Return to Silent Hill
Regresso para o Inferno é o terceiro filme inspirado em Silent Hill, que traz de volta o diretor Christophe Gans, e suas ideias adaptativas mirabolantes. Se antes havia alguma duvida se ele fazia mesmo a diferença ou foi só sorte no caso do primeiro filme, bem, não há mais: O cara acertou de novo.
Apesar do filme parecer uma nova adaptação da já manjada história de Silent Hill 2 (jogo), acredite, não é. Na verdade ele faz exatamente o que eu imaginaria que seria feito: Ele adapta a segunda fase inteira de Silent Hill para os cinemas, e não apenas o "segundo jogo".
Pra explicar isso, irei falar tudo sobre o filme então, caso não queria spoilers, eu vou dar bastante. Mas pra te polpar de spoilers em todo caso já deixo avisado: O filme é terror psicológico puro, sem fantasmas, sem demônios, com alguns monstros, e muita psicologia abstrata, e é bom.
Dito isto, partiu contar tudo sobre o filme, inclusive meu final bizarro onde fiquei preso no Shopping e ainda levei minha mãe junto. Silent Hill vibes!
Uma Nova Releitura de SH2
Eu fiz um pequeno vídeo reagindo ao trailer onde destilei meu ódio falando de como era péssima a ideia de recontar outra vez a história do segundo jogo da franquia. Já bastou fazerem o Remake, que por um milagre deu certo, e as chances das coisas funcionarem num filme eram praticamente nulas.
E de fato o trailer engana... tudo que ele mostra é o que tem de Silent Hill 2, mas ele apenas finge ser a mesma história. Exatamente como foi feito no primeiro filme, que fingia ser o primeiro jogo nas telonas, aqui a mesma fórmula é usada.
Porém, ele usa como base e pano de fundo o tema do segundo jogo, apenas pro estopim inicial, e pra engatar a marcha por assim dizer. A história vai pra outra direção completamente diferente do que se esperaria de uma "adaptação fiel".
Afinal, os elementos estão ali, os personagens também, mas seus significados mudaram drasticamente, não pra melhor ou pior, apenas mudaram.
E isso que torna a experiência muito interessante. Você pode conhecer a história do jogo de cabo a rabo, conhecer cada cenário por ter jogado tanto o original, quanto o remake, entender os significados e representações, e ainda assim, mesmo reconhecendo tudo isso no longa, você ficará perplexo com os novos significados.
Igualmente, você pode simplesmente desconhecer os jogos, apenas conhecer os filmes, e ao assistir terá aquela mesma sensação do primeiro, ficando confuso, apreensivo, esperando respostas e saindo cheio de perguntas, mas satisfeito.
Pois o terror dele é eficiente, de uma forma inesperada.
A Segunda Fase de Silent Hill
Quando digo que este filme se inspirou na "segunda fase" (e esse era o melhor cenário possível pra uma adaptação, onde inclusive minhas expectativas estavam desde o anúncio do mesmo) eu quero dizer que ele usaria como base pra sua história os jogos "pós Team Silent".
É que, enquanto o primeiro filme usou Silent Hill 1, 2 e um tiquinho do 3 em sua adaptação, era de se esperar que este usaria os jogos que vieram depois dele: Origins, Homecoming, Shattered Memories e Downpour. Eu jurava que o filme faria isso, e me frustrei quando vi o trailer sugerir que era apenas o segundo jogo mesmo.
Mas ao assistir, por mais que visse ali coisas do segundo jogo, como nomes e cenários, a história era sobre os 4 citados! Tem elementos narrativos tirados dos jogos mencionados e ainda por cima são esses elementos que ditam o andamento da história.
Tudo se passa na mente do personagem (Origins), é um retorno pra casa onde rituais familiares e tradicionais trouxeram o terror (Homecoming), é um retalho de memórias mescladas de passado e presente retomadas pelo luto (Shattered Memories) e é um passeio por uma cidade bela, turística, viva, para apenas alguns (Downpour).
E é mais que isso sabe? Tudo que ele apresenta puxou desses jogos, e os transpôs para o cinema, igualzinho o que foi feito lá no "Terror em Silent Hill", mas ele também buscou ser original, trazer coisas novas, características novas, que podem e com certeza irão influenciar a quarta fase de Silent Hill.
É que, existe uma regrinha que o cinema harmonizou com os jogos: Sempre que um filme sai, uma nova fase se inicia.
