Animação: Harley Quinn - Explicando a Série

Harley Quinn


Palavrões, violência explícita, humor negro, sátiras ácidas de cunho duvidoso, essa animação da DC inspirada na vilã coadjuvante mais famosa do século, parece mais um grande tolete de merd4 jogado num ventilador virado pro público, e acredite... não é ruim.

É esquisito, difícil de digerir de início, difícil até de entender numa primeira olhada, mas depois de um esforcinho básico as coisas começam a fazer sentido, e passa do extremo absurdo escatológico, pra um humor refinado que apenas os mais preparados são capazes de suportar.

Então, bora falar da série em si, de todos seus prós e contras, e de como ela surpreende mesmo sendo um "Teen Titans Go" para adultos.

Boa leitura.


De coadjuvante a Protagonista


Nascida como namorada do Coringa, a Harley Quinn acabou se destacando desde sua origem, recebendo cada vez mais holofotes até inevitavelmente se transformar em um personagem muito popular, e até simbólico.

Ironicamente, é um caso raro em que algo criado exclusivamente pra televisão, que inclusive nem tinha uma versão nos quadrinhos, explodiu até mais que a obra original.

É que, normalmente animações da DC se inspiram fortemente em HQs, porém a personagem Harley Quinn não existia nas revistas. Ela foi criada como par romântico bastante forçado do Coringa, como uma pessoa submissa e obcecada por ele, apenas voltado pra algo sexual. Mesmo em trajes clássicos, ela já era caracterizada como um objeto de desejo, nada mais.

Só que ainda na série de origem (Batman: The Animated Series de 1992), ela foi se destacando, ganhando história própria, ganhando camadas, e se transformando pouco a pouco em algo maior.


Filmes e Novo Visual


Certamente o momento em que mais se destacou foi em sua reimaginação no filme "Esquadrão Suicida", em que mudaram completamente a aparência da vilã, deixando ainda mais provocante e destacando o físico de Margot Robbie em sua versão live action. 

Essa mudança já vinha carregada de precedentes pois nesse cenário, a personagem já tinha ganhado quadrinhos, participações de destaque em filmes animados, e foi muito mais construída e desenvolvida. Só que, o público geral só foi prestar mais atenção mesmo quando ela apareceu de shortinho cavado e top, mais parecendo um comercial de cerveja heteronormativo dos anos 90.

Mas funcionou, virou um símbolo maior ainda, e agora de poder feminino! Harley evoluiu de uma psiquiatra com problemas mentais apaixonada por um malandro traficante misógino, pra uma mulher complexa que luta pra sobreviver num mundo hostil.


A Era do Absurdo


Depois de Pacificador e Esquadrão, a DC passou a tomar mais liberdade em suas histórias animadas, partindo cada vez mais pro sórdido e ofensivo. A censura em si foi sumindo e, pelo bem e pelo mal, as coisas foram longe demais.

Palavrões viraram comuns, inevitáveis, e até os bips que antes serviam de censura agora são vistos como muleta cômica. 

Violência é praticamente pré-requisito de show, se não tiver sangue e morte, não tem mais graça.


E um humor pesado repleto de autorreferências não é mais uma exceção, é regra pra algo funcional e engraçado. Se não tiver uma piada com o Batman, não é da DC.

Nota-se um crescimento desse tipo de abordagem nas animações e filmes, e até as coisas mais infantis como "Teen Titans Go" passam a apelar pro escatológico e bizarro, quase desrespeitando a obra original só pra fazer piadas.

Respeito aliás passou longe, e cada vez mais o cânone da DC vem sendo ridicularizado e reimaginado mais e mais.


O Extremo Vende


O problema é que quando decidiram levar isso pra algo próprio da Harley Quinn, optaram por elevar ao extremo e só esquartejar qualquer resquício de reputação que as obras originais DC tinham.

Batman, Superman, Mulher-Maravilha, os grandes heróis e até os vilões em geral como Coringa, Pinguim, Charada (grande parte da galeria do Batman claro) são simplesmente ridicularizados nessa obra.

Os heróis são retratados como babacas, e os vilões mais babacas ainda. Tudo é idiota, nada se leva a sério, apenas há piadas rápidas sem compromisso com o cânone e, se for preciso matar um vilão pra fazer uma piada, matam sem pestanejar.


