitir, e sua história foge completamente do conceito original, mas carrega a mesma essência, mesmo sendo criativa e inovadora.

O que ele nos mostra, no fim das contas é a mesma história do livro, e da animação, mas com uma nova trama. Curioso né?! Mas eu irei explicar tudo a seguir.

Boa leitura.

"Alice in Underworld"
O Nome Verdadeiro é "Alice no Submundo"


O filme nos mostra o famoso "País das Maravilhas", encontrado da mesma forma que no conto original, com Alice caindo em uma toca de coelho. Porém, o tempo passou, e Alice já viveu aventuras nesse lugar incontáveis vezes, através de seus sonhos.

A história de Linda Woolverton, dirigida por Tim Burton, se passa depois dos livros "Alice no País das Maravilhas" (1865) e "Alice Através do Espelho"/"No País dos Espelhos" (1871), retratando uma mescla das duas histórias em uma recapitulação indireta. Isso pois a protagonista, agora muito mais velha com seus 19 anos, além de já ser adulta, não tem tempo pra brincar com sua imaginação.


Nos contos originais, Alice era tão distraída e sonhadora que acabava reimaginando o próprio mundo, de forma totalmente fantasiosa. Ela exagerava eventos, sonhava acordada, e acabava vivendo aventuras dentro da própria cabeça. Essa mesma Alice cresceu, e seus sonhos se tornaram meros devaneios.

O que o filme nos conta, é como essa Alice mais velha, se vê forçada a sonhar acordada um pouco mais, para lidar com problemas do mundo adulto. Relacionamentos, contatos, emprego, padrões sociais, tudo isso invade sua mente e, seu "País das Maravilhas" volta com força como sua forma de escapar de tudo.


E, como sempre, basta uma aventura imaginária para que ela reflita sobre seus problemas, projetados alegoricamente e disfarçados como seus personagens, para que ela encontre as respostas para resolvê-los.

Mesmo assim, o mundo pra onde ela vai é mais sério, e construído para se adaptar ao seu novo olhar na vida. Agora que ela é mais madura, ela tem uma percepção de consequências, entende de política, conhece uma gama maior de personalidades, e consegue amarrar com mais firmeza suas ideias.


A própria Alice sabe muito bem que está apenas sonhando, mas também sabe que tudo ali esta acontecendo para lhe ajudar de alguma forma. Por isso, ela aceita, incapaz de deixar o sonho até achar as respostas, mas aceita.

A parte genial da adaptação está justamente nessa parte, como tudo é retratado por uma perspectiva madura, permitindo um ar mais macabro porém, ainda sendo uma bela e engraçada aventura fantástica.

Curiosidade: O nome do manuscrito do livro de Lewis Carroll era "Alice's Adventures Under Ground".


A Psique da Protagonista


O início da história escancara sua proposta, colocando a personagem em situações desconfortáveis para agradar os demais, e no fim escapando para sua aventura, atrás do coelho branco.

Tudo é claríssimo, e a própria Alice explica que tudo que ela vive no País das Maravilhas é apenas uma projeção de sua mente, reinterpretando sua vida. Ela não é idiota, ela sabe muito bem o que vive, então diferente de uma criança que se maravilha e assusta com tudo que é novo, ela já analisa e interpreta tudo o que passa a conhecer.


E olha que ela já conhece tudo, mas não reconhece. Como a própria alega, ela nunca deixou de visitar seu mundo mágico, pois sempre sonha. Seus sonhos se tornaram pesadelos, e ela mal consegue descansar, mas só por conta do acúmulo de pensamentos negativos e problemas que sua vida lhe traz.

Isso contamina sua versão maravilhosa da vida, e a modifica, tornando quase irreconhecível. O novo "País das Maravilhas" não é mais tão colorido, ou alegre. É apenas um lugar triste, repleto de escuridão, com cores mortas, e sem encanto algum.


Permanece mágico, com suas criaturas incríveis, como animais falantes, poções de encolhimento, bolos de crescimento. Mas já não é aquele lugar feliz.


A Reinterpretação do Mundo


Além da atmosfera mais macabra, todos os personagens e ideias receberam uma nova interpretação. Um exemplo gritante são as "Mobílias Vivas". Nas histórias clássicas eram simples móveis vivos, como a famigerada Maçaneta Falante (que não aparece aqui), mas no filme são animais, forçados a agirem como objetos, como macacos servindo de cadeiras e mesas, ou pássaros segurando lustres sem poder parar de voar.