Infelizmente "Silent Hill Revelation 3D" não soube fazer a transição, muito pela mudança da diretora, mas também por não conseguir ser criativo e usar a essência dos jogos, apelando pra um roteiro imitado de Silent Hill 3 (ainda dentro da primeira fase). A consequência dessa falha na época foram só 10 anos de hiato até a terceira fase se iniciar... foi inclusive quando anunciaram os 5 produtos derivados de Silent Hill, onde este novo filme fez parte, prometendo em seu título "retornar" à franquia.
O que eu vi aqui, no terceiro filme da franquia, foi de fato um retorno pra ela.
Parece Igual, mas é diferente
A construção cinematográfica, principalmente nos primeiros minutos da obra, fingem muito bem que é uma adaptação similar ao que já vimos antes. Apesar do figurino de James ser completamente diferente do que estamos acostumados nos games, as cenas são iguais.
A clássica introdução dele no espelho? Igualzinha.
Ele chegando em Silent Hill? Idêntico!
Ele passando pelo cemitério, depois pela cidade enevoada, depois indo pros apartamentos, depois pier, depois hospital, então hotel Lakeview? Poxa, sequência certinha, mais parecido estragava.
Mas tudo está diferente ao mesmo tempo.
A introdução real do filme é no mesmo lugar, mas no mundo real, e no passado, mostrando um encontro que nunca vimos (Mary e James pela primeira vez). Soa algo complementar você diria, mas não... é apenas muito diferente.
Isso expande o ambiente de Silent Hill pra algo mais vivo, ou que pelo menos já foi vivo. A cidade é linda, onde só a paisagem dela já soa belíssima, imagina então ela por dentro! E é mais disso que vemos.
Ao longo das passagens, temos flashbacks de James, revivendo na cidade os tempos bons, a época onde tudo ali estava completo, como uma cidade super movimentada e rica em turismo.
Ele vivia lá afinal, era sua casa, pra qual ele retorna em busca da amada, seguindo aquele roteiro simples da carta da falecida, mas em uma nova premissa.
Temos sim as mesmas passagens, mas não são pelos exatos mesmos lugares sabe? Apenas parece, mas é fingimento, quase como se o diretor quisesse enganar quem olhasse superficialmente, pra entregar algo muito mais complexo numa camada secundária.
Puro Terror Psicológico
Por mais que tenham monstros, todos eles originais do filme (mesmo que se pareçam com os dos jogos em algum momento), a pegada não é mais visual, e sim mental.
O filme foi construído pra fazer pensar, como um puzzle grande que o espectador precisa entender e montar. E pra isso, por mais que ele conduza a gente pelo caminho óbvio, as pistas que ele dá são subliminares.
Na primeira metade, ainda no primeiro ato, tudo parece ser costurado para qualquer um entender, mas a partir do segundo ato, a história dá uma reviravolta tão bizarra, que parece até outro filme.
Os personagens não eram o que achávamos que eram, o mundo não é o que víamos. Tudo começa a caminhar pra uma resolução inesperada e, por mais que ele se conclua quase que igualmente aos jogos, ele ao mesmo tempo abre um final ambíguo que expande o universo de Silent Hill.
E olha que eu achava isso impossível! Eu jurava que não dava pra fazer Silent Hill ficar mais bizarro do que já era, e o filme consegue essa proeza, justamente por apostar no psicológico.
O Final de todos os Finais
Quem conhece os jogos sabe que nunca há apenas 1 final, e o filme retratou isso mais uma vez com perfeição (lembrando que o primeiro também fez isso).
Ele encerra com um final que respeita o cânone dos jogos, mas ao mesmo tempo ele só faz isso pra dizer que sabe que existe essa interpretação, a interpretação do luto e sua aceitação.
Mas ele se encerra apostando na ideia do looping, inclusive sugere "viagem no tempo" numa sutil alusão a filmes como Efeito Borboleta por exemplo, mas acredite, isso tudo é só um jogo de cenas pra nos confortar enquanto perpetua o terror.
A história se amarra reiniciando, e esse reinicio é tão cruel com o espectador que basicamente nos obriga a assistir outra vez, agora notando as pistas e rearranjando elas mentalmente, pra compreender o real significado de todas elas.
Eis a obra prima.
Conexão com o Primeiro Filme
Não há ligação alguma com o primeiro filme, muito menos o segundo (afinal este foi até desconsiderado pelo diretor) contudo, ele ainda usa a ideia da cidade tomada por cinzas do subterrâneo, expandindo agora pra catástrofes locais e completamente naturais.
Só que da mesma forma que o filme busca retratar essa ambientação da neblina original dos cinemas, ele se distancia e muito da primeira versão da cidade.
