SérieMorte: Pacificador (Peacemaker)

Boa série... 

Boa leitura.

Quando comecei a assistir Peacemaker foi por uma curiosidade resultante de comerciais insistentes na televisão. Nem em sonhos eu pensaria em assistir algo sobre um cara de capacete brilhante que acha que é super-herói, mas tem ideais distorcidos de paz e justiça, sendo na verdade um assassino perturbado.

Não importava se ele foi um bom personagem no satisfatoriamente redentor Esquadrão Suicida (2), ou foi interpretado por alguém bem carismático (John Cena), a essência do personagem era desinteressante pra caramba, sendo um tipo de sátira bem deturpada do Capitão América, pelos olhos da DC Comics, que nunca teve qualquer destaque ou relevância.

Até em seu desfecho no filme, não me pareceu nada promissor a proposta de criar uma série sobre ele. Dentre tantos personagens legais, o que falariam de um zero a esquerda como o Pacificador?

Que bom que eu tava errado, pois que série bacana viu.

Ela é toda politicamente incorreta, violenta e grotesca, mas é justamente isso que a torna tão única.

Em tempos de "cancelamento", uma série que ousa pegar pesado nem sairia do papel, porém felizmente foi produzida, lançada via streaming na HBO Max, e bem aceita pelo público, mesmo abordando temas extremamente sensíveis.

Pior que, eu diria que esta é uma série complicada de assistir, pois ela brinca com coisas bastante tensas. Rolam piadas de todo tipo, e muitas das vezes são bem ofensivas e, perigosas. Mas achei curioso o fato de a própria série se proteger disso, com seus personagens, nos quais ela se respalda ao mostrar características mais intimas.

O lado bom é que em sua história ela aborda uma visão diferente do costumeiro. Os "heróis" aqui são muito mais humanos, com falhas, defeitos e fraquezas. O protagonista por exemplo, mesmo sendo todo musculoso, é cheio de problemas e empecilhos, tanto físicos quanto psicológicos, e constantemente se vê completamente ferrado.

Ele se fere muito, se arrebenta e machuca e isso permanece. E o pior é que suas feridas vão além das físicas, e mexem fundo com sua mente, o que só torna ele ainda mais humano.

Sei que tem outras séries de super-heróis que pendem pra esse lado da humanificação em meio ao fantástico. "The Boys" e os humanos enfrentando os heróis por estes serem vilanescos de mais, ou então "Gavião Arqueiro" e "Falcão e Soldado Invernal", que mostram heróis sem poderes em um mundo de super poderes... porém em nenhuma dessas séries o lado humano realmente vingou.

Os personagens se machucam, mas não demora até se superarem e lutarem mais ainda. Não tem poderes, mas nem sempre respondem de forma crível a eventos que com certeza deixariam terríveis hematomas, e quando o roteiro pede, eles tiram super-força, super-resistência, ou só super-sorte do bolso.

Agora em Pacificador, o cara apanha, sofre, e sai com cicatrizes severas. Até mesmo quando há conveniências, elas surgem como consequência de algo que ele próprio fez antes, ou seja, soam críveis. (Poxa, tem um episódio quase inteiro sobre ele saindo de um prédio pra fugir da polícia, e ele só se ferra de tantas formas, ainda soando interessante por incrível que pareça).

E olha que ele até tem um poderzinho hein. Os capacetes que ele usa oferecem artimanhas tecnológicas que podem salvar a pele dele, mas ainda assim, é apenas um acessório pra potencializa-lo. Ele próprio é um merd4.

Sabe "Kick Ass"? Essa série lembra muito ele, pois mostra pessoas normais querendo ser super-heróis, fazendo coisas na base do esforço e vontade, e até se fantasiando se possível, tudo pra se parecerem mais com super-heróis reais, e tentar fazer a diferença.

O que difere aqui é que os heróis poderosos realmente existem, e todas as ameaças poderosas também. Alienígenas, monstros, habilidades que violam a física, isso tudo existe (e é citado, isso quando não aparecem), mas o foco são nos personagens humanos, nos fracos, nos que nunca sonhariam em lidar com tudo isso, mas lidam.

É legal acompanhar a jornada deles mas ao mesmo tempo... é tão terrível. Percebemos o quão grande é o universo dos super-heróis, e o quão pouco nos mostram. E o quanto tudo isso é capaz de nos abalar, e mudar tudo, até mesmo como observamos tudo.

É complicado, e sinceramente estou em dúvidas sobre o que escrever, então vou me basear na Abertura da série, pois ao meu ver, é a melhor forma de descrevê-la.

