Crítica: Backroom - Mas Que Loucura Foi Essa?

Backroom


Estava eu tranquilo em minhas lives corriqueiras quando meu irmão me fez um grande convite: Bora prum cineminha? Fomos! E o resultado foi uma experiência em família agradável, e um filme completamente absurdo.

O que valeu da noite foi nosso jantar às pressas num restaurante dos anos 50, e a cadeira retrátil que quase nos fez dormir. O filme quase ajudou nessa função, de tão expositivo e cansativo que é.

Enfim, bora contar a razão do filme ser tão ruim, mas tão ruim, que prefiro lembrar do milkshake que tomei.

Observação: Metade do artigo é uma coisa, a outra metade é outra. O que você sentirá no final foi exatamente o que eu senti ao assistir.

Boa leitura.


Backroom sem Backroom


O longa conta duas histórias paralelas, uma de um monte de gente sem graça, e uma sobre um ambiente vazio, amarelo, e sem nada de especial fora coisas afundadas no cimento, e acredite, o melhor de tudo é essa segunda história.

Quem vai ver um filme de Backroom espera justamente isso: Suspense pra caramba e uma enrolação com nada acontecendo, mas com uma musiquinha de fundo, uns sons bizarros, gente resmungando, uns grunhidos, se pá uns easter eggs como sangue pingado aqui e ali, e tá tudo perfeito!

Difícil criar um filme com suas quase duas horas em cima de um conceito tão simples? Sim, é sim, porém não é impossível. 


Quase conseguem executar tal tarefa, quando na abertura focam em um carinha com uma câmera na mão e um sonho: Sobreviver.

Ele encontra a backroom, explora como parte de seu misterioso trabalho, e some drasticamente deixando um rastro de sangue e gritos de horror. Nada aparece, só é insinuado, e o filme marca ponto.

Tudo pra em seguida focar na incrível trama de um divorciado, se consultando numa psicóloga com traumas de infância. E daí pra frente é só conversa, exposição de roteiro, explicações do óbvio, até mesmo FLASHBACKS DE CONVERSAS RECENTES, tudo pra nos fazer de idiotas enrolando pra bater a meta de tempo.

Se ao menos a história fosse boa, dava pra assistir tranquilamente, mas ela nem sabe como terminar, ao ponto de literalmente NÃO TERMINAR.


O Filme Sem Fim

Eu não estou exagerando, nem fui incapaz de compreender a grande filosofia do filme ao encerrar bruscamente, no meio de uma conversa. Eu apenas não consigo engolir o jeito como tudo acaba.

Um médico, trocando ideia com a psicóloga traumatizada, começa a falar um monte de besteira sobre sua grande investigação, e ela para de escutar ele, mergulha em uma epifania, e passamos a ver sua versão clonada nas salinhas bizarras.

Ficou sem entender? Eu também. Mas pra ser justo que tal eu explicar o que o filme explica?


A História Explicada


Backroom é um local inóspito e entre as realidades, que replica ambientes já existentes, mas com ajuda do chat gpt. Ela faz lugares deformados, com habitantes abstratos, baseando-se em memórias do que existe no mundo real.

Pra entrar nesse ambiente há portas invisíveis pelo mundo, que caso encontradas, te prendem num setor que espelha àquele onde você estava.

Quanto mais fundo vai, mais corrompido e macabro tudo fica, e nessa distopia toda o caos reina.


O Vendedor


Pensando dessa forma, o filme prefere nos mostrar um homem que não superou o divórcio, entrando numa backroom que achou em sua loja de móveis, e se divertindo com mapeamento, estudos, até enlouquecer, matar pessoas, e tentar descontar a raiva na psicóloga. 

Sem a devida preocupação em elaborar o surto desse personagem, boa parte da história ocorre fora de cena, como o mapeamento dele da Backroom, como o enlouquecimento crescente, como o próprio tempo passando e qualquer consequência disso. Um dia ele está normal, no dia seguinte brota como psicopata. E nada disso é explicado.