Agora, é uma cidade grande e movimentadíssima, cheia de habitantes, enriquecida com o turismo e ele não esconde suas belezas. Isso tudo some em questão de meses, ou ao menos é o que parece para o protagonista.
E a liberdade criativa dentro do próprio universo está neste ponto: O protagonista está além da cidade, ele está dentro de si mesmo.
Bizarro, confuso, meio maluco, mas isso é a pura essência do que se vê em jogos da franquia, como por exemplo o 4 mesmo, onde o protagonista nunca sai de um quarto, ou o Origins, onde ele nem sai do lugar.
A Interpretação do Diretor
Se inspirar principalmente nos jogos que vieram depois do filme que ele mesmo dirigiu, foi tão absurdo e genial que eu juro que não imaginava que ele faria isso tão bem.
Eu esperava isso, eu notei isso no primeiro filme, foi justamente isso que me atraiu pra Silent Hill em primeiro lugar, mas eu nunca sonhei com a possibilidade de me surpreender.
Eu me vi julgando o diretor pelo trailer, acusando ele de não ter capacidade de criar algo novo e reciclar ideias, quando na verdade eu deveria ter mantido minha fé em seu trabalho até o fim.
Mas pra explicar isso tudo, eu não terei outra saída senão falar de cada personagem individualmente, explicando principalmente o que são nos jogos, e o que se tornaram no filme, também explicando de onde o diretor tirou tal ideia.
Personagens
James Sunderland
Um pintor bem sucedido, James é jovem e acaba se condenando por uma passagem rápida por Silent Hill, não por conta da cidade, mas por conta da jovem que ele conhece e se apaixona.
Após cair na armadilha mais cruel da vida chamada "amor", ele decide se mudar pra Silent Hill e viver ao lado da sua alma gêmea, e até ai tava tudo certo.
O problema começa quando ele conhece a família dela, e vê que são uma galera estranha, que fazem umas coisas esquisitas com ela e começa a se preocupar.
Então um dia ele só decide ir embora e deixá-la, vivendo em depressão sozinho, surrado diariamente por sua culpa em abandoná-la. Mas, um dia ele recebe uma carta dela, pedindo pra voltar.
E ele volta, retornando pra Silent Hill mas achando tudo muito mais estranho do que era quando saiu. Uma neve de cinzas, monstros, e isolamento. A cidade estava tomada pelo pesadelo, e nem de longe se parecia com aquela que ele viveu alguns meses antes.
E explorando a cidade, James começa a se lembrar da época em que vivia feliz ali, e também dos momentos mais estranhos que vivenciou por lá, relembrando que apesar de tudo, sempre houveram pistas de que as coisas ali eram ruins.
James enfrenta males psicológicos severos, e essas lembranças torturam mais do que os monstros que tentam matá-lo. As vezes ele encontra pessoas, mas até elas estão estranhas, sendo só sombras do que já foram um dia.
Ele não entende o que rolou na cidade, mas tenta entender e por isso se aprofunda cada vez mais nela, sofrendo dores de cabeça recorrentes, até chegar nas respostas e se arrepender.
Mary
Uma jovem que quase é atropelada por James quando tenta escapar de Silent Hill com suas malinhas. Esse encontro desperta o amor nela, e do amor ela começa a maior tortura da vida de James.
Mary era romântica, educada, e até renomada de certa forma. Na cidade de Silent Hill ela era quase uma princesa, apesar de órfã, muito pela forma como seus amigos e vizinhos a tratavam.
Sempre cercada de pessoas que idolatravam seu falecido pai, a moça era respeitada por todos, e igualmente James passou a ser.
Vivendo juntos num apartamento na cidade, eles eram felizes, porém Mary as vezes sangrava pelo nariz, e costumava receber visitas em coletivo de todo mundo que conhecia, como pequenos cultos em seu próprio apartamento.
James não sabia disso a princípio, mas conforme descobre sobre os rituais estranhos que ela pratica, ele escolhe se distanciar.
Contudo, a vida de Mary estava por um fio e ele era tudo que a mantinha viva.
A Psicóloga
Enquanto vasculha a cidade estranha, James as vezes liga pra uma médica pedindo conselhos e reclamando de suas dores. Essa médica é sua psicóloga particular, a qual ele consulta após a perda da esposa.
Não é mistério que algo rolou com Mary, fica nítido isso desde o começo, por isso James tem consultas regulares pra se tratar. Contudo, ao faltar no tratamento ele chama a atenção dela, que tenta ajudá-lo como pode, no mundo real.
