Obsessão
Eu estava evitando este filme, por acreditar que era do tipo que apela pra romance e vai criando tensão por "relações ruins", e eu já to meio cansado desse estilo. Só que, eu me surpreendi pois é basicamente um episódio de "Além da Imaginação" não oficial, tão coeso e tenebroso, que me fez pular da cadeira umas 2 vezes, e ficar incrédulo com o que vi.
Este filme ganha fácil como melhor terror de 2026, pois ele é medonho do começo ao fim. Nele de fato tem muito romance, mas do pior tipo que se pode imaginar.
Bem, tem spoiler.
Aliás, tem muito mais que só spoiler, acho que tecnicamente conto o filme inteiro aqui. Então caso queira assistir sem perder as surpresas, saiba apenas que sim, este é um filme que vai te deixar assustado.
Caso queira ler, eu avisarei no instante em que ligar o "Modo Spoiler". Então até ver o aviso, pode ler tranquilo. Quando ver o aviso, prepare-se.
Boa leitura.
Qual o Enredo?
"Obsessão" é sobre um cara que quer se declarar pra amiga do trabalho, pois está apaixonado por ela, mas ele é tímido demais pra isso. Então graças ao destino, ele de repente consegue realizar seu desejo, e vivencia um amor incondicional e platônico com ela, até perceber que acabou cometendo o maior erro da sua vida.
Falando assim parece até meio genérico né? Aposto que você imaginou que quando eles se aproximaram, e se conheceram melhor, ele descobriu algum segredo macabro dela, ou começou a se sentir incomodado, ou ela própria passou a se incomodar com algo, enfim, relações são assim certo?! Mas, o melhor da obra é que ela vai pra outra direção.
Ele simplesmente explora o lado mais cruel de tudo: E se para amar alguém, você for forçado a esconder quem você realmente é?
Mas calma, não é nada como filmes recentes que também trataram de amor e terror misturado, tipo "A Empregada" ou "Juntos" (são bons filmes aliás, mas é outra pegada).
Lento e Incomum
O filme é bem chato no começo, e as conversas são lentas, pausadas, as vezes sem trilha sonora, e tudo parece até meio improvisado.
Soa até amador, pois como não há muitos cortes de câmera, nem transições pra "cortar o respiro dos personagens" a gente observa tudo com um pouco de tédio.
E ainda por cima esse tédio é reforçado com um carisma inexistente do protagonista, que não é expressivo, é tímido, é sem graça e sem um pingo de empatia por parte do público, aliás, por parte dos próprios amigos que ele convive.
O cara é muito sem graça, e quase nos expulsa do filme, até que percebemos que é proposital.
Uma Estética Assombrosa
Além da lentidão e ausência de trilha em muitas partes, há muitas, mas muitas pausas.
O filme nos obriga a encarar os personagens por segundos até eles reagirem. E o curioso é que isso se repete tanto, que no começo é muito incômodo, mas vai se tornando normal, ao ponto de virar algo característico e necessário.
Isso pois o terror cresce exatamente por causa dessas pausas. Quando somos obrigados a ver personagens nos encarando, começamos a ter medo pois eles parecem mesmo estar nos encarando. Pior é quando percebemos que no fundo, tem gente nos encarando também... e atrás da gente... também.
E soma isso com coisas passando ao fundo, cenas rápidas de impacto, um simples sorriso com lágrimas... são tantos elementos sutis que no combo vira algo incrustrado nas nossas almas.
⚠Modo Spoiler Ativado⚠
Daqui pra frente, leia por sua conta e risco!
O Vale da Estranheza
O longa prefere apostar no estranho e bizarro, ao invés de apenas no mero psicológico. Até parte do segundo ato a gente ainda acredita na possibilidade de não ter nada místico envolvido, quando é assumido que sim, tem magia, tem algo sobrenatural ali no meio, mas isso não afeta o tom do filme.
Na verdade, ele já dita o tom estranho desde o início, começando abruptamente no meio de um diálogo, sem apresentações, apenas escancarando que tudo será inconveniente. Mas o curioso é que ele não depende da magia pra funcionar, ele funciona apesar dela.
Quando ele decide mostrar algo sobrenatural, ele o faz com normalidade, e a normalidade só dobra a aposta na estranheza. Tem algo mais esquisito que pessoas esquisitas agindo normalmente diante algo extremamente esquisito?
E ainda assim, se mudássemos o elemento pra algo real, como hipnotismo ou múltipla personalidade por exemplo, a estranheza permaneceria. Digo principalmente no caso da vítima da história, que tem seu comportamento oscilante e isso que mais nos impacta... no começo.
A Reviravolta que Muda Tudo
Um artefato que realiza desejos. Ao inserirem essa ideia tudo muda completamente, mas levando seu próprio tempo pra isso.
O protagonista, Bear, compra um "brinquedo" que promete realizar um desejo, destinado como um presente pra amiga que ele ama, mas que ele usa pra desejar que ela o ame acima de qualquer coisa. E bem, isso acontece imediatamente.
De início, tudo ainda parece só um aglomerado de coincidências, que gerou paranoia no protagonista, mas ainda cabendo em cenários onde seria de fato possível a amiga amá-lo repentinamente, e o comportamento dela mudar por causa de problemas pessoais.
Só que ao longo do filme o lado "sobrenatural" ganha mais e mais força, até culminar em algo real. Suficientemente real para nos deixar perplexos pois, tudo só desanda e piora mais e mais.
Terror Psicológico
Isso tem e tem muito, basta pensar na garota amada, chamada Nikki. É que, na realidade ela é a grande vítima de toda a história.
