SérieMorte: Ted - 1° Temporada - Melhor Impossível

Quando descobri que fizeram uma série baseada nos dois filmes do Ted (aqueles do ursinho de pelúcia com vida, que só fala baixaria), não fiquei empolgado, mesmo gostando dos filmes. Muito pelo fato de não conhecer séries derivadas de filmes que se saíram bem, ainda mais com efeitos especiais constantes e um humor ácido como de Ted. Contudo, fiquei impressionado!


Com apenas 7 episódios, essa é uma série lançada em 2024, que aborda variados temas polêmicos sem medo, em um formato quase antológico, carregada de humor, piadas de duplo sentido, mas sem nunca passar dos limites. Fiquei surpreso com a qualidade técnica principalmente, mas também só tenho elogios para o enredo.

Tem terror, humor, drama, suspense, ação, aventura, romance, ficção científica, pornô, tem tudo! Acredito que essa é uma das melhores séries que já pude assistir.

Enfim, falarei tudo o que achei a seguir, sem spoilers.

Boa leitura.


Resumindo a História


A série conta a história de John e Ted, anos antes dos filmes. É o mesmo universo, porém na adolescência deles, com John tendo seus 16 anos, e Ted já tendo passado pela falência pós fama.


Ele foi um urso de pelúcia que ganhou vida após um desejo de John, e depois de ser explorado por Hollywood, ele acabou envelhecendo e perdeu seus 15 minutos de fama, se tornando apenas um Ursinho de Pelúcia Falante, e voltando pra sua família.


A história que acompanhamos é um ano da vida de Ted (Sett MacFarlane) ao lado de John Bennett (Max Burkholder), o pai Matty (Scott Grimes), a mãe Susan (Alanna Ubach), e a prima Blaire (Giorgia Whigham). Todos morando sob o mesmo teto num cotidiano familiar comum em qualquer lar tradicional.


Porém, além do ursinho falido, temos um jovem adolescente inocente de mais, uma mãe submissa e pacifista até de mais, um pai preconceituoso e de mente fechada, e uma prima que faz de tudo pra segurar as pontas do lar.


Em cada episódio, vemos a rotina dessa família, em meio a problemas sociais básicos dos anos 90, mas que também alcançam o panorama atual do mundo. Mas não é algo chato de assistir, não é só uma novela de gente fazendo caras e bocas, fingindo que falam com um personagem invisível. É tudo uma história sobre o Ted mesmo, e as maluquices que ele é capaz de fazer levando tudo ao caos muito rapidamente.


Ted está sempre presente, mas os outros personagens roubam a cena facilmente, e tudo se mistura num show divertidíssimo de assistir.


Formato da Série


Apesar da série ser leve, ela tem muitos assuntos polêmicos, e o público infantil não é o alvo. Mas ela também não é exagerada em nada do que mostra, sempre tomando cuidado com o que abrange, e principalmente com as mensagens que quer passar. Eu diria que ela é a primeira série de "lacração" que fez o trabalho direito.


Em formato antológico, como as séries noventistas faziam para televisão, ela conta uma história independente por episódio, sempre com a família Bennett e o mascote engraçadão, quase lembrando uma sitcom, porém carregada na polêmica.


Os temas que ela aborda são, na seguinte ordem por episódio: drogas; abandono de menor; pornografia; abuso sexual; separação familiar; homofobia e por fim, sexo.


No meio disso rola um monte de outros subtemas, mas o principal sempre é respeitado, fazendo a trama girar em torno de cada tema, com Ted participando.


Humor Mais Leve Que dos Filmes


Improvável imaginar humor com assuntos tão pesados certo? Lembrando que temos um jovem adolescente de 16 anos, totalmente inocente, que acredita e confia cegamente em tudo que seu ursinho, com mentalidade e experiência de 40 anos (mas com apenas 8 anos), orientando-o da forma mais imatura e inconsequente que se pode imaginar.


Se não fosse a prima dele, a família Bennett seria um completo desastre, e a história também, mas ela traz equilíbrio, assim como Ted traz o desequilíbrio ao equilíbrio.


Ted é encrenqueiro e muito irresponsável, muitas vezes levando seu amigo John pro pior caminho possível, mas Blaire acaba ajudando, sendo quem cria o contrapeso ao ursinho de péssima influencia.


Personagem essa que não existe nos filmes, e eu jurava que poderia ser algo ruim na história, mas acabou sendo mais que essencial. Sem ela, talvez o humor de Ted não funcionaria.