Tal ideia é uma evolução de algo que já havia na obra, e era ilustrado pelos Flamingos transformados em Tacos pela Rainha de Copas. Uma vez que tudo em seu castelo se resume a animais escravizados, a revelação do Flamingo acaba fazendo até mais sentido.

Aliás, a loucura do País das Maravilhas é muito mais compreendida aqui, pois a mente de Alice está mais segura, formada, e propensa a deduzir. A lógica, que antes era tão rara, agora é vista em toda parte, pois ela sabe como entender.


Tim Burton consegue dar mais significado a tudo, exemplificando com suas pinceladas sinistras na composição dos cenários. Uma parte muito lembrada são as Cabeças de Pessoas que Alice caminha sobre, para alcançar o Castelo da Rainha de Copas.

Elas são as sobras das execuções, tão aclamadas pela rainha, e restos mortais jogados em seu quintal. E até mesmo a cabeça do rei é vista lá, o que também revela seu destino após a separação.


O roteiro combina muito a ideia do segundo livro, com aspectos do primeiro. A composição dele, com ela encolhendo e esticando, enquanto viaja pelo país das maravilhas, é algo que o primeiro livro conta. 

Aliás, vale mencionar que aqui, sempre que Alice cresce, ela troca de vestido, e sempre que diminui também, afinal os vestidos rasgam, ou ficam muito folgados.


Mais que isso, o filme inteiro é regado com efeitos especiais, pois as proporções de Alice perto dos demais personagens mudam o tempo inteiro, e isso é muito bem feito, rendendo um espetáculo mesmo nos dias de hoje.

Referente a dúvida existencial dela, sobre ela estar acordada ou não, o fato dela caminhar pra guerra pela coroa, e até a presença de muitos personagens, são coisas do segundo livro.


Até a ideia de que o país das maravilhas refletia o mundo real, é uma combinação do que o País dos Espelhos trazia, com a origem dos livros em si. Isso pois Lewis usava de metáforas, filosofia, poesia e até matemática para fazer alusão ao seu próprio cotidiano, dentro da maluquice de um sonho, e assim ele deu forma as duas histórias sobre Alice.


Personagens e Origens


Alice Kingsley


A protagonista, interpretada por Mia Wasikowska, é uma mocinha em plena época vitoriana, que se perde em alucinações, sonhos e ilusões. Ela vivia tendo sonhos e pesadelos em mundos fabulosos, mas aprendeu a lidar com isso e se manter sã.

Porém, já adulta, ela é forçada a seguir a vida que sua mãe lhe ordena. Com seu pai falecido, a empresa dele está nas mãos de um homem que, apesar de simpatizar com seus ideais, não vê utilidade para Alice além de esposa para seu filho.


Ela é forçada a entrar nessa disputa, mas logo foge para sua imaginação, vivendo uma aventura onde encontra velhos amigos e inimigos, e precisa enfrentar um destino profetizado contra ela.


Mas antes disso, ela ainda é obrigada a provar que é a verdadeira Alice, a mesma que eles conheceram antes, revivendo algumas coisas, e provando pouco a pouco que apesar de ter crescido, não mudou.


Sua aventura é inédita, e apesar de usar muito o principal conceito de "Alice no País das Maravilhas", onde ela não tinha uma altura definida (mudando de tamanho o tempo todo), sua história é mais como uma continuação do que ela viveu antes.

Todos se lembram dela, todos sabem quem ela é, e a própria Alice parece também reconhecê-los. Mas, por muito tempo ela escolheu se distanciar desse mundo, considerando-o apenas um sonho, e assim o faz agora também. Mas dessa vez ela não consegue sair da toca do coelho, e precisa ir até o fim pra acordar.


Alice nunca acredita que o Mundo das Maravilhas é real. Ela sempre questiona sua existência ali, e ainda deixa claro que todos lá são só sua imaginação. Apesar do filme as vezes fazer parecer que ela tá errada, e ela realmente caiu em um mundo novo, na verdade ela mesma sabe que tudo ali é apenas fruto de sua imaginação.

Sua maturidade atual ajuda a lidar com essa informação, mas ela também vê nisso a chance para se fortalecer psicologicamente, pra enfrentar família e amigos no mundo real.