A Psicóloga


Paralelo a isso, temos a tal psicóloga, que tem um profundo trauma de infância pela mãe ter sido internada pro transtornos psicológicos, o que a fez seguir essa carreira quando adulta. Então ela trata esse cara, como qualquer outro cliente, até o dia que ele some depois de falar da sala estranha que ele achou.

E ela decide ir atrás dele, entra na tal sala, encontra ele, e sai mais traumatizada ainda, não por um terror absurdo que surge, não por descobrir o verdadeiro mal, mas sim por ele ter tentado torturar ela psicologicamente, e morrido na frente dela.

O Cientista

No final, um cientista aparece, junto de uma equipe de agentes da Monstro SA, e leva a moça psicóloga sequestrada pela Backroom pra uma base secreta deles, e lá, este cientista interroga ela.

Perguntando de onde ela veio e pra onde ela foi, ele se perde em filosofia barata, explicando o quanto sua vida é dedicada a entender as Backrooms, e como ela foi sortuda de escapar com vida, e fica nessa ladainha.

A questão é que este cientista ganha destaques pontuais ao longo do filme, aparecendo testemunhando sinais de que uma Backroom apareceu. Ele vê o vendedor de móveis numa filmagem...

Ele vê o vendedor de móveis num comercial da loja, que ele rapidamente percebe ser uma Backroom disfarçada.


E no fim ele encontra a psicóloga, tentando unir os pontos, que nem o filme consegue. E, toda essa ênfase no cara, é por ele ser o diretor desta bagaça.

Mark Duplass é quem dá rosto ao personagem, e é um dos responsáveis pelo longa.

O problema é que ele desviou tanto daquilo que ele sabe fazer, que só tornou toda a obra um verdadeiro fracasso.

25% Found Footage


Pra quem não sabe, Mark é um grande diretor e ator de filmes no estilo de câmeras perdidas. Foi responsável por exemplo por Creepy, um filme bem legal do gênero.

Quando foi chamado pra ajudar em "Backroom", era de se esperar que ele incluiria o estilo no qual é perito, como foco do longa. Coisa que faz sentido, afinal Backroom também casa bem com essa ideia.

E de fato há isso, por dois momentos o filme vira um found footage, e são os melhores momentos. São justamente os pontos em que tudo se torna um terro digno, com suspense na medida. Tudo bem filmado, com as câmeras justificadas, com ações corretas, trilha sonora ambiental e imersa em cena, sem edição evidente e bem convincente.


O estrago é feito fora dessas cenas, quando saem do estilo e pulam pro convencional. Ao fazer isso, é inevitável matar a ideia, mas o problema é que estragam mais ainda tentando explicar.


Excesso de Explicações


Explicam conversando, tudo é desenhado pra gente e narrado, tem inclusive narradores entre as cenas como se fosse alguém contando uma história pra uma criança.

Só que não mostram o que deveriam. Não nos mostram nada que conduza nossa interpretação, e preferem nos explicar para que não tenhamos dúvidas. Infelizmente, ao focar nisso, ele se perde na própria narrativa, e se torna confuso pois do tanto que explica, nada realmente ocorre.


A Análise Sobre os Significados

Porém vamos lá, o filme não é um desastre, na verdade há algo interessante e profundo chamado "Complexidade". 

O filme tenta empurrar uma ideia acima da própria narrativa, que ignora sua história e se esforça muito em soar "intelectual". E confesso que depois de observar bem, conversar muito, e assistir uma segunda vez, eu comecei a notar algo mais do que somente uma história ruim num palco legal.

Não importa os personagens e suas subtramas, pois na verdade eles são meras âncoras simbólicas pra segurar nossa atenção. A verdade é que a Psicóloga e o Vendedor são figuras que apontam diretamente pra onde devemos realmente nos concentrar.

Aquele que chamo de "Vendedor", na verdade é um Arquiteto fracassado, que luta pra ser aceito em um mundo no qual não se sente bem.

A Psicóloga também não é alguém comum, tendo traumas enraizados que se destacam justamente em sua profissão.

Se unir os dois, o que é exatamente o que o filme faz, o resultado é um conflito entre Imagem e Imaginação. 

