CríticaMorte: Não Olhe Para Cima

Nunca torci tanto pra um filme acabar.


Boa leitura... 

"Não Olhe Para Cima" é um filme de comédia político-social, ambientado em uma catástrofe mundial. Basicamente, ele vem carregado de piadas sem timing e alfinetadas aos clichês modernos, vendendo uma aparente reflexão profunda, mas entregando uma galhofada sem igual.

O filme é zombaria pura, e por mais que tenha uma subcamada reflexiva sim, ele é tendencioso e inventivo de forma até meio preocupante, não pelo que quer transmitir, mas por como acha que deve ser transmitido.

A grande aposta dele está no ato de mostrar como as pessoas reagem mediante a uma calamidade iminente, que contradiz aos desejos mais vastos de cada individuo, e acabam apenas cometendo falhas negacionistas, ou se rendendo à comportamentos cada vez mais ilusórios outrora imprevisíveis.

Só que, o que o longa de mais de 2 horas (intermináveis duas horas) nos mostra é um aglomerado de ideias pífias regadas a um humor ácido, forçado, e nada risível. 

Através de uma proposital sátira social, ele aborda temas que estamos cansados de saber como corrupção, alienação e manipulação pública, negação a eventos e situações reais, debates desnecessários, destoo de argumentações sérias, validação e atenção à tolices relacionadas ao entretenimento raso, e por ai vai.

Sendo mais direto, é um filme que fala como o governo não liga pra sociedade, como a sociedade é fácil de ser enganada, como as pessoas ao se dividirem acabam mais agindo umas contra as outras, do que em prol de si mesmas, e como as pessoas ricas são más e egoístas, as pobres burras ingênuas, as espertas azaradas e ignorantes, e as ignorantes espertas e sortudas.

O triste é que, tal abordagem faz-se bem interessante e realmente funcionaria, se o próprio filme não tivesse a contraditória ideia de debochar de tudo isso, tentando arrancar risos em momentos muito inoportunos, mas causando estranheza, desconforto, e até raiva.

Eu confesso que, entendi que tudo isso foi proposital. O filme quer ser estranho, quer que achemos tudo muito errado e inimaginável. Ele força isso e muito mais, com caracterizações óbvias e bem estereotipadas, e situações com resoluções com um pé na insanidade, e outro na veracidade. 

No entanto o desapontamento com a obra supera em muito qualquer mensagem significativa que ela tenta transmitir. Mesmo que existam elementos de proveito satisfatório (boas atuações dentro do que é pedido, efeitos especiais ok, coisas assim), o produto final não corrobora com seu próprio conteúdo e, no fim das contas, é um tremendo desperdício de ideias e tempo.

Existe uma falha enorme que apenas desvia nossa atenção ao assistir, que engloba o comportamento geral de todos os personagens. Tudo soa tão artificial e inorgânico que apenas nos distancia de qualquer percepção que seja estimulada.

Esperamos algumas reações, e por mais que elas apareçam em teoria, na prática acabam sendo debochadas e escrachadas. Isso prejudica muito a imersão do espectador, e nos faz antecipar o fim da obra com certa pressa e inquietação.

Há muito desperdício de boas propostas, como o discurso do Di Caprio aos 40 minutos do segundo tempo, no qual ele manda uma mensagem claríssima ao próprio espectador pra abrir os olhos, e parar de ser tão passivo quanto aos males que o cercam. Ele se perde pois, apesar de ser um momento forte do longa, ele se desgasta com uma piada repetida e mal encaixada, a qual interrompe o discurso emocionante do personagem e nos leva de volta ao padrão abobalhado que o roteiro pede.

Não é errado mirar em debates sócio-políticos através de humor, e repito, é uma fórmula que poderia funcionar bem, desde que fosse otimizada junto ao enredo. Acontece que aqui, o que acompanhamos, é mais uma baita de uma história ridicularizada onde, uma situação séria e perturbadora, é contornada por anedotas desconexas.

