Crítica: A Grande Inundação - A Essência de Black Mirror

 A Grande Inundação


Eis um filme que engana muito pela apresentação... e surpreende na entrega.

A capa, o nome, isso engana de certa forma, pois a ideia que passa é que este é um filme de catástrofe natural, mas na verdade, é de ficção científica!

O negócio é um tipo de terror misturado com drama, cheio de mistério, que parece enlouquecer conforme avança, cria um monte de perguntas impossíveis de responder, mas responde tudo sutilmente no fim.

Do absurdo ao óbvio, ele simplesmente faz o improvável, e surpreende, simples assim.

Bora falar mais a respeito.

Boa leitura.


Muito Black Mirror


Quando o filme apareceu no catálogo da Netflix, achei que era só mais uma obra asiática genérica, igual tantas outras que eles acabam mostrando, e apesar de as vezes querer arriscar por curiosidade, eu preferi passar dessa vez. Porém, um amigo chegou do nada e recomendou falando "é sua cara, é Black Mirror". Na hora isso despertou me interesse e me fez imaginar como que algo focado em uma Inundação, seria "Black Mirror".

O termo remete a tecnologia, ponto. Males provocados pelo avanço tecnológico, terror psicológico focado basicamente em como nossas maiores conquistas evolutivas podem se voltar contra nós, e o quanto isso pode perturbar... pelo menos era assim nos primórdios até esquecerem o tema e apostarem no sobrenatural né... (Aliás, isso só reforça que perderam a essência da série Black Mirror e abandonaram a simbologia pesada do nome... mas isso fica em outro artigo >>> Black Mirror <<<).


Mas voltando ao filme, ele começa de um jeito, dá pistas sobre o tema oculto, e as vezes revela muito demais antes da hora, pelo menos é o que parece. Mas a cada nova resposta que ele dá, tudo fica muito mais confuso, e vai ficando difícil antecipar o desfecho, pois mesmo sabendo que haverá algo tecnológico envolvido, isso só mascara o tema real.


A Inundação é o Foco


Sim cara, o ponto alto do terror é a própria inundação, mesmo que a história caminhe pra ficção ainda na metade do longa. 

O caos, o fim do mundo, gerado por uma tempestade eterna de água salgada, que tá inundando o planeta inteiro por causa de chuvas de meteoro caindo na Antártida e destruindo as geleiras, poxa, parece expositivo mas é só o básico pra causar urgência.


Pois tantas outras histórias são contadas em paralelo, com os coadjuvantes, com personagens ignoráveis, e isso de início nem importa, e o fato de não importar... importa. Complexo né?


É que a cada pessoa ignorada, a cada potencial história deixada de lado, as coisas se tornam mais complicadas, parecem oportunidades narrativas desperdiçadas, mas é tudo puramente proposital. É pra nos fazer imaginar o que aconteceria se algo ocorresse diferente, e aqui vem o primeiro traço da ficção.


Dia da Marmota


Looping temporal, sim, parece tão óbvio quando é aplicado, e um recurso que funciona muito bem em obras com múltiplas camadas a explorar, é o passo ideal e eles o fazem. Os protagonistas se veem presos naquele fim de mundo pra sempre, reiniciando, revivendo aquele dia terrível, mas isso não é tudo.

É que geralmente em histórias de looping temporal, há algum macguffin que serve de ponto de resolução. Há um objetivo, algo que deve ser feito pra encerrar aquele ciclo, ensinando alguma lição aos protagonistas e ao público, ou apenas revelando algo sobrenatural por trás. Vai do simples conceito de "prisão no tempo" pra "purgatório" e fica bem fácil antecipar o desfecho.


Só que essa regra não se aplica aqui! Na verdade "A Grande Inundação" dá vida a um novo modelo de looping, justamente por já entregar o final no começo dele. 

O "primeiro ciclo" encerra com perfeição, diz exatamente o que vai acontecer depois, e já explica tudo pra gente, mas nada faz sentido pois ainda não conhecemos a história direito, mesmo já tendo todos os dados pra entendê-la. Irônico né?