Todos os personagens ali são reflexos de pessoas que ela conhece, como releituras caricatas deles. Vencê-los significa treinar a mente para fazer o mesmo no mundo real, então ela se prepara e vai fundo na aventura.

No fim, ela pega a Espada Vorpal, vence o Jaguadarte, e ajuda a coroar a Rainha Branca, vencendo a Rainha de Copas.


Rainha de Copas


O conceito de Cartas de Baralho é muito lembrado nas obras sobre Alice (logo me vem a mente a série coreana "Alice in Boderland"), com exércitos de cartas do nipe de Copas, e a rainha única dominando sobre todos. O rei foi decapitado após os eventos do primeiro livro, e a Rainha continuou seu reinado ao lado de seu capataz, e amante, o Valete (que são as cartas "K" "Q" "J").

Ao invés de uma mulher gorda e dominadora, a Rainha de Copas, interpretada por Helena Bonham Carter, é ilustrada como uma pessoa de Cabeça Avantajada (aumentada digitalmente, e icônica), furiosa, que quer tudo apenas do jeito dela e manda geral perder a cabeça (a obsessão por cabeças deriva de sua deficiência).


Em partes, ela é referida também como a Rainha Vermelha, mas esta seria outra personagem, de outro livro, que foi misturado com ela para dar mais significado ao seu retorno. A Rainha de Copas é importante apenas no primeiro livro, e apenas no "País das Maravilhas".

Enfim, a Rainha de Copas tomou controle pelo mundo das maravilhas, dominando tudo e todos e instaurando sua monarquia abusiva. Ela usa suas três feras, e seu enorme exército, para aterrorizar a todos e conquistar o respeito forçado deles. Mas no fim, ela é deposta e banida por sua irmã, graças a ajuda de Alice.


Valete de Copas


Chega a ser incômoda a silhueta errada dele, com proporções anormais, ele tem membros mais esticados que o normal, e anda de um jeito estranho. O Valete é mais uma das cartas da rainha, e ainda de quebra seu amante.


Ele é um personagem do primeiro livro, que era apenas um capacho dos reis, carregando bandejas e sendo humilhado. No fim do livro mesmo, ele é acusado de ter roubado uma torta, e é o motivo do julgamento final pro qual Alice é convidada.

A parte da torta foi até relembrada aqui, com a Rainha acusando alguns sapos de terem furtado ela. Mas, o Valete de verdade cresceu na vida.


Além do Valete, há outras pessoas que andam com a Rainha, mas não parecem cartas. São apenas nobres estranhos, que exageram artificialmente em algum atributo físico, para servirem à corte da Rainha, e bajularem ela.

Como ela tem essa estranha formação na cabeça, fazendo parecer um grande coração, a Rainha busca em seus bajuladores um pouco de aceitação e agrado.

Mas tecnicamente, são todos apenas cabeças esperando o carrasco agir, quando a Rainha se cansar deles.


Rainha Branca


A Rainha Branca, personagem que surge no segundo livro, não teria relação com a Rainha de Copas ou com baralhos. Na verdade, ela é uma Rainha de Xadrez, outro jogo, tema do segundo livro. Nele, Alice encontra peças de xadrez, conhece os reis e rainhas brancos e vermelhos, tudo um resultado de mais um de seus devaneios.

Aqui, o filme retrata o exército de Xadrez com peças Brancas, e cria um elo com a Rainha de Copas. É uma reinterpretação apenas, unindo os dois mundos.


Contudo, ela ganha muito mais importância aqui, do que no próprio segundo livro. A Rainha branca parece canibal, tem trejeitos estranhos com a mão, e mexe com os mortos, fazendo inclusive a poção de encolhimento pra Alice (o que talvez signifique que ela produz os bolos e poções que ela toma ao longo da aventura... usando dedos humanos). Ela é muito estranha, e a atriz Anne Hathaway explora bem essa estranheza.

Mas ela também é uma aliada, quem conduz Alice para a luta contra o Jaguadarte, para assim conquistar a coroa de sua irmã.


A Rainha Branca seria irmã da Rainha de copas aqui, com direito a nomes reais e tudo mais. Porém, elas nunca se deram bem, e agora cabe a Alice colocar ordem na casa.