A psicóloga é uma readaptação do Dr. Kauffman, não o do primeiro jogo, mas sim o de Shattered Memories. A ideia de um tratamento pra lidar com luto, e um médico se esforçando pra entender a mente deturpada de uma "Criança da Ordem", é quase isso que ocorre aqui.
A doutora tenta tratar James, mas James está tão insano que já pode ser dado como caso perdido. Inclusive, o estado psicológico pesado dele se inspira tanto em Henry de SH4, quanto em Alex de SH Homecoming.
Ele entrou em um estado em que sua realidade se baseia no que ele acredita que é, e não necessariamente no que ele é de verdade.
Joshua
Pai de Mary, nunca foi citado nos jogos pois nunca foi relevante, e aqui ele é extremamente importante e até crucial pra condição dela.
Ele era um líder religioso da "Ordem", ou pelo menos o que restou dela, e ao que parece ele foi bem sucedido nos rituais bizarros desse culto religioso antigo de Silent Hill. A prosperidade da cidade reflete justamente isso, enquanto pequenos grupos faziam sacrifícios, a cidade cresceu horrores.
Porém ele já havia falecido, deixando suas responsabilidades com sua filha, que por sua vez continuou os rituais, mas de forma forçada. Como ela foi criada pra isso, ela não via problema, pelo menos não entendia o problema disso, até conhecer James.
De certa forma Joshua (que tem seu nome retirado justamente do Joshua de Homecoming), é quem criou a doença mortal de Mary, sua própria filha, como parte do ritual de boa vizinhança de Silent Hill.
Isso é contado de forma super simbólica mas, está lá.
Angela
Essa mulher estranha é o primeiro encontro de James ao entrar na Silent Hill de Cinzas. Ela está no cemitério, posicionando sacos de cimento pra bloquear a água do lago que está inundando tudo.
Apesar de Angela se apresentar como moradora, ela alerta para James não voltar à cidade, e ainda se oferece como porto seguro pra ele. Mas, ele ignora e segue o roteiro.
A questão é que essa Angela não é exatamente como a do jogo, mesmo aparecendo nas cenas mais populares dela, como pensando em tirar a própria vida frente um espelho, ou ela em seu quarto sendo abusada por seu pai.
Essa Angela é na verdade uma das versões de Mary, que representa o lado abusado dela. Toda a tortura e abusos que Mary sofreu durante toda sua vida, se uniram nessa persona e trouxeram ela a vida, na mente de James.
"Angela" é o segundo nome de Mary.
Laura
Essa menina, que anda com uma boneca nas mãos (a qual inclusive ganha vida como um pequeno monstro), tenta guiar James até Mary, mas apenas quando ele está preparado pra isso.
Ela tenta se esconder, mas quando percebida tenta guiar, e James a segue sem saber o que ela significa de verdade. A menina porém apenas brinca e corre, quase lembra um demônio caçoando de James, mas é pior que isso.
Laura representa a infância de Mary, e sua inocência. Ela guarda todos os principais segredos, e os revela apenas na hora certa para fazer James surtar de vez com a realidade.
Pra ela, é divertido fazê-lo sofrer um pouco pra entender tudo o que aconteceu, e o força a vasculhar suas memórias para assim reviver a culpa pelo que fez.
"Laura" é o terceiro nome de Mary.
Eddie
Esse é um homem velho, gordo, barbudo, que James encontra no apartamento em que ele e Mary viviam, mas na versão de cinzas da cidade.
Ele aparece somente em uma cena, na qual conversa com James e também encontra Laura pela primeira vez. Ele tenta levar um pouco de lógica para o jeito que a cidade se encontrava, explica da doença que se espalhou, e tenta confortar James com a ideia de que tudo ali é um tipo de "pandemia".
Porém, ele também é apenas parte da mente do próprio James, e inclusive o representa. Eddie é James, envelhecido, cansado, exausto pelo luto e incapaz de seguir adiante.
Ele adoeceu na cidade, morreu na cidade, pois nunca saiu dela.
Perto do final do filme, James fica com uma barba igual a do Eddie, enquanto pinta seus quadros repleto de amargura e bêbado.
E só pra constar, essas mudanças e encontros com personas diferentes, não é algo completamente original não tá, pois é exatamente esse o modelo narrativo de Shattered Memories. Inclusive tem cenas em que o protagonista do jogo se confunde com quem conversa, pois as pessoas simplesmente mudam repentinamente. O filme usa muito disso.
Maria
A vertente mais popular de Mary, é Maria, a versão promíscua dela que tenta seduzir James, justamente por ser a personificação da beleza dela.