Então quando fica 100% claro o que causou a anomalia temporal, e conhecemos o real significado dessa história, todas as pistas e peças se encaixam e todo o mistério é resolvido, dando uma senhora satisfação, e realmente impressionando já que nada é antecipável. 


Qual a História?


Uma mãe acorda pouco antes de uma inundação começar e tomar seu prédio inteiro, e se vê forçada a fugir com seu filho de 5 anos, atravessando obstáculos, pessoas, eventos de caos e desastre, e a própria inundação, só pra chegar ao topo do prédio e escapar num helicóptero.

Ela era especial, uma pesquisadora chefe de um projeto de Emoções Artificiais, essencial para a evolução e sobrevivência da raça humana.


Por isso mandam um rapaz ao resgate dela, e tudo já se encerra ainda no primeiro ato. Mas, ai começa o looping... agora tirando a criança da jogada.

Em busca do filho desaparecido, ela precisa passar novamente pelo caos do mesmo dia, milhares e milhares de vezes, agora conhecendo as muitas histórias que deixou passar, e forçada a interagir com casos diversos, sendo desviada do objetivo constantemente, mas retornando a ele o tempo todo.


E no fim, ganhar isso define sua própria existência!


Spoilers do Fim


Sim, mesmo falando basicamente toda a premissa, ainda não dei spoilers. 

E nem darei... muitos... apenas direi que a obra encerra magnificamente, explicando com precisão e sem complicações o que causou tanto a inundação, quanto a prisão temporal daquela mãe.

E essa resposta é perfeita, apenas perfeita. 


Não foi a primeira vez que vi algo baseado em corpos artificiais ou evolução na base de "cópias", é o conceito principal de obras como Blade Runner e Nier, mas aqui isso ganha uma nova cara, uma abordagem muito mais íntima.

E adorei assistir isso.

Entrou pra minha lista de memoráveis e recomendados.


É isso.


Espero que tenha gostado do texto mas, eu recomendo fortemente que assista.

Garanto que não se arrependerá.

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4 Comentários

  1. Já vi alguns episódios isolados de Black Mirror (geralmente os que o pessoal mais compartilha) e gostei bastante mas nunca me aprofundei na série em si e nem sabia que tinha filme também...

    Me pareceu interessante, fiquei curioso para buscar entender o que originou o problema e também o motivo dessa repetição temporal... o negócio é que não tenho Netflix, então isso vai demorar um pouco (a menos que eu use de maneiras mais escusas para obter o acesso).

    Sempre gostei dessa temática de fim do mundo, ainda mais quanto tem inundações no meio... acho muito interessante a exploração desse tipo de situação, inclusive fiquei lembrando de um jogo chamado hydrophobia que joguei bem nas antigas e até deu vontade de baixar pra jogar só por causa disso kkk

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    1. Black Mirror teve um filme interativo, foi uma loucura da Netflix e ele nem é ruim... mas o principal acerto da franquia foi servir de exemplo pra outras obras tematizadas.

      Infelizmente, depois da 6° temporada as coisas desandaram, eles abandonaram o padrão "tecnologia" e começaram a focar no sobrenatural, com monstros e fugiras místicas. Continuou na pegada de critica social e terror psicológico, mas a base principal sumiu.

      E sobre esse filme, acredite, vale a pena assistir (mesmo de forma escusas rs). Eu recomendo muito.

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    2. Ahh lembrei, Black Mirror Bandersnatch ou algo assim... eu cheguei a jogar uma vez quando lançou isso (naquele período não tinham muitos streamings e eu ainda usava o Netflix) mas nem lembro como era a história...

      Agora nem tá disponível para assistir de novo né?

      Infelizmente quando alongam muito as séries elas começam a perder o foco, humor, terror, a base dela...

      Vou dar uma procurada nesse aí então.

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    3. Isso mesmo, engraçado falar "Joguei um filme", mas é realmente o que rola lá.

      Acredito que esteja disponível sim, é um dos materiais originais Netflix e que só funciona na plataforma pelo esquema de escolhas e consequências.

      Stranger Things mesmo, o negócio só desandou, tristeza.

      Espero que curta sr Sieg, eu achei bem legal e não tava dando nada pelo filme.

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Obrigado demais por comentar, isso me estimula a continuar.

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