Se você assistir a abertura já entenderá o que Pacificador é. No começo é algo estranho, pula pra algo engraçado, depois pra algo misterioso e por fim, em algo triste e impactante.

A mesma abertura, sem a menor alteração, consegue causar diferentes sensações a cada vez que você assiste, dependendo do episódio em que está.

Foi essa variação que me causou... desconforto. Eu não sei como explicar em poucas palavras, ou sem dar spoilers, então apenas me vejo preso a ideia de que não consigo fazê-lo.

Então, que tal ao invés de contar a história da série, eu apenas falar de como a abertura me afetou a cada episódio?

Bem, no primeiro episódio, ela é estranha, engraçada, e eu não consegui parar de assisti-la. Tanto que fui no youtube e salvei ela na minha playlist, a abertura e a música dela (Do Ya Wanna Really Taste It - Wig Wam), e fiquei ouvindo e cantando junto, pensei até em aprender os passos da bizarra coreografia. (A própria HBO publicou ela no YouTube)

O que notei inicialmente nela foi a graça dos movimentos, a esquisitice, e com certeza o fato de todo mundo ficar com cara séria enquanto dança. É algo muito incomum, uma abertura tão icônica e bizarra.

Aliás, não é só no primeiro episódio que ela nos deixa impressionados e entretidos. Isso se estende nos 3 primeiros (algo muito bem explorado pois os três episódios foram lançados juntos), nos fazendo sentir vontade de rever a abertura todas as vezes, rindo e sorrindo no processo.

É a partir do quarto episódio que tudo começa a mudar. Por causa dos eventos vistos, passamos a teorizar enquanto a abertura passa. Notar os detalhes, os personagens, tentar antecipar quando aqueles que ainda não apareceram aparecerão, e qual o impacto deles ao ponto de estarem lá no meio da coreografia.

A gente pensa qual a importância deles, e quando vão aparecer... e quando aparecem, aí a coisa começa a mudar outra vez.

Com as revelações nos quinto e sexto episódios, nossa visão da abertura (a minha pelo menos) passa a girar em torno do mistério. Teria ela algum significado? Será que o fato dos personagens estarem sérios simboliza algo? Será que a coreografia tem uma razão pra ser daquele jeito? A letra? Será que todos ali estão no mesmo barco? Será que há algo de errado neles? Pois é... dúvidas assim começam a surgir e observamos com ainda mais cautela, já perdendo o interesse na diversão e nos focando na interpretação.

Mas tudo fica diferente nos dois últimos episódios. Sempre antes da abertura, há uma introdução com alguma conversa ou evento, geralmente ditando o tom que nos fará entrar na música. Eis que estes começam de forma bem mais séria, e mostrando coisas que destoam completamente do lado divertido.

Antes da abertura, algo terrível é mostrado, algo que nos faz ficar chateados, e aí, a mesma música divertida, a mesma coreografia debochada, a mesma expressão séria. Essa expressão em todos os personagens já começa a fazer sentido, e nos faz entender a razão de estarem daquele jeito.

Vê-los causa desconforto, agonia, nos faz até ter saudades e reviver momentos negativos da própria história. Muitos deles sofreram mudanças ou desfechos e, revê-los ali traz um novo significado, algo mais profundo, e que ainda nos deixa pensativos sobre o destino daqueles que em enredo, permanecem iguais.

É no último episódio que a resposta definitiva sobre o significado da abertura vem. Essa mudança era o objetivo, essa transformação de animosidade pra depressão, sem mudar uma única parte. Ela tem seu significado sórdido esfregado na nossa cara, e que me fez sentir desconforto, tristeza, e preocupação.

O episódio, assim como todos os outros, tem ação, humor, conversas furadas, piadas sujas, deboches, violência, enfim, tudo o que a série sempre teve. Mas tudo vem mais forte, impactante, cruel, e nos faz refletir.

Mesmo com certas participações especiais, a série não consegue nos fazer "rir". Sim, a gente acha engraçada a piada, mas ao mesmo tempo não parece certo rir. Sabe onde senti algo parecido? "Coringa".

Essa dualidade, com cenas que tem duplo significado e que ainda por cima transportam uma sensação estranha pra gente... é isso que senti.

E confesso, eu gostei.

Pacificador é tosco, engraçado, pavoroso, ingênuo, sofrido, esforçado, psicologicamente perturbado, mas... é de fato o Pacificador.

A série sobre ele é exatamente como ele.

Compensa assistir, e te garanto que será uma experiência única e impossível de repetir, então aproveite bem pois, você nunca mais sentirá a mesma coisa ao ver os episódios.