A única parte que de fato é uma variável da psique da personagem nos jogos, Maria surge num labirinto pra mostrar a saída pra James, e ela se perde no fim justamente em um labirinto, sendo executada por James diretamente.
Ele entende que ela é só uma criação dele, para superar a morte da esposa em sua mente, e decide matá-la a sangue frio.
Curiosamente, na parte em que Maria começa a ser reconhecida como projeção de James sobre Mary, ela própria parece protagonizar o momento, com James virando o antagonista pela única vez no filme inteiro. Seguimos ela, ao invés dele, lembrando a campanha da DLC do segundo jogo em que jogamos com ela.
Cabeça de Pirâmide
O Cabeçudo aparece mais uma vez, batendo ponto em Silent Hill como sempre. Porém dessa vez ele é explicado como uma variação do próprio James!
Sua origem real é inclusive essa, pois no jogo original, o Cabeça de Pirâmide é uma projeção do medo de ser julgado que James tem, e ele mesmo é seu próprio carrasco. Aqui, ele é diretamente o James, apenas vestindo a pirâmide e atacando seus medos.
Não é o mesmo visto no primeiro filme tá, pois essa versão é muito mais embasada no Homem do Saco de Silent Hill Downpour em essência. Ele é como James se projeta pros inimigos dele em seu subconsciente, similar ao que ocorre com Murphy em Downpour.
Ele é visto por exemplo executando uma criatura que assusta James e tenta atacá-lo, e também é ele quem mata Maria quando James decide que isso deve ser feito.
O Cabeça de Pirâmide não é um demônio nem um monstro, é apenas o lado mais cruel de James se personificando.
Criaturas
Então, agora já que falei do cabeçudo, acho justo comentar sobre os monstros que apareceram no filme. Lembrando que mesmo que eles pareçam muito com os do segundo jogo, eles não são a mesma coisa.
Lying Figure Feminina
Esse monstro é exatamente como o visto no primeiro filme, mas agora em forma feminina, inicialmente pra representar o lado sacana de James. Contudo, a criatura que solta ácido tem o corpo muito mais esguio do que o normal.
Eu diria que de todos, esse é o único que quase se parece com o Lying Figure original em representação, pois a ideia é representar a fragilidade da Mary aos olhos de James.
Uma doença crescente no peito, um corpo magro e fraco, a ideia fica subentendida. Mas, ela também se baseia justamente nos Lying Figure vistos no Homecoming, pelo menos um de seus aspectos.
Dessa vez o monstro sai dos esgotos, igual o que acontece no jogo. Mas, preciso lembrar que o monstro que aparece no Homecoming é uma adaptação do monstro que apareceu no primeiro filme, que por sua vez é uma adaptação do monstro que apareceu no segundo jogo. Bizarro né? Agora ele vem mais uma vez adaptado!
Baratas com Rosto
Essa criatura, também retrata bem as baratas que apareceram em Homecoming, misturado com as que tiveram no primeiro filme (lembrando que também nesse caso, o primeiro filme inspirou o Homecoming).
O que muda é que dessa vez elas atuam em hordas, lembrando um pouco o que faziam no primeiro filme, mas sem precisar do Cabeça de Pirâmide pra sustentar o terror e presença delas.
Sozinhas elas já causam terror e caos, se acumulando como um verdadeiro tsunami de insetos gigantes devoradores de carne.
Manequim Aranha
Talvez um dos monstros menos criativos, que tentou inovar mas não se saiu bem. Ao invés de manequins, aqui temos uma aranha bizarra feita de partes de manequim com a cabeça solta.
Essa entidade é genérica, e eu poderia dizer que representa a Mary de algum jeito na psique de James mas, me pareceu só uma ideia ridícula de monstro aleatório que infelizmente passou no projeto.
Ela tem o corpo inteiro formado por pernas, o quadril ganha muito destaque, e ela é a criatura morta pelo Cabeça de Pirâmide à murros, talvez representando a agressividade de James com Mary nos últimos momentos juntos.
A ideia é interessante, mas infelizmente a criatura pendeu pra um lado genérico demais pra funcionar.
Enfermeiras de Porcelana
Neste caso a ideia soou legal, mas na prática não fez tanto sentido. Quando James visita o Hospital Brookhaven ele encontra hordas dessas enfermeiras, que tem cabeças feitas de porcelana oca.