Chapeleiro Maluco


Johnny Depp faz o personagem mais louco, dentre os loucos, e consegue parecer até co-protagonista, mas o Chapeleiro nunca teve tamanho destaque na obra original.

Quem é mais importante é o Coelho Branco, que está o tempo todo na frente de Alice, ele sim como um co-protagonista. 


Mas no retorno dela pra terra das maluquices, se encontrar com o Chapeleiro a fez conhecer um pouco mais sobre ele.

O Chapeleiro, a Lebre e o Rato são os 3 viciados em chá, que festejam o ano inteiro pelo quase aniversário de todos. Mas, aqui ele ressurge como alguém que aguardava o retorno da verdadeira Alice.


Ele a identifica, ele a aceita, ele até parece formar um par romântico com ela (claríssima alusão aos anseios da garota com seu noivo forçado no mundo real, que inclusive também é ruivo e tem olhos claros). Mas no fim, ele é apenas fruto da imaginação dela.

Mas afinal, qual história não é fruto de imaginação de alguém? Isso torna ele menos real? O filme faz essas perguntas pra gente, o que é genial.


O personagem tem momentos exclusivos dele, servindo como Chapeleiro pras duas rainhas, e depois virando líder de uma revolta contra a de Copas, e a favor da Rainha Branca. Ele também tem passado, já foi vítima das feras da Rainha de Copas, e seu trauma o forçou a viver em festa com seus amigos.

Mas no fim o tadinho é só uma ilusão, e o filme encerra com a dúvida de tudo ter acontecido mesmo ou não. Claro que, existe a continuação, mas ela é um outro caso...


O Gato Sorridente



De todo o elenco, o mais interessante sempre é o Gato que pode voar e sumir, e sempre sorri. É um antigo aliado de Alice na viagem pelo País das Maravilhas em sua infância, e ressurge para mais uma vez guia-la até o fim.

Ele também mostra mais simpatia agora, escolhendo um lado pra lutar, ao invés de ser apenas um observador.


Absolen


A Lagarta sábia e fumante, que adora dar conselhos para Alice e dizer quem ela é ou não é, é também uma criatura vista no primeiro livro, e na primeira animação.

Mais uma vez servindo de sábia, ela surge para decidir se Alice é a verdadeira ou não, e se seria a mesma pessoa das profecias. 


E assim como ela própria evolui de lagarta para borboleta, Alice cresce se conhecendo melhor, e aprendendo a se impor, e seguir seus próprios objetivos sem querer agradar ninguém.

A Lagarta também aparece no mundo real, e tecnicamente ela é o estalo que faz Alice cair em devaneio e ilusões, surgindo primeiro no ombro do noivo em potencial da garota, que ela tira gentilmente.


E no fim do filme, como uma borboleta em sua embarcação. Alice no final alceia voo conquistando a posição de líder nos projetos de seu quase sogro (mesmo tendo dado um pé na bunda do filho dele).



Tweedle Dee e Tweedle Dum 


Muitos personagens vistos aqui não são do primeiro livro, e sim do segundo. Além disso, certos personagens que apareceram na Animação da Disney, também são do segundo livro. Os famosos irmãos gêmeos gordinhos, nunca aparecem em País das Maravilhas. Eles são personagens que Alice conhece no País dos Espelhos (e sim, os livros se passam em "mundos diferentes").


Isso mostra que até a animação original fazia essa mescla de obras. Mas lá, eles seguiram muito mais a risca a história do primeiro livro.

A personalidade dos gêmeos, discutindo constantemente sobre quem está certo e errado, é exatamente como a vista em Alice Através do Espelho.



Jabberwocky, JubJub e Bandersnatch



"Jabberwocky" é um poema de "Alice através do Espelho", o segundo livro, muito famoso por ser impossível de ser entendido. O poema usa palavras inexistentes, misturadas com palavras existentes, fazendo sentido em algumas frases, e em outras sendo totalmente confuso. A estrofe que mais faz sentido em todo poema, tem como palavras próprias, nomes próprios, de criaturas fantásticas citadas no restante do poema:

"Beware the Jabberwock, my son!
The jaws that bite, the claws that catch!
Beware the Jubjub bird, and shun
The frumious Bandersnatch!"