Jamais vou superar o Doutor Freeze sendo assassinado brutalmente só pra esposa dele virar mafiosa futuramente, apaixonada pelo Capitão Gelo e completamente promíscua, pois tem tara em gelo.

Coisas ridículas assim, como o Comissário Gordon indo num surubão com a Corte da Coruja, não parece algo sensato ou minimamente respeitoso, e a tendência disso é piorar a cada nova temporada.


Cada Temporada é uma Lore


De fase em grupos, pra fase totalmente vilã, depois modo anti-heroína, e então fase da heroína pura, a série da Harley Quinn não se contenta em mostrar ela lutando ao lado do mal, ou contra o mal. Ela é o próprio mal, e bem, e mal denovo.

A personagem ainda não tem um lugar totalmente dela, existe à sombra do Coringa e do Batman, mas é através dessa série que ela tenta achar uma identidade mais exclusiva, pisando na imagem deles é claro.

O começo é com ela montando um grupo de super-vilões pra tentar ser aceita pelos demais, então ela se mistura com um elenco B de vilões pouco reconhecidos (antigamente, afinal hoje em dia são quase tão estrelas quanto ela), e encara desventuras absurdas de crimes falhos, disputas bobas de ego e muitas participações especiais e randômicas de personagens secundários.


Harley se une ao Cara de Barro (já virou uma parceria recorrente diga-se de passagem), Tubarão Rei (outra parceria comum), Psico (esse já é um personagem menos conhecido) e sua eterna parceira a Hera Venenosa, pra assim causarem crimes, mas falharem de tão ridículos que são.

Só que na segunda temporada as coisas mudam um pouco, o time de vilões montado pela Harley para atrair atenção, consegue isso e é somado ao grande elenco de vilões principais, porém conflitos entre eles também nascem, justamente pelo protagonismo crescente da boba da corte.


Na terceira temporada o grupo se separa, Psico vira um vilão maior que ela, e ela se transforma em uma anti-heroína, enfrentando o mal com pura violência. É o momento em que o que antes era aliado, vira inimigo e tudo fica de cabeça pra baixo, partindo ainda mais pro ridículo.

Na quarta temporada tudo muda outra vez, e Harley se torna uma heroína entrando pra Batfamília, enquanto ainda desenvolve um romance sério com sua antes apenas amiga, Hera Venenosa. Ambas se descobrem como amantes e investem pesado nisso, mas Era permanece no caminho da vilania, e Harley tenta o heroísmo, não que isso afete algo.

E a tendência é que a cada nova temporada as coisas mudem mais e mais, com inclusive um gancho pra quinta onde Harley se une a um elenco feminino pra formar "As Sereias de Gotham", grupo de justiceiras dos quadrinhos, e a temporada em si é sobre aventuras fora do planeta, e na sexta tudo tende a aumentar.



A Mudança da Dublagem


Ela sempre foi dublada por Arleen Sorkin desde o surgimento da personagem, se mantendo assim em animações, filmes e até jogos. E o curioso é que Sorkin não era só a voz da personagem, ela foi parte da origem dela já que o criador (Paul Dini) se inspirou na performance da atriz em atuações pra construir os trejeitos da Arlequina.

O único momento em que não era ela por trás da voz, era quando Margot atuava. Mas mudaram isso na animação própria dela, justamente quando Arlequina ganha espaço próprio, e colocaram a Penny do Big Bang Theory (Kaley Cuoco) como nova voz.

Obviamente isso não agradou os fãs na época, e causou estranheza. Mesmo aqui no Brasil a dublagem também mudou pois pegaram a atriz de voz responsável por dublar a Kaley Cuoco (Evie Saide) e a colocaram na série, mesmo Iara Riça sendo a voz mais reconhecida da personagem por ter acompanhado a mesma desde 1992.


E o motivo? Aposentadoria, simples assim. Arleen Sorkin faleceu alguns anos depois da estreia do show em 2023, mas ela deixou a personagem justamente em 2019 (quando a série animada começou) pra descansar.

Curiosamente, apesar dela ter mudado bastante, essa nova voz e forma de fala destoa do que a Harley era enquanto dublada por Arleen Sorkin, e a mudança foi proposital, pois essa é uma nova Arlequina.