Sem corpos sensuais, sem destaque algum pra isso, elas não representam a ideia sexual de James, mas sim a fragilidade das mulheres aos olhos dele. Seus rostos são formados por pura arte abstrata, lembrando principalmente os monstros de Shattered Memories quando são "abstratos".
O cara retrata as enfermeiras como bonecas vazias e fáceis de quebrar, e ele próprio mesmo antes de saber que tudo ali era só sua mente, passa a destruir elas com um pedaço de ferro como se não fossem nada.
O design delas infelizmente não ficou dos melhores, e eu preferia as do primeiro filme, que voltaram no Homecoming. Ainda assim, foi legal ver essa nova abordagem.
A Cama do Hospital
Um dos chefes dos jogos aparece, as camas penduradas com braços no hospital, mas também retratado diferentemente do original. A ideia é a mesma: Mary na maca, e como James odiava ela internada, mas como ele não teve muito tempo ao lado dela nessa fase aqui, o monstro ganhou uma nova camada.
Há apenas uma cama, e ela é um casulo para Mary, no processo de se transformar em algo maior pra James.
Ela tenta se alimentar dele, de sua mente, puxando ele pra si.
Lembrando que Mary e Mariposas tem uma conexão fortíssima na lore de SH2, e isso veio retratado forte aqui.
O Pai de Angela
Como nessa história Angela é Mary, o pai dela é representado como um abusador da mesma forma, e por pouco nem combina com essa nova premissa.
É que aqui, Angela sofreu abusos de Joshua quando adolescente, e ela cresceu traumatizada com isso. Esse lado dela se espelha na mente de James, revelando que ele tê-la abandonado só deixou ela ainda mais nas mãos dos abusadores.
Os idólatras de seu pai abusavam continuamente dela, forçando ela a tomar uma substância que a fazia sangrar pelos poros, e se banhavam com seu sangue. Essa ação provavelmente mascara os abusos sexuais que ela sofria desse grupo de pessoas, o que se tornou mais intenso com a partida de James.
Ele derrota essa personificação ao pedir desculpas pra ela, o que só revela o quanto Mary culpava James pelo abandono, da mesma forma que James se culpava.
Mary Mariposa
No final, Mary é encontrada no Hotel Lakeview, como nos jogos, mas aqui ele está incendiado, num fogo constante, e desmoronando.
Esse estado é como a mente de James se sente perto dela, como algo tomado pelo verdadeiro inferno. Mas ela surge na forma de Mariposa, usando a cama como crisálida e os lençóis como asas.
Esse encontro não é um combate, mas de fato um abraço onde James aceita a morte da amada, dando forma a essa memória.
A Mary que ainda vive dentro de James é o que ele força a viver, o que causou sua transformação. Mas isso só prolonga a tortura que ela já tinha durante a vida inteira.
E como o próprio James diz, ele deveria ter partido junto dela, e não ter deixado apenas ela ir.
Os Finais
James mata Mary sufocada, mas aqui isso vem com muito mais dor pra ele. O filme sabe construir o que o segundo jogo original não conseguiu bem, e o remake consertou. A ideia de que James matou Mary por misericórdia e não por rancor.
Mas na morte nasceu a culpa e, infelizmente James endoidou. Sua loucura o jogou num labirinto infinito de lembranças e surto, e ele passou a reviver sua própria história dentro da sua cabeça.
Então em sua mente, ele tenta todas as saídas. Ele se mata no lago levando o corpo de Mary, mas isso nunca acontece.
Ele renasce em uma nova linha do tempo, com uma nova chance de viver ao lado dela, e tenta mudar as coisas mas, o destino sempre será o mesmo.
Afinal, tudo se passa somente na cabeça dele. O James do filme está preso no Hospital de Silent Hill, internado e com sua situação se agravando cada vez mais, ao ponto de tornar ele um vegetal que vive apenas num sonho lúcido eterno.
Chega a ser muito mais cruel que um purgatório da cidade para escolhidos, num looping pós vida, pois aqui, James revive seus melhores momentos infinitamente, passando também pelos piores momentos, mas sem poder descansar pois no mundo real ele está existindo em estado vegetativo.
Curiosamente, da mesma forma que fica claro que tudo no filme é só a mente de James, ainda há o aspecto paranormal dos rituais executados pelos moradores da cidade com Mary. Aquilo realmente aconteceu, então a Silent Hill Enevoada de certa forma existe.
Elementos Novos
Tem muita coisa no filme que se inspirou nos jogos, eu sei, mas tem muita coisa nova que provavelmente servirá para a próxima geração de jogos da franquia, assim como foi no caso do primeiro.