Ela tem seu livre arbítrio tomado, e passa a amar alguém que ela não ama, é usada fisicamente enquanto sua mente assiste sem poder se defender, é abusada, é abandonada, agredida, e nem mesmo pode gritar por socorro.
Quando começamos a perceber o quanto ela está sofrendo, algo que o filme revela com constantes tentativas de auto sabotagem por parte dela, além de outros indícios bem óbvios, nós sofremos por ela.
E convenhamos, a expressividade exagerada da atriz ajudou, mas ajudou muito a nos deixar desconfortáveis.
Inclusive há uma parte em que Nikki lê um poema que escreveu, fazendo alusão a irmãos se pegando, o que é uma indireta ao fato dela sempre ter visto Bear como um irmão, muito mais que um amigo, e que ao passar pelo que está passando, a tortura misturada ao trauma é gigantesca. Só pensa no quão terrível é ser usado por alguém que você ama, mas não do jeito que essa pessoa espera que você o ame... meu.
Horror e Violência
Tem umas cenas que são de aterrorizar, muitas delas sutis, e de canto, mas algumas escancaradas e explosivas.
E tudo é bem previsível eu diria, mas o jeito como ocorre é no tempo ideal pra espantar. Sem precisar dos acordes sonoros genéricos, sem precisar de crescentes de tensão ou anúncios, acredito que o melhor do filme está na estética que ele adota no seu horror.
Nós sabemos que se sairmos de uma casa, onde há uma mulher ciumenta e potencialmente psicopata, pra nos encontrarmos com a amiga dela que ela sabe que tá afim da gente, coisa boa num vai rolar. Mas mesmo sabendo disso, mesmo antecipando que vai acontecer algo, estamos tão acostumados a ouvir musiquinha com um "bam" que na espera disso, surpreendemos com o puro terror.
E isso é só um exemplo, mas cada diálogo na escuridão, cada andar invertido, cada movimentação quebrada como se fosse uma boneca, cada parada no tempo, cada sorriso... meu, todo o visual da obra é medonho.
Vilão da Própria História
O Protagonista é o Antagonista de si mesmo. Ele cria o problema, ele é seu maior inimigo, e isso antes mesmo do fator mágico entrar na história.
Ele se apaixona pela melhor amiga, não encontra coragem pra contar e na verdade, ele confunde muito as coisas. Ele confunde amizade com amor, ele não entende o carinho dela, e o pior de tudo, ele tenta tirar vantagem disso.
Em uma parte da história ele tem uma conversa franca com a verdadeira Nikki, onde ela ao dormir consegue assumir a voz do boneco que virou seu corpo, e pede por misericórdia. Nessa hora a preocupação dele não é com a Nikki, mas sim com o fato dela não estar feliz vivendo com ele.
É assustador perceber que aquele que acompanhamos é o verdadeiro mal, mas ao mesmo tempo ele é uma vítima deste mal, enquanto faz outros serem vítimas ao lado dele.
A Máquina dos Desejos
O "Brinquedo" é um bastão de madeira numa caixinha, que quando retirado toca uma musiquinha. Depois, se quebrado ao meio, ele promete realizar um desejo.
O curioso é que ele é normalizado ao máximo, os vendedores da lojinha de cristais tratam o uso dele e o fato dele ser 100% funcional, como algo comum. Chega a ser incômodo como eles reagem, e tem até alguns sinais de que eles usaram do brinquedo.
Tem até um Suporte Telefônico, que trata do uso dele com a maior naturalidade. Ao ponto de falarem "Se você morrer o desejo acaba" como se isso fosse uma opção.
Mas o mais interessante, é que mesmo soando tão absurdo, isso também parece crível. Na história, o protagonista questiona, todos com quem ele fala também ficam espantados, e há dúvidas. Mas... se fosse algo real mesmo, o efeito seria exatamente este que assistimos.
Desejar o que quiser e receber com garantia talvez não seja o melhor... e o filme sabe muito bem como nos mostrar isso, sem apelar, sem exagerar.
O Final Perfeito
O desfecho é cruel justamente porque transforma o desejo de Bear em sua própria punição, o que na lógica rolou o filme inteiro mas chega no ápice nessa parte. Ao tentar desfazer tudo, ele descobre que o mecanismo dos desejos continua funcionando da forma mais irônica possível.
Tipo, ele não mostra totalmente, ele sugere e a gente entende. A musiquinha do brinquedo sendo usado, o repentino desabrochar do amor no coração de Bear, e o desfecho shakespeariano onde uma ação, gerou uma reação... é perfeito.
Nikki acaba condenando Bear ao mesmo tipo de prisão emocional que ela sofreu durante todo o filme, criando um ciclo perverso onde ninguém realmente vence, e pior, que impede Bear de decidir por si próprio se vive ou morre.
O último momento, quando ela chora, e depois ela se liberta pra chorar de verdade, não soa como um final feliz ou triste, mas como o instante em que o verdadeiro peso de tudo simplesmente aparece.
Conclusão
Se ainda não assistiu, assista.
Mesmo com tudo que eu disse, assistir é uma experiência obrigatória pra qualquer amante de terror. E caso você só queria ver algo pra tomar sustos e ficar traumatizado, manda ver que este filme entrega isso.
Achei um terror perfeito, e eu só diria que faltou um narrador surgindo caminhando e dizendo:
"E assim, todos tiveram tudo que desejaram, Bear amou e foi amado, Nikki conseguiu sua liberdade, e quase todos ficaram felizes para sempre, aqui, em Além da Imaginação."
Ai seria oficial! Mas do jeito que termina tá perfeito. É assim que terror precisa acabar... traumatizando.
See yah.
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