O Filme Achado de Hoje:
VHS MIXTAPE
Virou meio que uma tradição lançarem um "VHS" em outubro e, na maioria das vezes, o filme é muito ruim, tirando uma ou outra ideia que se salva. Já faz muito tempo que não há um found footage decente, e ainda mais tempo que não surge um dessa franquia que valha ceder um tempo.
E, com grande satisfação, devo dizer que, dessa vez, as coisas mudaram drasticamente.
O filme é um bom terror. Na verdade, muito mais voltado pro horror, e com uma pitada de humor ácido bem perturbadora.
Só que a regra geral ainda vale, mesmo que o filme não a tenha respeitado em muitos momentos.
Dessa vez, a antologia seguiu os passos de outra franquia, a Black Mirror, mas não no tipo ou formato de terror abordado, e sim na maneira de abandonar uma ideia padrão que foi respeitada ao longo do tempo e transformá-la em algo pra um público mais amplo.
A questão é que, aqui, fizeram isso respeitando justamente o modelo original e sua transformação com o tempo.
É complicado explicar isso sem contar muita coisa sobre o longa, então se prepara e bora lá.
Boa leitura.
Música Não Diegética
É tecnicamente proibido o uso de trilha sonora em found footage, afinal, isso tira a magia, correto? Por muito tempo, eu pensei dessa forma, até começar a notar certas variáveis...
Acontece que, em alguns casos, a música pode ser e até se tornar o foco principal. Às vezes, se ela for incorporada corretamente e diegeticamente, transforma completamente o filme.
E, na lógica, todo filme é um found footage... pois todo filme foi encontrado de alguma forma. Alguém filmou, alguém editou, alguém mexeu nele ao ponto de comunicar uma história, e isso não mata a obra, apenas a aprimora.
E quando foi que houve a maior mudança do gênero na história do cinema alternativo na base de vídeos encontrados? Quando a MTV deu vida aos videoclipes!
Eu estou tentando entender o que senti ao ouvir e assistir a este filme, pois me pareceu muito com um programa de televisão musical, e isso se encaixa na categoria, mesmo que nem sempre tenha câmeras tremidas ou ultrarrealismo narrativo. A ideia por trás da coletânea, dessa vez, foi justamente mostrar que tem como usar música, mesmo quando não deveriam.
Praticamente todas as histórias são em torno de músicas, e o próprio projeto é uma fita gravando um tipo de programa musical alternativo muito similar à MTV, mas aqui voltado pra um mundo bizarro onde criaturas estranhas tocam o show.
Estranho, pra dizer o mínimo, mas o bizarro é que funciona.
O Formato Perdido
Fitas achadas não são tão difíceis de forjar. Basta filmar mal e fingir que é tudo real. Acho que, pensando dessa forma, muitos diretores e cineastas mergulharam na proposta pra tentar lucrar em cima de ideias boas, mas que acabavam mal executadas ou bem executadas demais.
Foi o caso de muitas franquias promissoras que começaram legal, mas, pela tendência ao exagero da otimização, se perderam. Aconteceu tanto que nem compensa mais citar, e geralmente eu passo vários minutos me dedicando a comparar tudo.
Porém, em VHS, a regra já deixou de ser questionável. A ideia da obra é acumular contos alternativos, filmados normalmente no estilo found footage. Mas foram tantos diretores e idealistas que já se enfiaram no projeto que ele só foi mudando e se transformando numa tremenda mistureba de antologias.
Por mais que se esforcem pra tentar justificar o estilo e se manter dentro do título, como uma fita VHS que nunca deveríamos assistir, no fim não há pra onde fugir: sempre terá algo que se destaca mais e algo que pesa tudo pra baixo.
Aqui, isso acontece muito, mas há tantos momentos satisfatórios de terror bruto e cruel que até mesmo as partes mais vexaminosas e imbecis se tornam primorosas.
Se Nem Ele se Leva a Sério...
Nós nem somos tentados a considerar o filme como algo "real". Ele despreza qualquer sugestão de veracidade, já escancarando logo que é tudo um grande show de horrores... mas é aí que ele nos pega.
Pois as situações que ele mostra, em quase todas as cinemáticas, são bem assustadoras, e algumas chegam a flertar com possibilidades muito mais próximas da realidade do que conseguimos imaginar.
Fiquei até surpreso, pois, em alguns casos, eu já cheguei a questionar como é que alguém nunca se lascou daquela forma, fazendo o que fez. Mas aqui, eles exploram possibilidades lógicas dentro do terror surrealista.
