Venom: The Last Dance
Uma despedida honesta de um personagem perdido
Bem, apesar dos traumas obtidos com Venom 2, em algum momento eu teria de tentar e pararia pra assistir a conclusão da saga mais caótica da Sony, que sem saber o que fazer com um excelente personagem, simplesmente decidiu botar um fim através de um terceiro filme que ninguém pediu.
Só que ai que tá, seja pela falta absoluta de expectativa, por conta das bombas que vieram antes, e nisso se encaixam todos os spin-offs do homem-aranha que tentaram emplacar, até que o terceiro filme é bem legal.
Tem furos, tem falhas, tem defeitos, mas tá correto eu diria. O filme ainda almeja muito, sonha alto e aposta em ideias recentes que não colaboram em nada pra função de "salvar franquia", mas ironicamente, ele também não dá a mínima pro que mostra.
De certa forma ele segue o modelo de Homem-Aranha - Sem Volta pra Casa, filme que continua diretamente inclusive, e só não liga pra continuidade ou lógica, preferindo construir sua história e seu desfecho dignamente.
Enfim, já me estiquei muito na introdução, e se foi assim aqui, prepara que o negócio vai ser longo.
Assistindo sem Pretensões
O que me levou a assistir foi a gripe. Estava minha mãe e eu gripados, acamados, sem ter o que assistir pois nada de bom tinha na televisão, quando vimos Venom 3 em cartaz, acho que na Amazon. Minha mãe gosta do Venom, pois nunca viu o segundo filme, e aí ela me convidou a assistir com ela.
Moral da história: Filme duvidoso, mas experiência positiva, acaba gerando um bom evento.
Só que ao assistir, notei que achei ele bem mais agradável que o primeiro filme, e extremamente melhor que o segundo. Inclusive quero me abster de comentar sobre Carnificina, já fiz o artigo sobre ele, e não quero nem mais tocar no assunto.
Mas continuando, este terceiro filme continua uma história, se agarra a ela, se mantém firme, e sabe conduzir decentemente.
Por isso ele é bom, ele é só uma história sobre Venom voltando pro seu mundo, e lidando com problemas gerados por ele próprio, e não mais por conveniências do destino.
Venom Perdido
O problema do personagem Venom retratado nos filmes solos é que, ele não tem o principal trunfo que poderia ter: ele não está ligado ao miranha.
Sem isso, o personagem fica contido ao tema "alienígenas parasitas" e se perde no conceito. Com um carisma sem igual tanto do Eddie Brock de Tom Hardy quanto o próprio Venon, e a relação de ambos, o filme só tem como trunfo a piada do alterego interno, conflitos pessoais, e constante dualidade de personalidade.
O tema de Super-Herói não entra, afinal não há vilões na galeria de Venom tirando outros parasitas, e nenhum deles faz sentido sem o Homem-Aranha na jogada (até o próprio Venom fica esquisito). E só uma história de Anti-Herói também não cola, pois o Venom não tem o comportamente esperado para isso.
Tentam investir na ideia, mas não funciona, então optam por ignorar tudo isso e só ir.
O problema é que Venom não tem onde se encaixar, afinal há muitas problemáticas e empecilhos judiciais fora do cinema que impedem ele de avançar sozinho, ou em conjunto com algo, e por mais que tenham muito tentado, no fim não teve o que fazer com ele.
Estúdios e Brigas de Bastidores
A Sony tentou fazer um Venom marcante no terceiro filme do aranha de Tobey Maguire, e aquele negócio apenas não vingou. O que matou o filme e tem quem diga que destruiu a franquia do primeiro aranha do cinema, foi justamente o vilão parasita.
Era pouco interessante, meio raquítico, estranho em proposta, muito prejudicado pelos demais personagens com os quais contracenou, e no fim ficou perdido. Seu Eddie Brock (Topher Grace) não tinha agradado, sem carisma algum e totalmente ofuscado pelo roteiro; o Venom não satisfez o público, nem como vilão muito menos como personagem, quase nem tendo desenvolvimento ou significância.
O fim dele nos filmes do aranha foi tão repentino e definitivo, que nem pareceu um vilão tão grandioso quanto poderia. E olha que usaram o conceito de "Traje Contaminado" dele, fizeram ele aprender o que sabia com o próprio miranha, mas depois disso o filme não soube usar o personagem, resumindo ele à um parasita vingativo que se acoplou em qualquer um pra morrer através de uma bomba.