O poema recebeu traduções em vários idiomas, junto do livro é claro, mas traduzir as palavras e nomes seria o mesmo que tirar o sentido da obra, pois a loucura é o sentido. A questão é que os tradutores se esforçaram para tentar dar significado pra tudo isso, reinterpretando palavras que soavam similares, e buscando sentido poético e literal. Augusto Campos nos trouxe a seguinte versão dessa mesma estrofe:

"Foge do Jaguadarte, o que não morre!
Garra que agarra, bocarra que urra!
Foge da ave Fefel, meu filho, e corre
Do frumioso Babassura!"


A tradução da estrofe de forma literal, ficaria:

"Cuidado com o Jabberwock, meu filho!
Os maxilares que mordem, as garras que agarram!
Cuidado com o pássaro Jubjub e evite
O frutuoso Bandersnatch!"

No filme, as três criaturas citadas nesse trecho são representadas. O terrível dragão imortal, Jaguadarte (usaram a tradução de Augusto Campos na dublagem desse nome), é o vilão final que Alice precisa enfrentar.


"Fefel" contudo não foi usado. Preferiram chamar de "JubJub" como em inglês, e é o Pássaro Gigante que agarra todo mundo em nome da rainha.


"Bandersnatch" é a fera parecida com um buldogue gigante, que machuca o braço de Alice, e tem o olho arrancado, mas depois se torna um aliado, lambendo a ferida e a curando, quando tem seu olho devolvido. Aliás, agora sei de onde tiraram o subtítulo daquele filme interativo de Black Mirror, já que essa palavra só existe na obra de Lewis Carroll.


As feras da Rainha de Copas, são representações físicas do poema do segundo livro, e ainda mais que isso, eles são a personificação da lógica perdida de tais palavras malucas.

O poema chega a ser citado durante o filme, pelo Chapeleiro Maluco, algo que jamais ocorreu nos livros. Chapeleiro é de um livro, o poema de outro.

Outra coisa importante que pertence ao poema, é a Profecia do Oráculo de que uma Alice surgiria e enfrentaria o Jaguadarte. Num papiro enrolado, o desenho dela empunhando a Espada Vorpal é a prova de que apenas ela poderia vencer a criatura da Rainha.


Espada Vorpal


Mas o que raio é uma "Espada Vorpal"? Eu já ouvi esse nome no jogo da Alice de American Mcgee, e é a faca que ela empunha. Quando vi ela no filme, na forma de uma espada, imaginei que não era mera coincidência.

A Espada Vorpal é algo que também faz parte desse ilustre poema, citada em outra estrofe:

"He took his vorpal sword in hand:
Long time the manxome foe he sought–
So rested he by the Tumtum tree
And stood awhile in thought."

Era a lâmina que o herói usaria para deter o dragão. Pelo menos é isso que se entende entre tantas palavras desconexas. "Vorpal" também virou nome próprio, da Espada, famosa espada de Alice Através do Espelho, que nunca foi empunhada por ela de fato.

Esse poema é apenas algo que Alice lê assim que entra no mundo dos espelhos, que para entender ela se esforça mais falha. Para ler ela precisa colocar contra o espelho, e mesmo assim o significado fica muito vago pelas palavras que ela não compreende. Ela chega a pedir ajuda para um Ovo Falante (famoso Humpty Dumpty, o ovo que cai do muro e precisa ser remontado). 


É engraçado que no livro Alice cita a primeira estrofe do poema, e o ovo o traduz, explicando os significados das palavras que ela não conhece, nem ele. Porém a interpretação dele é grande de mais, ele transforma uma palavra, em duas, cria contextos totalmente aleatórios pra elas, e vai construindo um dialeto próprio praticamente, onde até Alice entra na brincadeira, criando significados do nada, sem lógica alguma. A aparência das palavras não tinha nada a ver com seus significados, e Alice mesma desiste de entender.

Mas, esse poema virou um dos maiores marcos da obra de Lewis Carroll, e ignora-lo é praticamente um crime em uma adaptação sobre ele. Por isso, Tim Burton (diretor) e Linda Woolverton (roteirista) se esforçaram pra incluí-lo.


Alice não é Alice


"Alice Pleasance Liddell" seria o nome completo da protagonista, porém isso nunca é dito diretamente. 

O autor fez anagramas, poemas, citações, e chega até a incluir o nome completo, porém de forma subliminar, como a primeira letra inicial de cada verso em um poema no final do segundo livro. Mas diretamente mesmo ele nunca cita o sobrenome. 

