A Empregada
Acho curioso como eu sempre ignoro livros pela capa, mesmo sabendo o quanto isso é um erro. Mais uma vez, julguei essa obra por achar que não me agradaria só pela capa não ser chamativa, e depois de muita insistência de um grande amigo, cedi, e não me arrependi.
"A Empregada" (The Housemaid) é um filme de 2025, que tem cara de drama, flerta com suspense, se identifica como thriller, mas é puro terror psicológico e social pra pessoas de estômago forte!
Sem exagero, é um filme que mesmo sem precisar apelar pra violência escancarada, entrega momentos tão tensos e desconfortáveis que você sai assustado, sem entender mas completamente enojado e apavorado.
Do que se Trata?
Conheça a história de Millie, uma moça de muito respeito que consegue o trabalho dos sonhos, como empregada doméstica de uma patroa muito gente boa.
Então não demora até ela começar a perceber que viver no carro é melhor que vida de CLT.
Uma patroa bipolar, um patrão com um vozerão que derrete até a alma de quem escuta, e uma criança esquisita de vocabulário exageradamente culto, a pobre empregada passa a ter de conviver com múltiplos tipos de abusos, até fazer aquilo que todo trabalhador gostaria de fazer com seus patrões.
Parece uma história simples certo? Mas o mágico dela são as reviravoltas contínuas carregadíssimas de suspense, que nos faz odiar e amar os personagens nos momentos mais inesperados.
Vilões e Mocinhos
O filme bagunça nossas mentes com diferentes perspectivas dos mesmos personagens. Boa parte dele é sobre a empregada, que já nos deixa cheios de pergunta sobre como uma moça como ela chegou na situação em que se encontra, mas quando ele mostra o lado dos patrões, a gente fica completamente incrédulo.
Não da pra ter certeza sobre as intenções de ninguém, igual a vida real. Nunca sabemos o que se passa pela cabeça do outro, ou o que esperar de suas ações, ou pior, o que eles passam quando não estamos olhando. O filme mesmo conosco assistindo, nos guia apenas pelo que ele quer mostrar e no momento ideal para mostrar.
Apesar de que tudo está ali, e é mostrado desde o começo mas como não temos ideia de pra onde olhar ou no que focar atenção, muita informação fica subliminar até que tudo é revelado, e tudo faz sentido.
Da estranheza do comportamento alheio, até detalhes de cena ou simples cortes rápidos, tudo é pura informação, como aquelas pecinhas dos quebra-cabeças que tanto queremos montar ao ver filmes de mistério.
Ele funciona justamente por causa disso, sendo uma lição de como construir um enigma audiovisual com maestria.
Regra dos 10 Segundos
Mesmo sendo um ótimo filme ele tem um exagero na erotização de algumas cenas. Creio que isso venha justamente do livro em que ele se baseia (The Housemaid, de Freida McFadden) que trata de assuntos carnais com muita precisão... mas quando algo assim é transmitido no audiovisual, a linha tênue entre relações sexuais e pornografia precisa ser abordada com cautela.
O espectador muitas vezes não está pronto pra ver nudez gratuitamente, e numa história que já tem grandes tendências narrativas que lembram filmes só para maiores, com atores e atrizes bem atraentes (beirando o absurdo lógico em certos pontos), é muito fácil desviar o foco só com uma cena exagerada.
Em alguns momentos infelizmente isso acontece, e cenas de pura comelança rolam abertamente, com censura parcial (tem nudez frontal e nádegas, além de muito gemidão). Se o filme já traz um desconforto pelo enredo ser sensível e cheio de indiretas, quando cenas assim rolam, dúvidas surgem se é mesmo algo focado em mistério.
Por isso que geralmente eu dou uma tolerância de 10 segundos. Se o filme se respeita, e respeita sua história, ele não precisa apelar pros tarados de prontidão. E aqui este filme não passa no teste, principalmente por ele nem precisar das tais cenas.
Já fica muito claro e bem comunicado só de incluir 3 ou 4 segundos de momentos carnais. Passar disso é exagero visual, que compromete muito a atenção do espectador... é aquele momento em que geralmente as pessoas ou pausam a cena, ou pulam justamente por não ser o que desejam ver.
Violência Repentina
O mesmo já não vale pra violência, que é momentânea e bem incluída. Nunca escancaram além do suficiente pro espectador entender o que houve, não fazem show de carnificina mesmo que haja isso em tela, pois não é esse tipo de foco que o filme quer dar.
Sua história é respeitada nesses momentos, onde o choque não vem pelo que se vê, mas pelo que se sente, e ele sabe transmitir muito bem a sensação de satisfação misturada com revolta.