Depois disso, a Sony optou por trazer o personagem solo, sem depender do cabeça de teia, e tentando aproveitar a ideia do parasita espacial um pouco mais. No primeiro filme até deu certo, tendo a ilustre benção do próprio Stan Lee em seus famosos cameos, mas depois disso não dava pra fazer muito, sem se voltar pro arqui-inimigo do protagonista.
Mas tentaram, e ficou aquele lixo sem rumo do qual não quero falar.
Porém depois disso, a Sony teve uma ideia esquisita de pegar toda a galeria de extras do Homem-Aranha, e investiu pesado neles. Uma tragédia depois da outra, e o motivo? Eles não podiam usar o Homem-Aranha mais, que apesar de ser um personagem deles tecnicamente, por contrato estava no controle da Marvel graças aos acordos pros Vingadores, e o sucesso do aranha do Tom Holland.
Pra quem não sabe, a Sony fez os filmes do Tobey Maguire e do Andrew Garfield, sucessos em suas épocas claro, mas sem conexão com o universo Marvel expandido nos cinemas.
Isso mudou quando fizeram o acordo para a participação de seus personagens no multiverso, onde rolou o grande evento canônico da união dos 3 aranhas principais, e isso ainda abriu portas pra outro grande evento canônico com a união de todo o resto, nos filmes animados do Miles Morales.
E eu cito tudo isso, pois enquanto todos estes grandes sucessos rolavam, a Sony se perdia em projetos paralelos de cunho duvidoso.
Os Projetos Paralelos
Teve filme de vampiro, filme de caçador leão, filme de uma mina aranha que via o futuro e o filme do parasita espacial gosmento. Só este último pareceu certo, e os demais foram um tremendo desperdício de tempo e dinheiro, pro estúdio e pro público.
A ideia era aproveitar a galeria de vilões obtidos via contrato original, os quais nem seriam utilizados pela Marvel (que só tinha interesse no Homem-Aranha), e criar seu próprio universo de filmes de quadrinhos. Mas sem quadrinhos, não dá pra fazer muito certo?
Venom é o único personagem da vasta galeria do miranha que tem potencial solo, apesar dele literalmente ser uma entidade espacial que só pode existir se conectado a algo. A ironia é que esse conceito é muito bom pra ser explorado, e já foi nos quadrinhos, através por exemplo de Agente Venom.
Um anti-heróis militar que usa o parasita em suas desventuras, a ideia é boa, mas infelizmente a Sony não mirou pra esse lado, pelo menos não até aqui.
Neste filme, e voltamos a falar dele, finalmente olham pro lado militar, pro lado de missões, e pro vasto universo próprio dos Simbiontes. Só que o foco fica meio confuso e caótico afinal só vem depois de muitas bombas, e nessa lista coloco o segundo filme, e os demais que erraram pois tudo faz parte de um mesmo lote defeituoso.
Simbiontes e o deus deles
Recentemente, os quadrinhos mostram uma entidade simbionte que teria criado Venom e seus irmãos, e essa entidade tenta dar mais ênfase pros parasitas, e ignora o cabeça de teia. Ele se chama Knull.
Parece uma fonte rica, e é, mas o estúdio se encontra tão saturado em suas investidas diversas e falhas, que optou por encerrar a história de Venom, juntamente com as demais, e qualquer plano de expansão, usando essa entidade, mas usando muito mal
Knull aparece no começo, no meio, e no final, preso numa jaula espacial, com o poder de enviar seus Caçadores via portais, mas contido. Ele nunca se liberta, fica só na promessa, nem mesmo soa como uma ameaça real.
O filme mostra o criador dos simbiontes tentando se aproveitar de Venom e Eddie, pra se libertar, em um plano esquisito e confuso, mas que serve pelo menos pra mover o roteiro. O tenso é que se Eddie e Venom permanecessem sem fazer nada, sem se transformarem, e escondidos, este vilão jamais teria qualquer participação.
Então o foco da obra é nos mostrar o melhor da dupla protagonista, enquanto lutam contra um final inevitável, formando assim uma boa despedida.