O Arquiteto e a Arquitetura


O Arquiteto nos guia em direção ao visual, onde percebemos os belos e esquisitos cenário, e assim como eles estranhamos e nos vislumbramos com a arquitetura. As formas distorcidas, o desconforto causado pelo vazio, ou então pela desordem dos objetos que repentinamente se acumulam, retrata justamente a forma como o personagem enxerga tudo.

Repare que no primeiro momento em que ele é visto na Backroom, sua atenção se volta pros móveis acumulados, os quais remove um por um conforme explora o lugar. Não é mostrado pra gente, mas quando ele entra pela última vez no local, já fica perceptível que a desordem emocional dele, está equiparável ao que vemos naquele lugar.

Isso é replicado em outro momento do filme com tanta clareza, que passa desapercebido. A Loja dele, é toda organizada, limpa, bonita, e ele sempre está lá buscando manter essa ordem. Mas em seu intimo, como sua sala de trabalho, ou então seu próprio quarto, tudo é completamente bagunçado.

Ao entrar na Backroom, sua ação inicial é explorar, conhecer, mapear. Ele organiza, ele torna aquele lugar seu lar, ao ponto de simplesmente se instalar ali.

Dessa forma, temos a abordagem visual total. Um local onde tudo é caótico, é confortável pra uma mente inquieta e descontente com tudo o que não pode controlar.

E realmente, se notarmos bem o trabalho nos cenários é de encher os olhos de admiração. As Backroons estão detalhadas, desorganizadas mas criveis, e são estruturadas como o próprio mundo, alternado e afetado pela pura confusão, daqueles que o exploram.


A Psicóloga e a Mente


A Psicóloga nos mostra um conflito constante entre sua visão do mundo, e seu esforço em consertá-lo, e suas memórias de tudo o que já a afetou.

Não é à toa que sempre que ela sempre mergulha nos pensamentos sobre sua mãe, sua antiga casa, e a pedra que tanto carrega. 

Em sua infância, ela foi isolada do mundo, ensinada pela mãe insana que devia temer tudo além da sua janela, e ela testemunhou a destruição de tudo, algo ilustrado constantemente em sua mente com tratores destruindo tudo o que ela lembrava.

A pedra em seu quintal, era uma memória pura de um momento que foi totalmente destruído, o qual pra ela muito significou, mas rapidamente foi substituído por traumas sequenciais. Aquela pedra foi onde ela e sua mãe marcaram a alegria de ter um lar, o que foi retirado dela.

E a mãe, logo em seguida levada pra um hospício, deixando ela sozinha, em mundo que ela apenas temia. Mesmo assim, a psicóloga lutou, estudou, e fez todo o possível pra consertar as outras pessoas, assim como ela própria acreditava ter sido consertada.

A questão é que as memórias a perseguiam, memórias essas com o tempo se distorciam, e ao invés de conforto, traziam mais do trauma e da dor. Conforme ela absorvia os conflitos dos outros, ela própria mergulhava ainda mais na própria escuridão, mas mantinha tudo para si, como foi ensinada.


Backroom e as Memórias


E assim tudo se une. Temos na Backroom uma junção de estrutura caótica, com memórias difusas. Objetos e até pessoas são replicados lá, mas se deformam assim como são lembrados.

Apesar do filme insistir em repetir isso, como se fosse algo extremamente fácil de compreender, ele na verdade mostra melhor do que explica. É que a verdade está naquelas formas estranhas acumuladas, a repetição em tentar refazer, algo que nunca esteve certo.

Note que além do homem gordo que vira comida em pasta, do cadeirante natalino, e da moça ruiva, temos também repetições dos dois protagonistas, mas em situações extremamente simbólicas.

O Arquiteto surge como um pirata em sua loja, o mesmo que ele se forçava a encenar para assim atrair público em seus comerciais. Mas era este também um dos seus maiores traumas e arrependimentos, já que seu sonho não era vender, mas sim construir.

A forma distorcida de uma memória ruim, ganha espaço naquela Backroom, pois é exatamente isso que elas fazem: Separam o pior e isolam. Era como se as "Backrooms" fossem o local sombrio do nosso próprio subconsciente, onde escondemos tudo o que mais tememos ou o que não queremos que descubram.