São personagens debochando do mundo e de si mesmos, respondendo às situações com o melhor do que a palavra "clichê" tem a oferecer: O representante da ciência é bobo e socialmente incapaz; o representante da política é corrupto e comodista; o representante das potências mercantis é interesseiro e aproveitador; etc, etc. Lamentável que isso se aplica a todas as esferas e núcleos, arrastando assim todo e qualquer tipo de conceito representativo de forma preguiçosa mas abrangente.

Se pensarmos no filme como filme apenas, ignorando qualquer significado oculto, ele já começa errado. Sua história é simplória, e a abordagem, não na calamidade em si, mas nas pessoas lidando com a informação, seria difícil de manter a atenção de qualquer um. Imagine um filme de catástrofe como "2012" ou "Armagedom", e pense como seria chato se eles focassem 90% do tempo não na ameaça ao planeta, mas nas pessoas se recusando a acreditar e dando a atenção pra outras coisas. 

Só de falar já fica desinteressante, então não é de surpreender que na prática seja justamente assim. Então, a ideia de enfiar piadas baratas talvez surgiu como um reforço pra manter o público ao menos entretido, o problema é que isso só nos empurra ainda mais pra longe da trama, no intuito de escaparmos da vergonha alheia, não dos personagens, mas do diretor, roteirista e até dos atores ao darem forma a isso. 

O pior é o incômodo enorme que toma conta da gente a cada diálogo vivido. Os personagens se comunicam de forma incoerente com suas personas, responsabilidades e até mesmo com suas histórias! 

Um personagem casado e com filhos trai a esposa repentinamente sem qualquer justificativa. Uma personagem inteligente e bem sucedida deixa seu emprego, estudos, e até mesmo formação pra trabalhar de balconista antes de morrer, também sem a menor justificativa. Um soldado cobra por comida grátis pra que isso seja questionado o tempo inteiro só pra, fazer rir, mas até mesmo a presença desse militar é sem sentido.

Tudo parece dar voltas e voltas, pra no fim não levar a lugar algum, e ainda por cima jogar uma conclusão deprimente e previsível.

O final do filme, apela pra uma transição brusca pro drama, que ao meu ver repetiu algo visto em "Presságio", na verdade, é exatamente o mesmo final. Se não viu, alerta de spoiler: O Mundo Acaba.

O ponto parecido/igual é aquele onde o protagonista se encontra com sua família e apenas aceita o fim inevitável, partindo junto com ela, e até daria pra considerar este como um final decente. O problema, é que ele encerra uma trama pândega em demasia, e mesmo tendo uma mensagem contraditória porém forte, ele mesmo descarta ela com várias piadas em sequência, algumas visuais e relacionadas a própria tragédia (coisas flutuando no espaço) e outras duas com "sobreviventes".

Os caras chegaram ao cúmulo de apelar pra nudez gratuita justamente no final, o que só confirma o quão desesperados estavam.

Sendo sincero, eu não consigo tirar nada proveitoso deste filme, e apesar da mensagem dele ser interessante e conscientizada, ela não é bem aproveitada, nem de longe.

É isto o que "Não Olhe Para Cima" faz. Ele quer falar pra você: Se você finge que não vê, não significa que não acontece. Mas pra isso ele demanda que assistamos 2 horas de algo que, preferíamos jamais ver. É contradição pura!

E é isso. Eu poderia falar mais do filme, contar sua história, mas cara, tem nada nele. É um meteoro que cai na Terra e mata geral, mas o filme inteiro são as pessoas discutindo se acreditam nisso ou não, e se vale a pena tentar impedir ou não... aliás, apenas as pessoas dos EUA, pois o filme esquece que o planeta tem outros países. Não espere nada inteligente disto, não há.

Mas, se quiser traçar um paralelo aos eventos cataclísmicos recentes, seja pandemia versus negação à vacinação, seja aquecimento global versus capitalismo, seja percepção pública versus interesse de uma minoria dominante... acredite, isso tá em toda parte. São mensagens presentes em tudo quanto é produto, desde literal até áudio visual. O que este filme fez foi escancarar tudo isso e fingir que é uma piada, pra parecer que é, mas sem ser. Ele quer contar, sem contar, mas contando, e fingindo que não tá contando.