Há erros? Sim, pois enfiam um monte de simbiontes do nada, quase ignorando tudo que o primeiro filme construiu, e forçam a barra com um monstro poderoso demais em um roteiro fraco demais... mas ainda assim funciona bem.
O Roteiro é Ruim mas a História é Certa
Por mais que tudo se resuma a Venom e Eddie tendo de fugir de um monstro alienígena imortal, enquanto precisam evitar a transformação completa, e fogem também do governo por deverem impostos ou sei lá o que, o filme agrada pois a jornada é legal.
Ver a dupla é o que segura tudo, as conversas entre eles, os devaneios e até as transformações, tudo é um grande show.
Introduzem muitos personagens novos, tentam esticar tudo, mas a gente fica preso mesmo é pelo Venom trocando ideia com o Eddie e vice-versa.
E se fosse só isso, talvez não tivesse filme, ou talvez tivesse... a questão é que a Sony se enfiou num buraco tão grande que nem isso pôde aproveitar direito.
Eles não tem mais o que fazer com o personagem, então encaminham ele pra uma despedida pela segunda vez, de um jeito que quase imita a perdição do mesmo entre os estúdios.
O Final e o Pós-Crédito
Quem assistiu o filme dos três aranhas e ficou até o pós crédito, viu o longo monólogo de Venom sobre a prometida participação no crossover, e a ignorada que tomou.
No final do trágico segundo filme, ele foi puxado pro universo da Marvel, com a promessa do encontro com o Homem-Aranha de Tom Holland, inclusive tendo a cena dele reconhecendo o aranha pela televisão, mesmo sem jamais tê-lo conhecido.
Mas a Marvel não usou ele no filme, fazendo só uma breve citação dele em uma piada sobre alienígenas. Acredito até que os executivos da Marvel não usaram de propósito só pra não promover os filmes de Venom do outro estúdio.
Ainda assim, por questões contratuais talvez, colocaram o personagem no pós-crédito conhecendo mais sobre o universo do qual nunca participou, e sendo expulso sem ter feito nada. Eddie e Venom são mandados embora, sem nem ter a aparição de Venom inclusive (só escutamos a vozinha na cabeça do Brock).
Exceto talvez pelo fragmento simbiôntico dele, que fica no bar. Uma pequena parte deixada (o que não faz sentido por vários fatores), que deixa aquela ideia de que o parasita chegou no universo Marvel e está lá, existindo.
Mas a Marvel não pretende usar ele nem dar foco a ele, e a Sony também não, já que repete a fórmula no seu próprio terceiro filme.
No final, Venom morre, perdoe o spoiler mas ele é explodido e some pra sempre, exceto por um pequeno fragmento dele, que incorpora uma barata, dando a ideia de que ele pode ter sobrevivido.
Entende o quanto a fórmula se repete e não leva pra lugar nenhum?
A Despedida
O filme é uma enorme despedida desse bom personagem, que sem ter um bom lar apenas parece solto e jogado pra todo lado.
Inclusive é isso que nos é mostrado! Ele não parece pertencer nem mesmo ao próprio enredo, sendo algo solto e sem rumo, passeando sem ter uma motivação.
Explicam que o fato de Venom ter ressuscitado Eddie Brock no primeiro filme, tornou eles um simbionte perfeito que poderia ser usado pra libertar o deus deles, que eles trancaram pois era... mau demais? Eu fiquei perdido nisso, mas a ideia foi que ele é um alvo, e como alvo quero dizer que tem um alienígena monstruoso que o persegue.
O governo também o procura, pois por algum motivo no espaço de tempo em que ele foi levado pro outro universo pela magia do terceiro filme do Tom Holland, o governo coleciona simbiontes, tem armas de captura, ferramentas de rastreio infalíveis, e está de olho no Venom.
Nada é explicado, mas também nada importa muito, já que o filme em si só quer matar logo o Venom/Eddie e reiniciar o personagem.
A Estátua da Liberdade
Aproximar a dupla é o que nos aproxima e atrai pro filme. Eles nunca se deram totalmente bem, sempre foi algo recorrente, afinal são duas almas em um corpo, dois brigando pelo controle, mas eles se tornam mais unidos depois de tantos conflitos, e isso surge naturalmente.
É algo que fazem bem, tornando a união da dupla muito mais próxima, pra dar aquele baque emocional quando eles se despedem no desfecho, sem jamais conhecer a Estátua da Liberdade.