Enfim, ela tem começo, meio e fim, a eu não vejo sentido numa segunda temporada. Também não há nada que a impeça, mas eu acho que é uma história boa pra se aproveitar uma vez e deixar assim, afinal de contas o impacto da obra não funciona duas vezes nem nela própria, imagine numa continuação.

Porém, espero que mais trabalhos assim surjam, e ver que canonizaram o Pacificador nesse bizarro multiverso da DC nos cinemas, me deu mais empolgação com os demais projetos deles.

Gostei de ver que ao passo que a coirmã pende pro lado familiar, eles apenas estão mirando no lado mais adulto. A DC funciona muito bem com projetos assim, e eu curto.

É isso.

Aliás, se for assistir, nem se preocupa que não é necessário conhecer todos os filmes da DC. No máximo, se quiser, pode ver "O Esquadrão Suicída" só pra ver o Pacificador em ação pela primeira vez (aliás, é curioso que se você vir a série antes, sua visão dele mudará TOTALMENTE). Não é necessário, até há referências ao filme, mas você não precisa conhece-lo pra entender ou se envolver.

Mas, se serve de dica, SEMPRE VEJA A ABERTURA.

Ela muda sem nunca mudar.

Obrigado pela leitura, e boa série.

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10 Comentários

  1. Achei muito massa a abertura mudar condicionalmente ao longo da serie, não a vi ainda, mas isso já me fisgou.

    Alias...vi em um certo lugar a abertura do primeiro episódio (que tem a águia e tals) ai eu fiquei pensando...


    A águia é CG ou uma águia de verdade? Parece óbvio a resposta mas se repara pra ver, os movimentos e a sombra dela é muito perfeita para ser CG, mas ao mesmo tempo, uma águia não se mecheria daquele jeito, isso fica mais evidente depois dos primeiros 15 ou 30 segundos, ai realmente parece CG, mas durante esse tempo...meu...eu não sei o que eu to vendo kkkk.

    Muito dahora as imagens serem quase uma resposta para o parágrafo que está em cima dela, esses detalhes são muito maneiros.


    Mas agora, o "a gente acha engraçado a piada, mas não parece certo rir" isso é na verdade muito normal pra mim, eu lembro daqueles desenhos como tom e jerry, por algum motivo eu sentia pena do tom por apanhar de um rato...sei lá!!! Kkkk.
    Mas quando esse efeito é bem aproveitado, deixa um impacto muito profundo na obra (como no Coringa mesmo).


    Enfim, see ya.



    Falta.........4.

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    1. Sr Wilson, valeu por aparecer!!!

      Tipo, a abertura é exatamente a mesma desde o primeiro episódio, o que muda é a forma como nós a enxergamos. Você verá!

      A águia é CGI, mas de um tipo quase indistinguível, só dando pra notar justamente pelos movimentos da águia, que seriam impossíveis de treinar ou manipular em um animal real (mas são sempre bem convincentes).

      Heh, e eu peguei tudo do trailer ainda por cima, fácil fácil. Disney não permite tirar fotos (tem que baixar pra poder fotografar, um saco) então, a gente dá nosso jeito pra isso. A parte ruim de ver coisas em streaming é isso.

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    2. Nussa Zé, que trabalhão...

      Mas pera...Disney? O filme é da Disney? Que doidera.

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    3. Errei, é HBO Max, mano é tanto streaming que me perco.

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    4. kkkkk, eu te entendo totalmente

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    5. Mas de fato é um mal de todas essas plataformas. Não da pra fotografar.

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  2. Ótimo texto,ótima série.
    Foi bom ver que a Warner não estragou uma coisa relacionada à DC,e que é possível sair coisa boa se der liberdade às pessoas certas,infelizmente a experiência com Snyder deixou os executivos muito afoitos,espero que os próximos lançamentos afastem o gosto amargo do que liga da justiça representou,obras baratas e com gente criativa com liberdade podem sim gerar o tão sonhado lucro.
    E que venham mais textos sr. Morte.

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    1. Obrigado sr Mário. Vamos torcer pra que as próximas séries sejam boas, afinal, todo mundo ganha com isso!!

      Eu to enrolando pra jogar Fatal Frame e ver uma série nova... mas logo trarei mais conteúdo pra cá.

      Vlw por comentar sr, isso motiva de mais.

      E sim, esperemos que os próximos projetos da Warner resultem positivamente.

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  3. Top demais depois dessa crítica Max aí é que quero assistir...

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    1. Espero que goste da série, ela é muito boa. E obrigado!!!

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