Crítica: A Longa Marcha - Claustrofobia ao Ar Livre

A Longa Marcha

Caminhe ou Morra


Um filme sobre pessoas andando, baseado em um livro sobre pessoas andando. Quem diria que algo assim seria bom o bastante para segurar nossa atenção por duas horas?

Desde que o filme saiu, eu duvidei disso. Não conseguia imaginar uma história conceitualmente tão simples funcionando, mas ela funciona, e muito bem.

Sendo basicamente um Battle Royale de caminhada, onde somente uma pessoa restará na caminhada mortal, a trama se sustenta com aqueles que participam da jornada, e não apenas com a jornada em si.

É aquela metáfora sobre o valor da vida: o caminho de todos é longo, todos sofrem e todos andam com suas próprias pernas, mas, no final, o que vale a pena são os momentos da longa marcha.

É um bom filme.

Falarei um pouco, bem brevemente, na verdade.

Boa leitura.

São Só Jovens Andando



O filme inteiro se resume a um grupo de jovens caminhando em uma competição mortal. Todos são voluntários, e apenas um pode sobreviver no fim. A "corrida" é uma caminhada que dura até restar apenas um, e nós somos guiados pelo protagonista, que conversa com os demais participantes, conhecendo suas histórias e motivações e fazendo amizades.

É exatamente o mesmo tipo de trama que se vê em histórias de "resta um". Jogos Vorazes, Battle Royale, Alice in Borderland, essas histórias onde os participantes precisam lutar uns contra os outros de algum jeito, mas sempre acabam arranjando amizades que todos sabem que não durarão, mas ainda torcem para que durem.

O fim trágico é certo, mas a jornada até ele é um baita de um show.

Por isso, apesar de ser, sim, algo completamente simples, isso dá certo, pois a emoção dos diálogos, a insistência e a perseverança dos garotos, os sacrifícios, é tudo bem executado.

Violência e Terror


O filme se enquadra em terror principalmente por causa da violência explícita das execuções. Algo que é chamado de Bilhete no começo é, na verdade, um massacre cruel.

Jovens sendo baleados na frente das câmeras depois de três advertências por andarem devagar demais. Isso é absurdo, mas naturalizado.

Como o protagonista mesmo diz, o maior medo que sentimos não é assistir a tais execuções, mas nos acostumarmos a vê-las... e, lamentavelmente, isso ocorre perto do fim.

A história conduz nossa percepção para que aceitemos que todos ali já estão mortos, basta apenas esperar o jeito como pararão de andar e aceitarão o desfecho. Mas ele é ainda mais cruel a cada nova reviravolta.

Alguns desistem, outros resistem, alguns são usados de exemplo, e nunca estamos totalmente preparados para ver, até que simplesmente aceitamos.

Suspensão da Descrença


O mundo onde essa competição é feita é estranho, para dizer o mínimo. Um tempo pós-guerra em que aceitam voluntários em uma marcha nociva, só para motivar o país a continuar trabalhando e se empenhando, com tudo sendo transmitido pela televisão... é esquisito.

Talvez, se fossem condenados em busca da liberdade em uma última caminhada, seria mais fácil aceitar a ideia, mas quem se importaria com personagens assim? Talvez colocar jovens inconsequentes ou traumatizados se voluntariando pelo sonho de enriquecer e realizar um desejo seja um jeito de contornar essa proximidade e simpatia, nos forçando a nos apegar.

Mas é, no mínimo, estranho ver tudo acontecer como aconteceu e não questionar.

Ainda assim, não se distancia muito de outras histórias de "resta um". Sempre são meio apelativas quanto aos detalhes motivacionais para tudo ocorrer e, felizmente, a ideia da marcha não soa tão absurda assim.

É até um pouco justo: dão a chance de você andar por opção e, numa simples caminhada, pode se tornar bilionário.

Basta resistir mais que os demais.

Claustrofóbico a Céu Aberto


Por fim, é esquisito como a história se enquadra também naquelas de claustrofobia, sabe? Tipo "A Queda", "#Alive", "Vivarium" ou "Não se Mexa", em que o cenário não muda, todos estão presos, tudo rola mais com diálogos e ações, mas, no fim, ninguém vai para lugar algum. A ironia é que aqui eles estão em movimento constante e nunca param.

O cenário muda, sim, mas ainda é aquela mesma estrada. Os personagens estão tecnicamente livres, estão ao ar livre, mas não podem fugir nem descansar jamais.

É agoniante ver como eles são forçados a se manter andando, apenas andando, enquanto conversam e se desesperam ao testemunhar contratempos como câimbras, enjoo, cansaço e exaustão, e ainda assim permanecerem andando.

Tem uma metáfora ambulante aqui, onde, na ditadura em que tudo se passa, a falsa liberdade é sempre acusada justamente pelas armas apontadas para os jovens.

Estão todos livres, até perceberem que não estão.

Conclusão


Não é um dos melhores longas que já vi, mas, pelo menos, me surpreendeu.

Esperava pouco de uma trama tão simples. Achava que não me impressionaria, mas me impressionei.

A ideia é previsível, mas a execução tanto do longa quanto da narrativa é perfeita.

E quem diria, um filme sobre pessoas andando causaria aflição... curioso, para dizer o mínimo.

É isso.

Espero que tenha dito tudo e que tu tenha curtido. Caso não tenha visto o filme, saiba que ele é longo, mas nada tedioso. Quanto ao livro, eu nunca o li, mas algo me diz que seria bem mais interessante, inclusive quem diria que Stephen King elaboraria algo em cima de uma simplória marcha!

See yah.

Postar um comentário

0 Comentários