CríticaMorte: Nope (Não! Não Olhe)

Eu nunca cheguei a falar a fundo dos filmes de Jordan Peele, mesmo já tendo citado eles em vários artigos, como os das temporadas que ele dirigiu em "Além da Imaginação". Porém confesso que de todos os trabalhos que já vi dele, os filmes são sempre os melhores.

Normalmente eles tem um pouco de "terror social" que é uma assinatura desse diretor, mas mesmo sem isso, os enredos que ele bota a mão são sempre impressionantes, pra dizer o mínimo.


É exatamente o observado em "Nope", filme que desde sua divulgação pouco tinha de divulgado. Eu lembro bem que o cartaz dele era uma nuvem acima de um circo com bandeiras de papel penduradas e era isso. Do que se trataria tal obra era uma dúvida comum, e conhecendo os trabalhos anteriores dele, era de se esperar algo perturbador.

Eis que o resultado é assustador, e é de um jeito muito diferente. Eu nem me lembro a última vez que senti agonia e temor por personagens, muitos deles meros coadjuvantes, e sem qualquer desenvolvimento! O filme nos arranca sustos de pegadinhas, e ainda nos deixa instigados e inquietos com simples acordes sonoros. Eu estou maravilhado com tudo o que vi.

Bem, falarei mais a respeito e sem dar spoilers.

Boa leitura.

"Nope" é tão cheio de nuances narrativas e mistérios, todos aparentemente desconexos, que arranca uma curiosidade lasciva a cada instante que passa. Parece "Lost", mas ele consegue explicar tudo no fim sem deixar pontas soltas


Sua abertura mesmo, que não nos mostra nenhuma imagem, apenas o som das pessoas conversando e reagindo, já inicia tudo nos deixando com milhares de pulgas atrás da orelha.

Isso posteriormente é respondido, e consegue ser ainda mais terrível do que poderíamos imaginar, e ainda assim, este não é o ponto mais alto do longa.


Tudo que nele é mostrado tem um significado e uma conexão, mas nada parece ter. Tudo só faz sentido, no final, e cara, é de deixar o queixo no chão.

Mas não é aquele tipo de conexão que depende de interpretação. Por incrível que pareça, as coisas são desenhadas pra que entendamos, e mesmo nas vezes em que há exposição, tudo ainda é tão sutil que não soa como se fosse isso.


O filme nos conta o que precisa, na hora que precisa, nem antes, nem depois, mas sempre na hora exata pra nos deixar ainda mais envolvidos.

Por mais que em muitos momentos estejamos aparentemente alguns passos adiante no enredo, com relação aos personagens, nunca estamos de fato nessa posição. Tudo o que testemunhamos ou descobrimos, eles também descobrem, mas de formas diferentes. 


Falo da ameaça, que nós achamos que sabemos exatamente o que é ainda na metade do filme, mas não é aquilo que pensamos, não da forma que imaginamos, e tudo vai sendo desvendado e explicado pouco a pouco, conforme os personagens descobrem mais pecinhas do quebra cabeças.

E isso por si só já bastaria pra amarrar a obra perfeitamente. Mas não, ela não se contenta com isso apenas.


Mesmo sendo um terror com base em horror, ele não tem nenhuma cena visceral explícita. Mas ele nos faz sentir as dores e temores de todos que passam por alguma situação macabra, e mesmo sem mostrar, ele nos faz sofrer.

Muito de seu acerto está na trilha sonora, e nos sons que usa, e como ele usa. O filme vai do silêncio ao estrondo nos momentos ideais, e ele nos conduz por uma experiência de terror, mesmo onde não há terror.


Tem momentos que a gente ri, pois são cenas logicamente hilárias, mas também são igualmente apavorantes, e ficamos à beira da confusão emocional.

É simplesmente genial. O próprio uso da palavra que da título ao longa é uma das características mais chamativas dele. "Nope", uma expressão negativa que significa, tecnicamente "Nem pensar, tá maluco? Eu vou nada, nem a pau" é usada ao lado da expressão "Hum", ambas constantemente ditas por um dos protagonistas.


Aliás, que ator. OJ (interpretado por Daniel Kaluuya) é propositalmente recluso, e tem um olhar distante, além de sempre reagir falando baixo ou sem conseguir dizer muito, ou ser ouvido. Mas pensa num personagem que pouco precisa dizer pra se fazer entender. Os olhos dele falam por si só, as caras, os gestos, os resmungos, ele é simplesmente incrível, mesmo sendo "desinteressante".


Ele é um cuidador/treinador de cavalos, que vive num rancho e adestra esses animais pincipalmente para a atuação no cinema, continuando um trabalho antigo de família, um trabalho importante e histórico.