O nome de Alice aparece no poema final do segundo livro.

O nome verdadeiro de Lewis Carroll era "Charles Dodgson", e ele era amigo da família Liddell. Era um amigo próximo, e contava histórias pras crianças. A história de "Alice no País das Maravilhas" foi apenas um conto de viagem, que ele contou num barco para Alice (a pedidos dela) e suas irmãs (colocando o nome dela como protagonista pois ela quem pediu). Ela gostou tanto, que também pediu uma versão escrita pra guardar, e o resultado disso foi um manuscrito, e depois um bestseller.

Seu segundo livro foi aquele que trouxe as referências mais claras ao nome completo de Alice, talvez como uma forma de homenageá-la já que foi graças a ela que seu sucesso veio. Os livros mesmos foram dedicados ao seu nome.

A controvérsia é que, o autor teve um rompimento brusco na amizade com a família Liddell, e o motivo nunca foi revelado. Dentre boatos, o mais famoso é o de que ele queria se casar com Alice, e apesar dela ser apenas uma criança, na época não era algo incomum casamentos arranjados do tipo. Mas aparentemente, os Liddell queriam casa-la com alguém mais importante.


Já o nome da versão do filme é Alice Kingsley, filha de "Charles Kingsley", e provavelmente foi uma escolha da roteirista do filme, Linda Woolverton, para homenagear o Lewis Carroll com seu nome original. "Kingsley" significa "Campo do Rei" em inglês, o cria a sentença "Campo do Rei Charles".

Note que o dilema de Alice no filme é justamente um casamento arranjado, a vida adulta e as problemáticas em ser aceita como verdadeiramente é. Esse não é um tema visto nos livros de Lewis, mas é um tema visto na vida do próprio.

O filme seria uma homenagem a ele, reinterpretando sua obra.

E não é o único, muitos filmes já foram feitos, filmes, livros até, animações também. Recentemente até falei do filme em stopmotion nosense feito para retratar a história do primeiro livro em 1988 (muito maluco viu), e eu sou fã dos jogos do American Mcgee por causa da versão dele de uma Alice adulta, em Madness Returns.

É algo que eu curto, e até que o filme do Tim Burton foi bem mais pé no chão do que essas outras obras.

E bem, é isso.

Não sei se o texto ficou bom e claro, mas espero que sim, espero que tenha curtido.

Obrigado pela leitura.

See yah.

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4 Comentários

  1. Chapeleiro, você me acha louca??
    Louca, louquinha! Mas vou te contar um segredo: as melhores pessoas são.

    Nunca entendi essa frase até ficar mais velho, caraca...ah é Sr! preciso de contar isso
    Você é maluquinho, louco da cabeça, louquinho!!
    Seus textos são mais loucos ainda, é uma loucura sem tamanho, sem pé nem cabeça, então te pergunto, pra onde quer ir com tudo isso?
    E te pergunto com notória vontade de saber a reposta, importa muito onde quer chegar, afinal se não sabe para onde quer ir, então pouco importa o caminho que irá tomar, não acha? Viaje por meio das palavras, das alucinações, como a pequena grande Alice, escreva o que vem a cabeça em uma ordem que pareça fazer sentido, alguns loucos olharão e pensarão: ''esse cara é maluco!'' outros ainda mais loucos olharão e pensaram: ''Esse cara é doentio, ele é incrível!''
    Bom caso não tenha percebido, eu sou um dos ''ainda mais loucos'' deve ser uma loucura ser tão insistente como eu né? ou como você...imagina escrever sobre o que pensa sem se importar com o que os outros vão achar? isso é louco mesmo, mas como disse o Chapeleiro...ah, você sabe, as melhores pessoas são!


    Ok agora chega de brisa, mano, eu amo esse filme, de verdade, foi uma surpresa muito agradável abrir o Blog e achar essa análise kkkk, como você percebeu eu sou apaixonado nesse filme, acho que vou fazer uma tatoo do gato sorridente NO JOELHO (sim no joelho pq é engraçado...brincadeira n sou doido assim não)
    KKKKK meu Deus eu to chapado de sono, deve ser aquela lagarta azul me oferecendo uns pendrive diferente...

    ah e se você se perguntou no final, sim o texto ficou bom e muito claro, sua visão no final e nas entrelinhas sobre o que o filme representa pra franquia foi fantástico, e foi tão bom que me fez brisar nas lagartas (criei uma expressão slk) e fingir que tenho um alter ego com algum ser do país das maravilhas (sinceramente nem eu entendi oq eu fiz) KKKKK

    Enfim é isso Sr, see yah!!