Um Novo Universo


A realidade onde tudo se passa é um universo a parte, não é o mesmo dos filmes ou séries já existentes, e na verdade esse seria o "Harleyverso".

Todo o mundo parece girar em torno do umbigo da palhaça, e o absurdo gerado nele soa quase como a insanidade da garota ao enxergar tudo. Algo que sempre esteve claro é que ela não bate bem da cabeça, mas o jeito como retratam todos aqui vai tão além do comum, que parece mesmo que o mundo todo foi criado unicamente pra ela, aqui.

Batman é um idiota, mesmo em seu intimo, mesmo quando veste a máscara de Bruce. Gordon é um bêbado, um pai ruim. Coringa é um manipulador, falso romântico, abusivo. Superman é orgulhoso, pomposo, se acha melhor que todos. Lex Luthor, até mesmo ele aparece, é narcisista, egocêntrico, o cara é um verdadeiro escroto.


Todos os personagens no mundo de Harley são seus coadjuvantes, e a única que parece sensata é a Hera Venenosa, sua melhor amiga a princípio, e sua amante atualmente.

Estranhamente a Hera Venenosa sempre foi a principal parceira e amiga de Harley, mesmo na série animada clássica do Batman. Na verdade elas duas andavam sempre juntas, quando a garota não estava puxando o saco do Coringa é claro.

Aliás, no clássico algo que era recorrente eram as falhas de relacionamento entre Arlequina e Coringa. Não é de hoje que eles não se dão bem, que ela enfrenta seus abusos e tenta se emancipar. Mas hoje em dia a ênfase é direcionada com mais proeminência.


Conclusão


A série animada da Arlequina é bem idiota, desrespeitosa, polêmica, e nem tenta se levar a sério, e por isso merece atenção.

Ela vai pra um lado diferente do original, ela ousa, explora possibilidades da personagem, tenta expandir ela, algo que já era feito desde o princípio, mas é feito ainda mais.

Não é mais sobre relação tóxica com o palhaço de Gotham, é mais que isso, agora é relação complicada com Era Venenosa, conflitos com a sociedade, problemas pessoais e profissionais, enfim, uma personagem bem mais complexa.

Só é preciso ter um pouco de paciência e mente aberta, estar preparado pra ouvir palavras feias e ver sangue jorrando pra todo lado, em um show de violência exorbitante, e se desprender do que se conhece das séries DC.

É complicado ver algo tão absurdo onde o personagem mais sério da obra é o Darkseid e mesmo assim, ele tem seus momentos de ridículo, mas dá pra assistir, e curtir.

É isso.

Espero que tenha curtido a leitura, não sei se fui muito claro com o que queria dizer, mas disse.

See yah!


Postar um comentário

6 Comentários

  1. Essa serie é uma merda, e sem nenhum trocadilho...

    E mds, as vezes esqueço o quanto vc escreve bem.

    ResponderExcluir
  2. Daqui a pouco tem série Porn oficial da DC. (Eu só queria assistir filmes de heróis, não putaria desenfreada + delicious plays edition)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Já tem uai, Pacificador 2° Temporada! O que mais tem lá é delírios de nudez e pornografia rs. Se bem que na própria animação da Harley tem longas cenas de vulco vulco entre ela e a Era, sem nudez explícita, mas os animadores se empolgaram muito ali. Agora que a HBO vai pra Netflix provavelmente vão pegar mais leve nessas coisas... mas surgem outros problemas né. Aliás, vlw Wind!!!!!

      Excluir
  3. Particularmente eu amei essa série hahahah(já cheguei a assinar a HBO só pra ver temporada nova) acho interessante essa questão de investir na Harley como um personagem independente, tenho a teoria que é a Harley a "narradora" dessa história muito louca

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E faz todo sentido! Afinal tudo realmente parece se comportar da forma que ela deseja, como se ela estivesse contando uma história. Sempre lembro de como o Batman parece muito esquisito na perspectiva dela, justamente por ele ser o maior rival dela (além do Robin né rs). Eu compartilho dessa sua teoria.

      Excluir

Obrigado demais por comentar, isso me estimula a continuar.

Emoji
(y)
:)
:(
hihi
:-)
:D
=D
:-d
;(
;-(
@-)
:P
:o
:>)
(o)
:p
(p)
:-s
(m)
8-)
:-t
:-b
b-(
:-#
=p~
x-)
(k)