E detalhe, pra quem não pegou a referência: O combate final dos 3 Homens-Aranha contra a grande galeria dos vilões selecionada, foi na Estátua da Liberdade.
Venom jamais chegar nela é meio que uma indireta pro fato dele não ter sido aproveitado nos outros filmes, quando ele estava ali, disponível e torcendo por isso.
Só que, é dada uma ênfase enorme pra isso ao longo de todo o filme, ao ponto de nos fazer achar que realmente havia este objetivo desde o primeiro. Mas na verdade, nunca teve.
Foi um recurso narrativo para criar um objetivo simples em comum, que querendo ou não, sendo intencional dos roteiristas ou não, foi uma mensagem do próprio filme em relação ao seu cenário geral no cinema, e posicionamento nessa briga por holofotes que os filmes de herói vem disputando.
O Erro da Insistência
O grande deus dos simbiontes ganha muito destaque no pós-crédito, prometendo que voltará, que dará um jeito de fazer suas maldades, mas cara, isso nunca vai rolar.
Nem tem mais simbiontes na Terra, os portais que ele cria pras suas criaturas caçadoras podem até ser ameaçadores, mas falta muito feijão com açúcar pra ele se tornar algo minimamente interessante.
Mas, a Sony quer que quer investir tempo em oportunidades perdidas, e permitiram a inclusão de mais uma cena sem desenvolvimento e, fica por isso mesmo. Sabemos que nunca será continuada.
Pois mesmo se Venom 3 fizesse sucesso, o que era quase impossível depois do carnificina, tem tanta picuinha nos bastidores que não dá pra insistir.
A sorte deles é que o Aranhaverso está funcionando, e há elementos interessantes com público grande nesse meio.
E por ser animação, eles podem produzir sem medo de compartilhar lucros com a dona da marca.
Inclusive, tá rolando uma série com o Nicolas Cage como Aranha Noir, a qual atraiu meu interesse pelo teor "comédia".
Talvez fale disso em breve.
Conclusão
Por fim, diria que o filme é bom, eu quase nem falei de efeitos especiais, trilha sonora, enredo, personagens, pois nada importa de verdade, e o que fazem, fazem bonito.
É um filme engraçado, inclusive ele abraça mais o lado da comédia dessa vez, quase nem se levando à sério.
Tem cenas de ação, bem construídas e filmadas, mas muitas vezes meio perdidas e sem razão pra existirem. Muitos combates nem deveriam rolar, com conflitos gerados artificialmente, e erros de lógica (Venom atrai inimigos quando deveria evitar, e evita quando devia atrair), mas são bem executados e divertidos de assistir.
Inclusive tem violência pesada em alguns momentos, mas contida, na medida pra não repugnar, apenas dar aquele impacto de leve.
É uma história bem mal construída mas entretém. Tem umas cenas em que Venom ocupa animais, que são visualmente legais, mas tão sem nexo que nós assistimos, e logo em seguida preferimos só ignorar.
Pra duas pessoas acamadas, foi um filme de final de tarde que segurou a atenção e até comoveu, mas de resto nem se tornaria memorável.
É uma história genérica de pesquisas governamentais, alienígenas perseguidores, e até tinham boas ideias ali no meio. Por exemplo, tem uma ideia dos Aliens Caçadores que são bem mortais e também imortais, poderem rastrear Venom apenas quando ele assumia a forma completa, o que rolava em algumas situações.
Ele podia usar isso como uma faca de dois gumes, uma vez que descobre que está sendo caçado, pra atrair a criatura e resolver os problemas com o governo, que também o caça. E ele faz isso, mas faz em momentos que só agravam a situação.
Também tem a ideia dos novos Simbiontes como heróis, mas o próprio filme os descarta matando todos muito rápido e sem grande desenvolvimento.
Mas, por pouco quase deram início à saga "Agente Venom", e quem sabe isso poderia ter dado certo.
Em todo caso, desistem no meio do filme, e no final se despedem de Eddie Brock, mas talvez continuarão apostando apenas no parasita, talvez em outro humano agora, quem sabe o Flash Thompson para o Agente Venom.
Resta saber quanto mais querem gastar apostando. É viciante, mas raramente lucrativo.
É isso.
See yah!
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