É fácil aliás, fingir que é inteligente e mandar uma mensagem forçada mas que, aos menos atentos passa batida, e aos mais atentos soa como brilhante (sem ser). Só basta maquiar um pouco, se é que me entende.

No fim, perdi meu tempo. Desculpe por fazer perder o seu.

Mas obrigado pela leitura.

Comecei o ano bem hein. Feliz 2022!

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13 Comentários

  1. Já começamos o ano bem...Ben...

    Bem, o que posso dizer...foi mal por te fazer perder tempo, eu acho...sei la...



    Por sinal, spoiler: faltam 12 artigos para bater 500 artigos no blog...é...
    Pelo menos um artigo a mais esse filme serviu, ta mais perto dos 500.

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    1. Caramba quase 500!!! Eu to ansioso kkk.

      Eu to planejando mais 4 pra esse mês então, falta bem pouco mesmo.

      Sr Wilson, obrigado!!!

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    2. Pois é, 500 textões vey, é pra poucos...



      "Obrigado"? Uai, por que?
      Enfim, de nada...eu acho kkkk.

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    3. Obrigado por ler, por comentar, por acompanhar esse grande processo. Seja sempre bem vindo sr!

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    4. Awwww <3

      Mt obrigado meu consagrado.

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  2. Eu ja sabia que ia ser uma merda, desperdicio de ideias e de profissionais.

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    1. Pois... Netflix meu filho, Netflix...

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    2. Netflix é uma caixa de surpresas terrível, mais assusta que empolga.

      Bem Srta Bia, obrigado por ler, e confie sempre em seus instintos.

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  3. O filme é sobre a relativização da percepção da realidade por meio da atual configuração tecnológica social. Leia o blog Cinegnose se não entendeu algum filme que tenha visto.

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    1. Meu intuito no DM não é "explicar os filmes", não todos eles ao menos. As vezes eu piro na batatinha e decido ir um pouco longe, mas geralmente não o faço, não com filmes. Geralmente, prefiro abraçar uma abordagem mais pessoal e focada em opinião própria, e fica por isso mesmo.

      Em todo caso, agradeço pela leitura e comentário, apesar de não saber quem é, e muito menos ter certeza se leu o que escrevi.

      Mas, em todo caso, eu vi o site que você recomendou, e li o artigo referente ao filme. Tá muito bem escrito, eu mesmo não entendi metade do discurso mas, a metade que entendi, até que curti. Mas como o site ta apontado como "inseguro", preferi tirar o link, pois fiquei um pouco preocupado. Eu chequei o artigo e, ao meu ver não é tendencioso nem pretencioso, e não tem qualquer perigo. O único problema foi o site em si... fiquei receoso, além de que o artigo está indexado em várias páginas. Pode ser plágio, e não gosto disso.

      Caso queiram ler, só procurar no google por "o-ironico-destino-media-life-do-filme"

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  4. Eu sou de Manaus, e já li vários de seus artigos, gosto sempre é pessoal, mas, sempre busquei entender o significado de filmes, séries, jogos e livros, gostando ou não. Tenho minhas próprias teorias sobre Silent Hill, que envolvem os conceitos do gnosticismo cristão. Obrigado pela atenção ( não concordo com um monte dos seus artigos, mas, me surpreende sua atenção aos detalhes!).

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    1. Bem, eu me esqueci de dizer que é bem vindo sempre!

      Aliás, eu gostaria de conhecer suas visões de SH, fiquei curioso.

      Gosto de saber que, mesmo não concordando, você consome, da ouvidos e voz. Isso é excelente, pois permite minha liberdade de expressão e claro, partilha de informações e pensamentos. Repito, eu adoraria conhecer suas interpretações e teorias, não só sobre SH, mas tudo o que puder compartilhar.

      Obrigado sr.

      Sempre que vir espaço, agradeço se compartilhar o que pensa. Mesmo que eu discorde, vou respeitar e, sei que vou aprender bastante.

      Repito, seja bem vindo.

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