Transição com Mariposas
Ao invés das paredes descascando, agora a transição de maior destaque pra "dark silent hill" é a das mariposas. Elas se aglomeram e isso cria o desgaste do cenário, mudando os mundos em que James passa.
Detalhe, James visita 4 Silent Hills neste filme:
Tem a Silent Hill normal, que ele enxerga em seus flashbacks.
Tem a Silent Hill de Cinzas, onde tudo está parado no tempo e tomado pelas cinzas.
Tem a Silent Hill Sombria, onde tudo já tá deteriorado e consumido pela destruição.
E tem a Silent Hill Real, que sim, aparece vagamente em algumas partes, mostrando James nos tempos atuais pela visão de outras pessoas.
Flashbacks
A ideia de James reviver momentos longos no passado, e voltar ao presente num mesmo cenário, mas agora consumido pelas cinzas, é muito interessante.
A parte em que ele passa pelo Clube da Maria por exemplo, é bem rápida mas muito curioso, pois mostra o clube em pleno funcionamento, lotado de pessoas, e logo depois mostra tudo tomado pelo vazio e solidão de Silent Hill. No jogo, vemos o mesmo clube mas nunca temos a chance de ver ele funcionando.
Ter essa noção de como o espaço era quando tinha vida ali, só torna a sensação do vazio ainda mais perturbadora, e a desilusão do personagem fica mais fácil de compreender.
Retrata bem situações que existem em todos os jogos da franquia, desde bares abandonados até metrôs e shoppings, mas o mais legal é ver de fato o local cheio, e notar a diferença gritante dele quando vazio.
Realidade e Mente
Outro aspecto que pode ser muito usado daqui pra frente é o da realidade quebrando por causa da mente. Aliás, eu vi aqui muito de Evil Within (até toca a música mais usada no jogo no filme), e ironicamente esse jogo que nem é da Konami, se inspira muito em Silent Hill.
Mas essa ideia de algo se passando completamente dentro da mente do personagem, transparecendo no mundo real, tende a ser muito coerente com o que Silent Hill pode trazer.
Silent Hill f por exemplo, faz isso tecnicamente... então se parar pra pensar a ideia já tá sendo colocada em prática!
Silent Hill no Cinema
Aliás, eu fui assistir este filme com minha mãe, como uma promessa antiga que fizemos um ao outro. Minha mãe foi quem me apresentou Silent Hill pelo DVD do primeiro filme, e eu só virei fã da franquia por causa disso.
Eu precisava ver como ela reagiria ao assistir a este filme, e fiquei feliz que ela gostou da experiência. Sendo sincero eu ficaria feliz mesmo se ela odiasse o filme pois foi ótimo assistir ao lado dela.
E, eu também já tava preparado pra sair odiando o filme mas, eu acabei realmente curtindo.
Enfim, quando chegamos na sala do cinema, só tinha nós dois. A sala tava vazia, e permaneceu assim até faltarem 5 minutos pro filme começar. Nessa hora entraram mais três pessoas.
Então sim, assistimos numa sala com apenas 5 pessoas. Só que o curioso foi o final...
Pegamos a última sessão do dia, então quando terminou era meia-noite. Das pessoas na sala, um casal saiu primeiro assim que o filme acabou e eu fiquei conversando com minha mãe, até desistir de esperar os créditos passarem e procurar a saída.
Porém, só tinha a saída de emergência, e ela tava trancada com correntes.
Havia a entrada pela qual chegamos, mas ela tava também trancada, por uma parede de madeira que parecia uma porta, mas sem maçaneta.
E ai começamos a surtar, não tinha como sair da sala escura, exceto por uma porta que achamos que levava pra outra sala escura... e por um momento bem bizarro nos sentimos em Silent Hill.
Foi bem legal, foi um final decente pra um filme da franquia, mas a última pessoa na sala, uma moça que foi assistir sozinha, saiu e mostrou pra gente que a tal "parede" era uma porta mesmo, e ela empurrou e abriu.
Apesar do corta clima, ficamos uns 5 minutos vivenciando a adrenalina de ficarmos presos numa sala de cinema após um filme de terror sobre ficar preso em loopings!
Rimos, curtimos, e foi isso.
Conclusão
Não vou mentir, 90% da comunidade vai xingar este filme, vai tomar ele como uma afronta à franquia, e provavelmente vai dar as piores notas possíveis... exatamente como foi na época de Terror em Silent Hill.
A ideia dele nunca foi representar Silent Hill 2, afinal ele já foi muito bem representado pelo Remake e olhe lá. A ideia dele era trazer de volta a essência de Silent Hill pras telonas, e melhor, fazer valer a ideia de "live action" de games não como cópias de roteiro, mas como representações fortemente inspiradas, que podem servir de inspiração.