A Psicóloga ganha sua forma distorcida personificada também, no final, assim que ela percebe o quanto está perdia mentalmente.

Nada do que ela fizesse resolveria sua situação, ela não podia consertar o mundo, as pessoas não são malucas ou perturbadas, ela era. Ela aceita sua loucura no desfecho, e mergulha em seu próprio mundo, por isso sua outra forma desperta, por isso ela deixa de escutar.

A sala escondida é o lugar onde tudo se esconde. As figuras monstruosas são pesadelos vivos. As Backroons são o lugar proibido, a fronteira entre o aceito e o rejeitado. Um acumulo de memórias falsas, espalhadas e escondidas sob camadas cada vez mais profundas.


A Origem das Backroom

A ironia aqui é que tecnicamente, o filme ilustra muito bem como o tema se originou no mundo real. As Backrooms começaram como uma creepypast sobre uma simples imagem, na qual pessoas depositaram memórias.

Muitas pessoas começaram a ver a imagem da famosa sala amarela, e passaram a jurar que haviam visto ela em algum lugar. Em um efeito Mandela ou surto coletivo, a história cresceu e cada vez mais internautas passaram a lembrar de algo que provavelmente nunca existiu.

Um grande escritório vazio, salas sem fim, um mundo perdido no qual ninguém se lembra de nada, mas sente que já esteve. Isso cresceu e cresceu...

Até que um dia Kane Pixels começou a fazer vídeos com o Unreal Engine, e publicar na internet. Esses vídeos pareciam realistas até certo ponto, mas o foco era ilustrar essas muitas histórias que todos compartilhavam nas redes.

Isso se tornou tão grande que jogos surgiram, comunidades inteiras sobre o tema, muitas outras visões de Backrooms, cada vez mais enfeitadas e complexas, e pronto, se tornou viral.

Hoje, o filme tentou trazer essa personificação à tona, sob uma estrutura quase tão bagunçada quanto a própria lenda.

Ele é confuso, terrível narrativamente, mas inspirador visualmente, e um grande mistério psicologicamente.

Conclusão

Mas ai eu me pergunto: Precisava ficar tão confuso?

O filme nem se esforça pra contar uma boa história, é só muito cheio de frases feitas e muito papo, mas se perde nisso.

A criatura final não precisava ser mostrada, sendo este um exemplo de como ele próprio se sabota. O monstro é medonho de fato, mas o que mais assustava era seu mistério. Os sons, os passos, o medo do desconhecido. Inclusive o auge do terror está nas pouquíssimas cenas em que esse mistério é o foco.

As Backroons não precisavam ser explicadas, afinal uma vez que entendemos o que tememos, deixamos de temer. O próprio filme mostra isso com o protagonista vendedor fazendo amizade com os "monstros". Mas, a lógica disso não precisava ser tão escancarada.

O abstrato não precisa fazer sentido, e insistir nisso torna tudo muito desconfortável pro espectador. Querer explicar coisas como de onde tudo vem, e pra onde tudo vai, como a porta é ligada e como funciona, o filme faz questão de mostrar isso acontecendo por um interruptor sendo que não precisava. 

Mas pelo menos um final deveria ter. 

Se o mundo te dá limões, faça limonadas. Isso faz sentido?

Obrigado pela leitura.


Ps.: O restaurante foi o Johnny Rockets! E dou 10 estrelas pro Milk Shake!

Tivemos de comer em menos de 10 minutos pois o filme estava marcado para 9h40 e a comida chegou às 9h35... ainda pegamos o início do filme então, tá valendo.

E a sala? Era perfeita, a cadeira virava uma cama num apertar de botões... dessa vez o conforto reinou! Mas, no final pegamos um uber aparentemente bêbado, mas tudo terminou sem grandes reviravoltas, desta vez.

Aliás... tinha uma loja em reforma, e eu quase entrei nela só pra dizer que achei uma Backroom no meu imaginário, mas tinha um moço lá dentro e fiquei com vergonha..

See yah.

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