Temos medo do que pode acontecer, com a tensão crescente graças a música, e fica bem fácil se tornar receptivo a isso quando o filme sabe o que faz.
Por isso, mesmo tendo sim alguns momentos pra lá de cruéis, eles não são exagerados nem gratuitos, o que é um baita ponto aqui.
Personagens Principais
Geralmente não comento de personagens em filmes assim, mas acho legal pra mostrar um ponto que notei, sobre como o elenco pode mudar drasticamente a ideia do filme só pelo jeito que é apresentado.
Millie (Sydney Sweeney)
Essa é a empregada contratada, uma jovem bastante atraente, que dificilmente uma mulher casada consideraria para o cargo de empregada doméstica interina, com direito a moradia e muito flerte liberado pro maridão.
Isso levanta uma bandeira de alerta pra gente sobre pra onde o filme pretende ir, mas é curioso quando ele sustenta a escolha na própria narrativa: Tudo é proposital.
Nina Winchester (Amanda Seyfried)
Essa é a patroa, que é igualmente atraente e mais uma vez dá um alerta sobre o tipo de filme, apesar dela já ser bem menos provocativa visualmente.
Ela é interpretada pela Amanda Seyfried, que eu particularmente não conhecia pelo lado dramático, apenas o lado mais cômico, e estranhei bastante sua personificação como "vilã". Mas, não demora até nos acostumarmos, e rapidamente ela se torna insuportável no papel de Nina.
Andrew Winchester (Brandon Sklenar)
Esse é o maridão boa pinta, rico, musculoso, e com uma voz que meu deus...
Improvável assistir ao filme e não estranhar o comportamento dele logo de cara, quase como se do nada uma música sensual fosse tocar e muita sacanagem rolar... e o pior é que tem momentos que o filme faz questão de brincar com essa ideia e assusta... realmente assusta.
Enzo (Michele Morrone)
Um jardineiro musculoso, sensual, e igualmente atraente como todo mundo... cara, é de se esperar e antecipar que tudo vai tomar um rumo muito diferente de terror.
Mas curiosamente, parece que ele existe para provocar o espectador causando expectativas equivocadas só pra impactar.
Cecelia (Indiana Elle)
A única personagem mirim de destaque, é também a única que não entra nessa bolha estranha de indiretas que o filme tende a usar. Na verdade ela existe para criar o contraste a tudo isso, com uma visão muito mais inocente, e bem deturpada dos reais significados de tudo.
O jeito que ela se comporta, levanta mais suspeitas do que todos os outros, e não é atoa que usaram a Casa de Bonecas dela como promoção em algumas capas e cartazes de filmes, pois ela é uma das pistas principais do que tá acontecendo de verdade, e não percebemos até ser tarde.
Demais Personagens
De resto, os personagens são pontuais, há um ou outro como a vovó grisalha, ou citações a personagens que nem aparecem, mas tem peso narrativo grande. Tem até uma policial que é literalmente o único alívio cômico do filme, que só é cômico pois nos faz rir, de nervoso misturado com, novamente, satisfação.
Conclusão
A Empregada é mais que um thriller, é um terror que se enraíza na cabeça do público e nos faz pensar. E se tem algo que é excelente quando se trata do gênero, é nos fazer pensar, reassistir, conversar e teorizar.
Mesmo ele dando sim todas as respostas que precisa, ele deixa pontas frouxas (nem digo soltas pois ele amarra tudo, mas ele dá espaço pra encaixar ideias), para que pensemos além do que tudo que ele já contou.
A ideia do lustre por exemplo, mesmo nunca havendo qualquer indício narrativo da sua origem ou significado, basta olhar um pouco e juntar as peças que o próprio espectador compreende que a mensagem principal do filme sempre esteve escancarada.
É bacana, nos faz sentir satisfação real, e ainda nos atrai pra assistir tudo novamente, com um novo olhar.
Eu particularmente gostei e muito, e acho que vale a pena conferir mesmo se mistério ou terror social não for seu foco.
O filme até parece um daqueles da A24, e ele puxa pro lado de abusos físicos e psicológicos, por isso embrulha o estômago. A informação vem forte e pesa...
Enfim, é isso.
Espero que tenha curtido e...
See yah.
2 Comentários
Claramente vc tem algo contra nudes/sexo artistico kkk
ResponderExcluirContra fatos não há argumentos... pesei a mão nessa parte né?! rs...
ExcluirObrigado demais por comentar, isso me estimula a continuar.
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