E esse trabalho, seja pela parte da adestração, quanto da parte cinematográfica, é o que leva o enredo adiante, mesmo de início parecendo um desvio narrativo, justamente pelo nosso guia ser tão quieto. Mas cara, até isso tem um enorme impacto no desfecho.


A atuação de todos é excelente aliás. A irmã dele, Emerald (interpretada Keke Palmer) é o oposto completo dele em reações, sendo agitada, animada, e tão inquieta que muitas vezes se torna imprudente. Mas até isso serve à narrativa, de uma forma que simplesmente torna-se inconcebível não ter sua presença.

Muitos outros personagens surgem aos poucos, e todos tem suas contribuições, todos com seus fragmentos da imagem, tipo o eterno Glen (Steven Yeun no papel de "Jupe"), que tem uma importância gigantesca e se faz valer. Mas se eu for citar o quão incríveis todos foram em seus papeis, este artigo será gigantesco, e sinceramente não sei se tenho palavras suficientes em meu vocabulário para tal, sem soar repetitivo.


Eu gostaria muito de contar tudo sobre o filme, mas tudo mesmo, inclusive o final, mas eu não vou destruir sua experiência com esses spoilers.

Vale apenas dizer que, é um filme de terror, com leves tons de humor mas que em nada afetam a parte do medo. E mesmo não sendo visualmente perturbador, ele é conceitualmente traumatizante. Você entenderá ao ouvir os gritos, e depois perceber o que eles significavam.

Cara, quem diria que um filme sobre balões, deterioração de plástico, animais selvagens e cinema, seria tão bom!


Eu não duvido de mais nada vindo do Jordan. E fiquei ainda mais feliz por ele ter evitado pesar a mão em sua assinatura, tanto figurativamente quanto literalmente. O filme termina com créditos a produção, codireção, e só então direção.

Mas, a assinatura que digo é a do "terror social". Eu não notei nada do tipo. Inclusive, o filme não se perde em alegorias ou simbologias, mesmo que foque em detalhes que acabam induzindo interpretações do tipo. Como nada faz sentido no começo, é normal buscarmos explicações lógicas pra tentar compreender... mas no fim, tudo é explicado e tudo o que não fazia sentido, se conecta perfeitamente.


Sem deixar brechas pra interpretações mirabolantes, sem nos deixar dúvidas do que vimos.

E, é isso.

Veja, veja pois compensa.

Lamento tanto pelo título traduzido ser tão... ruim. Ele tenta expressar o que a obra é, se ancorando em uma das parte dele (a que os personagens devem evitar olhar), mas nem de longe ele consegue englobar tudo como a singela expressão "Nope".

Acho que tem coisas que não devem ser traduzidas. 

Enfim...

Obrigado pela leitura e, tenha um bom filme.


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6 Comentários

  1. Será se só eu que notei que os títulos dos filmes do Jordan meio que "se casam"?
    Get Out, Us, Nope...
    Acho que é só paranoia minha mesmo.

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    1. A simplicidade que engloba os temas que ele escolhe, isso é um padrão genial dele. Tamo junto, a semelhança é real heh.

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  2. Primeiramente, quero agradecer a sua recomendação. Fiquei curiosa quanto ao filme e tratei de não bisbilhotar pela internet por conta dos spoilers...e depois de assistir, posso dizer que sua resenha ficou impecável. Assim como no filme, a resenha deixa bem clara as intenções de maneira "indireta", tem que prestar atenção para sacar algumas referências/contextos históricos e ficou genial os elementos utilizados, bem original e reflexivo... Se comentar mais, vou dar spoiler rs Valeu a dica.

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    1. Baita filme né rs. Fiquei feliz por ter assistido Dark!

      E eu que agradeço, fico até mais motivado a escrever, ainda mais sabendo que consegui falar tudo o que precisava, sem precisar falar tudo.

      Obrigado pela leitura!!

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  3. Boommmmmm mais uma recomendação maneronaaa

    Que promete pra caralho também, igual as outras obras desse diretor fantastico, o complicado foi a tradução do título, o caras traduziram literamente para um ''não'' NÃO MANO.
    Brasileiro é um bicho filha da puta, não tem o que dizer kkkkkk.

    Mas enfim, thank u pela recomendação, see yahhh



    Ps: rapais, perdi um monte de coisa nova cara, que horrível essa vida de estudante não tenho mais tempo pra nada nessa joça ;-; kkkkk

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    1. Bom te ver novamente sr Wilson!!! Alias, viu as novidades sobre nosso queridíssimo Zelda? Em breve to trazendo um post especial.

      Alias, assiste, este é um filme que eu com certeza recomendo hein.

      Vlw Sr!!! E estude sempre!

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