Repito que ao meu ver, Regresso ao Inferno (ou só Returns, nem sei pra que deram um título tão grande), repete o feito do primeiro filme de Chistophe Gans, e ele não me decepcionou.
Torço muito para que os 10% que curtirem e entenderem a obra sirvam para que a Konami enxergue o que realmente funciona em sua franquia, caso contrário veremos uma sucessão de erros terríveis daqui em diante.
Mas, fiquei satisfeito com o filme.
E espero que caso veja, também goste.
É isso.
Obrigado pela leitura, espero não ter falado muita bobagem.
See yah.
4 Comentários
Rapaz, tenho a impressão que vou detestar este filme. Revelations por exemplo é um filme que nem digo que odeio pois honestamente é um filme que não me faz sentir nada, mal lembro dele inclusive, mas talvez este aqui deixe uma impressão mais forte.
ResponderExcluirDesde os teasers dele eu não tava com boa impressão. Estava feliz sim que o diretor voltou mas ao ver os primeiros vídeos mesmo... Nossa, não parecia nada com Silent Hill. Tive a impressão que tava com uma cara muito modernizada mas também muito brega, e pelo visto as partes românticas com a Mary realmente o são. Alie isso mais a coisas como uma Laura, que mais parece assombração que uma pentelha, o nome bizarro da Mary, a forma como o filme simplesmente pegou os personagens e mudou tudo e pronto, que viagem...
Me pergunto se não seria melhor ter tentado mesmo algo novo com um viés de Silent Hill, tipo o primeiro filme, do que dar título a um filme que simplesmente comete os mesmos erros de toda adaptação, quase, de jogo: criar coisas novas e destoantes com o material de origem e dar o nome do jogo e dos personagens a esta obra criada. Inda vou ver o filme mas já vi certas cenas e tô acompanhando a repercussão, tem tudo pra acabar como o Revelations, bomba na crítica e bilheteria razoável ou péssima.
Ps: o vídeo no fim e a experiência, looool!
Curiosamente, Revelations nem chega perto do que esse fez. Aquele segundo filme simplesmente imitou o roteiro do jogo, o que muitos fãs estavam achando que o de 2026 faria com o segundo jogo... mas ele não fez.
ExcluirOs trailers dele foram justamente pra alimentar a falsa expectativa dos fãs, e ironicamente, é um erro recorrente da Konami. Eles não sabem fazer divulgação dos produtos deles... fizeram isso com o Shattered Memories, falando que era remake do primeiro jogo quando não era, fizeram isso com o primeiro filme, alegando que era inspirado no primeiro jogo quando não era, fizeram isso com o remake do 2, que no fim não era remake, e repetem agora com o segundo filme. O principal foco deles nos trailers foi promover como live action do segundo jogo, o que ele não é.
Infelizmente tenho certeza que ele será criticado negativamente, pois a proposta dele foi deturpada na divulgação da própria Konami. Falha clássica... o filme, no fim das contas, apenas incorpora elementos estruturais do segundo jogo, mas ele é uma história Silent Hill, completamente inédita que com um novo significado.
Vale a pena ver.
Como Angela e Laura são da mente de James, seus respectivos nomes são por causa do nome de Mary, mas como Eddie também é, por que o nome é Eddie?
ResponderExcluirExcelente pergunta... provavelmente o próprio diretor nem pensou nessa explicação mas, estranhamente o Eddie é o único em todo o filme que chama o James de "Jimmy"... é um apelido claro, comum para pessoas com o nome "James" (tipo "Chucky" pra quem se chama Charles). É meio que natural para americanos e tals mas, ainda é um apelido dado única e exclusivamente por este personagem. Sinceramente, não muda muito da interpretação do personagem seu nome, pode ser um apelido de infância do James, pode ser um nome do meio não citado (o nome dele é James Sunderland, mas vai saber, as vezes tem um "E." de Eddie no nome nessa nova realidade rs).
ExcluirVou inclusive rever o filme e tentar achar a ficha dele no consultório do hospital, ou algum momento me que o nome dele apareça escrito só pra confirmar... mas... eu diria apenas que é um nome comum pra ele.
Claro, essa interpretação vale somente pro filme, no mundo dos jogos Eddie, Laura e Ângela são personagens completamente diferente e únicos, com suas próprias histórias individuais e independentes do James.
Obrigado demais por comentar, isso me estimula a continuar.
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