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    1. Que comentário rápido! Cheguei a tomar um susto kkkkk. Adorei.

      Eu devia ter publicado esse artigo bem mais cedo, mas acabei enrolando, ainda bem que deu tudo certo e que o sr curtiu!!!!

      Eu... num faço a menor ideia pra onde quero ir e onde quero chegar, mas sei que enquanto tiver alguém como você, receptivo e curtindo essas brizas, eu vou continuar com um sorriso maior que o do Gato Sorridente.

      Tenho sonhos claro, adoraria um dia ver meus textos famosos!!! Mas, me contendo e alegro a chance de compartilhar o que penso sem medo.

      Obrigado por me achar insano, nesse contexto é o maior elogio que poderia receber. Obrigado por ler, por comentar, por acompanhar esse trabalho com tanto afinco!

      Eu não sabia que era tão fã assim de Alice... eis algo novo! Vai gostar do que virá a seguir... provavelmente.

      E estou feliz de mais pelo texto ter lhe agradado sr!!!

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  2. Puxa vida, enfim lendo a análise já deste filme! E bem.... Sobre o filme, eu não gosto nadinha dele. Ainda mais depois de ter lido o livro, inclusive já li em inglês, e devo dizer que ele faz jus a muita coisa que as pessoas costumam dizer que Hollywood ama fazer quando decide adaptar certas obras, que é basicamente dar uma releitura que enquanto referencia a obra original, sofre por basicamente refazer tudo de uma forma que fica bem longe do cerne da história em si, e o resultado costumo ser um tanto inferior. O filme tem um visual lindo, realmente, mas o tom dele é tão.. Exagerado, caricaturado e tão apelativo pros efeitos que me parece que o miolo, a história em si, acabou deixando bem a desejar, a começar pelo elenco do filme, A Mia é quase que totalmente inexpressiva, e não só aqui mas até em "Madame Bovary" ela segue completamente sem energia. A Rainha Branca chega a dar medo de tão bizarra que ficou e o mesmo pra rainha de Copas (embora eu dê um desconto porquê ela é vilã) e quanto ao resto não teve ninguém que realmente me cativou nem nada, sabe? Acho que quem ainda lembra mais o livro é a lagarta.

    Enfim, eu diria que é um filme com um visual muito bonito mas que realmente é melhor, se puder, ler o livro e ficar só com ele mesmo. A história do livro é tão carregada de nuances e simbolismos que não faltam ensaios e artigos sobre, mostrando inclusive que a história na verdade é muito mais lógica do que demonstra, e que o Lewis soube realmente dar uma história que ao mesmo tempo que diverte e entretém, também traz lições e coisas para reflexão inclusive nos adultos. Sobre também o desenho da Disney eu assisti muito na infância mas tempos depois já não achei tão bom. Acredito que a parte que os críticos costumam falar dele (o desenho afinal passou longe da expectativa na época do lançamento) sobre como eles meio que "americanizaram" as coisas e colocaram um monte de outras acabou fazendo da história uma salada confusa que acaba se afastando muito da obra original quando o assunto são as mensagens, os jogos de palavras e afins que permeiam a obra.

    Enfim, ótimo artigo senhor Shady. Vai fazer também da sequência? Soube que se a primeira parte ainda teve seu fandom que a defendeu, a segunda foi totalmente apedrejada, de um jeito que se eles queriam fazer um novo filme acabou ficando pra lá. Tenho a impressão que lá eles pegaram tudo que eu já não gostei neste filme e aumentaram mas... Não sei, não posso falar muito pois afinal não assisti.

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    1. Adorei sua visão da obra original sr Marcio. Eu nunca li, na verdade minhas memórias da animação são vagas, então todo meu conhecimento se limita a este filme e algumas curiosidades, por isso o que tu disse me fez enxergar um lado que desconhecia.

      Gosto muito da essência de Alice, sempre curti, mas peco no quesito leitura.

      Eu pretendo sim, mas preciso preparar meu estômago... me lembro que quando assisti eu simplesmente terminei enojado... então vou me preparar pra rever e escrever.

      No mais... estou livre de Palworld!

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