Algumas ideias, inclusive, me surpreenderam tanto que eu nem consegui tirar os olhos da tela.
E o mais bizarro disso tudo é que tudo nesse filme vai contra minhas expectativas e contra o que eu julgo bom no estilo. E, ainda assim, ele se saiu melhor que muito filme de terror que vi nos últimos tempos.
Resumindo cada Conto e Explicando
Aqui, eu começo a falar dos contos e, neste ponto, devo adiantar que rolarão spoilers. Me esforçarei pra ser breve e não contar demais, pois, nesses momentos, eu sempre enfrento um dilema: se contar demais, posso te tirar o benefício de se surpreender. E, se contar de menos, posso esquecer do que senti ao ver.
É dolorido, mas bora me segurar...
"Gwar is..."
Ao longo de todo o filme, há um curta sobre o tal programa de TV musical, que apresenta justamente clipes diretamente de fitas VHS. A questão é que o programa é completamente trasheira da pior qualidade, com caras fantasiados de alienígenas vikings pré-históricos steampunks...
Já começa tudo com um cara apresentando o próprio quarto, e é muita sujeira e baixaria. Ele ejacula em coisas pra dar vida a elas, e é tipo aqueles quadros idiotas que só uma adolescente vai achar divertido.
E, se você aguentar essa porcaria sem se afugentar pela esquisitice, é premiado com ótimos clipes até a próxima sessão de constrangimento e absurdos... igualzinho a assistir à MTV.
"Dance, Dance, Dance, Dance"
A primeira história de verdade vem após um breve programa infantil, onde um garoto é convidado pra cantar com fantoches muito fofinhos, o "Coro Curioso". Pra quem conhece "The Buddy" já dá pra imaginar o que vai rolar né...
Depois disso, uma equipe de televisão filma os estúdios, anos depois do encerramento prematuro da série por motivos desconhecidos. E eles pretendem reviver a obra, com sua reimaginação completa, conversando diretamente com o rapaz dos fantoches.
Mas descobrem que o programa nunca foi realmente encerrado. Ele continua no coração, fígado, entranhas e boca de todos nós!
É tão profundo.
Aliás, a melhor música que já ouvi este ano é justamente "Dance, Dance, Dance, Dance", tocada por Alex Geringas e Mike Himelstein e escrita por Renee Zhan.
Acho legal que os melhores filmes de terror do ano flertaram com a ideia musical, sendo "The Buddy" e sua trilha sonora (direto dos criadores de Too Many Cooks) também infantilizados, bizarros e muito assustadores.
"Another Cabin"
Este é um curta bem curto e animado em stop motion. O que isso tem a ver com found footage? Alguém fez essa arte e a perdeu depois que terminou, talvez por ter morrido por alguma maldição, vai saber!
Fato é que ela é bem feita, bizarra como é de se esperar, mas não vai muito além disso, não.
Conta a história de um garoto que vive numa casinha com o que parece ser a mãe dele, chata pacas, e um monstro linguarudo gigante da floresta destrói o teto e absorve geral.
Depois disso, ele vai pra outra casa.
Tudo isso ocorre sem falas, apenas com uma trilha sonora chamada "Dreamshade", de Flying Lotus.
Que bom que fui curado do meu medo de stop motion graças a muita terapia baseada em sessões de terror com Coraline e aquelas animações de Rick and Morty...
Mas, se fosse há alguns anos, eu estaria traumatizado novamente.
"Heartbeat"
Já viu aqueles Quartos de Isolamento Total de Som? Onde ninguém pode ficar mais de 15 minutos, caso contrário algo muito ruim pode acontecer? Já se perguntou o que realmente aconteceria? Maya e Wes descobriram.
Dois youtubers viajam pra uma instalação abandonada de pesquisas militares, levados por seus inscritos em mais um episódio de exploração proibida. E lá encontram justamente uma salinha dessas, destrancada.
E, como todo bom influenciador, eles gravam o que todos sempre quiseram ver: como é ficar trancado sem que ninguém saiba onde estão, em um lugar de onde o som não sai e também não entra?
Como descobrir na própria pele o que ocorre após alguns minutos em um silêncio total, ao ponto de conseguir ouvir pouco a pouco os próprios batimentos cardíacos, o sangue correndo pelas veias (e pra fora do corpo), o barulho da pele se mexendo, os fios de cabelo se encostando e até mesmo o pior de tudo: seus pensamentos intrusivos.
Achei perturbador o excesso de gore e como tudo escalona rapidamente, além das câmeras muito bem justificadas pelo tema e até mesmo o uso dos microfones como algo que nos permite sentir e ouvir um pouquinho do que eles ouvem.
Não tenho mais curiosidade alguma. Foi um experimento muito bem sucedido.
"The Music of Mr. Sze"
Aqui temos um misto de ideias que falharam muito, ao meu ver. As atuações são a pior parte, pois nem o protagonista consegue soar convincente.
Mas, a essa altura do campeonato, quem liga? A história é sobre um jovem estudante de cinema que aluga um quarto num prédio aparentemente comunitário, repleto de pessoas estranhas.
Então ele começa a filmar o dia a dia dele pra um projeto na faculdade, mas, como não pode usar a câmera livremente, usa um óculos com câmera embutida.
O problema é que ele continua filmando com a câmera de mão, e o óculos vira só um recurso pra justificar acompanhar a visão dele quando não seria possível.
Além disso, o foco da história é um músico que fica no quarto de cima e toca violino toda noite, o que chama a atenção dele. Quando ele investiga, descobre que o músico é um bardo milenar que luta contra uma entidade maligna de um olho enorme, que quer dominar o mundo.
Aí, ao atrapalhar a música, a entidade toma forma e acaba com o mundo e com ele. E não sei a razão, mas o filme fica com enquadramento de cinema (bordas pretas nos cantos) sempre que a criatura aparece.
Digamos que, de todas as histórias, essa é a que mais falha, pois a música nem se encaixa tão bem.
"Premature Burial"
Pra variar, vem um clipe musical, apenas isso. É um baita heavy metal pesadão, e não passa disso.
Evidentemente, um clipe pra se promover no meio do filme...
As cenas dele mostram uma história, igual a todos aqueles clipes musicais originais dos anos 90, e é legal de assistir.
Mas a história é só uma moça que trabalhava num necrotério, que é abusada pelo chefe e se vinga mostrando pra ele o quão boa ela é no trabalho.
Não é dos melhores curtas já feitos, mas pelo menos entra no contexto musical.
"Death Tone"
A chave de ouro que completa esse espetáculo: uma moça escrevendo uma música.
Lydia perdeu o pai, que era um grande músico, e decidiu seguir dicas deixadas por ele pra criar uma grande música.
Passo a passo, ela é muito dedicada e faz literalmente o que ele diz pra fazer. Só que ela não lida muito bem com sentidos figurados, então, se ele fala "Você precisa tirar a música diretamente das entranhas", ela realmente faz isso.
Então ela se transforma numa serial killer, em prol da arte, enquanto grava tudo.
No fim, ela produz sua música usando das mais variadas formas de instrumentos que o corpo humano pode oferecer, ou melhor, os corpos.
No fim do filme, toca uma música chamada "Hellraiser", de Showing Teeth, que, apesar de ser licenciada, acaba parecendo a grande música que Lydia produziu. Mas nunca escutaremos a música dela, pois ela nunca foi capaz de publicar.
Apesar de que, no final, algo como o fantasma do pai dela manipula a câmera e o estúdio, como quem produzisse o restante, mas ele guardou pra ele.
Fim
Conclusão
O filme é bom, apesar de ser ruim.
É interessante que, na abstinência de filmes de terror assustadores, me forcei a procurar por este VHS e me surpreendi, pois pelo menos ele dá mais medo que o do Halloween passado.
O tema musical foi uma boa cartada, e o fato de ele debochar de si mesmo no programa intermediário só elevou a capacidade dos curtas como terror.
Você ri, estranha e depois fica assustado, pois, na hora dos curtas, não é engraçado.
Isso é manipulação de sentimento, e é exatamente isso que a música faz conosco no que assistimos.
O filme é a própria música.
Eu curti, mesmo ele violando a principal regra do gênero, mas fazendo questão de dizer que foi proposital.
Aliás, a franquia VHS costuma passar no Shudder, o streaming de terror americano. Mas geralmente, quando seus filmes são importados, vão pra Amazon Prime ou pra Netflix.
Quando dublarem, se dublarem, é possível que mudem o título, como sempre fazem.
Mas eis um filme que eu assistiria novamente, mas tenha cuidado, tem muitas cenas fortes.
See yah.

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