Isso pois ele é livre pra falar todo tipo de merd4, já que Blaire surge pra desmenti-lo e responde-lo, quebrando o impacto das atrocidades ditas em tela. Sem ela e suas reações, seria como assistir uma obra repleta de ofensas gratuitas, de péssimo gosto, e extremamente ofensiva. 


Mas, uma vez que há respostas e reações, uma vez que escutamos os dois lados, o tom de tudo realmente é aliviado, na dosagem correta pra tornar até mesmo a situação mais constrangedora ou revoltante possível, engraçada.


Os caras falam de tudo, mas o jeito que os personagens reagem é equivalente ao que a gente faria, e em situações assim, testemunhamos temas sérios abordados com humor, um humor besteirol, mas ao mesmo tempo muito responsável e até sofisticado.


Efeitos Especiais


Ted está em toda cena, até quando ele não é o foco do assunto, ou da câmera. Eu achei isso brilhante! Pois além dele ser extremamente bem feito, ele parece realmente estar lá.


Os atores reagem certo à presença dele, as conversas são fluídas, e apesar dele ser totalmente digital, tiveram cuidado para posiciona-lo sempre do jeito mais realista possível.


Cito uma cena em que a família está conversando, na sala, e Ted está no sofá, sem falar nada. Mesmo com a conversa rolando principalmente entre o pai e a prima, Ted ainda é mostrado ali do lado dela, cortado pela câmera, mas presente.


Qualquer show simplesmente ignoraria ele, afinal seria corte de gastos, e ele não estaria contribuindo pra cena. A lógica seria "Se ele não fala, não precisa mostrar". Porém é o oposto! O fato dele estar presente, mesmo que não participativo, apenas enriquece a trama, lembrando que é a série dele.


Até cenas em que ele não está, acabam tendo o teor de uma série do Ted. O mundo em que tudo se passa é muito semelhante ao nosso, mas as pessoas são um tanto quanto perturbadoramente estranhas.


As pessoas costumam ser idiotas num nível alto de mais, e tal estranheza serve pra destacar o quanto alguns são babacas, enquanto outros são mais sérios, todos convivendo num mesmo ambiente.


Então a presença do ursinho acaba sendo a coisa menos estranha que existe, condizendo totalmente com o mundo em que ele existe, algo muito parecido com o visto no filme.


Carisma do Elenco


Todos são espetaculares, até os coadjuvantes de um episódio só. Todo mundo consegue ser estranho, mas real, e não consigo imaginar a série sem eles.


John é um garoto bobo, que confia tanto em seu ursinho que apenas faz tudo sem pensar. É a perfeita versão infantil do John dos filmes, e aqui entendemos melhor ainda o personagem, conhecendo os maiores momentos de sua juventude.


Seu ator, Max Burkholder, demora pra começar a se soltar, e sempre parece tímido de mais nas falas. Mas é curioso que isso combina muito com seu personagem, se descobrindo cada vez mais, mas ainda se mantendo infantil. Se foi proposital na atuação ou não, eu não sei, mas ficou perfeito.


Susan chega a ser irritante de tão calma, como a mãe atenciosa, sorridente, que recebe esporro do marido, é tratada com ignorância, mas sempre está sorrindo, tranquila, fazendo de tudo pra ser a dona de casa perfeita, a esposa perfeita.


Mas sua atriz faz ela ser real, transmitindo pensamentos atrás dos sorrisos. Mesmo sem ela explodir, mesmo sem ela se exaltar ou sair do papel, Alanna Ubach tem um olhar que comunica muito mais do que o que tá no roteiro. 


Scott Grimes incorpora Matty, o pai racista, homofóbico, preconceituoso e misógino. Se não tinha como piorar, ele ainda é um saco de conviver, sendo totalmente egoísta o tempo inteiro.


Porém, ele serve pra trama, pra evolução de seu filho, como um tipo de exemplo invertido. Além disso, ele é tão bom em ser revoltante, que quando ele quebra sua casca e mostra um pouco de humanidade, isso arranca lágrimas.


Blaire então, interpretada por Giorgia Whigham, é um amor de personagem. Inteligente pra caramba, ela debate, tenta botar juízo na cabeça das pessoas, tanto de Matty quanto de John, e até mesmo Ted.


Vê-la como a única sensata nessa bagunça, tentando a todo custo salvar a família do abismo que ela mesma já viveu (afinal ela vive com os tios, pois seus pais caíram nesse abismo), é muito satisfatório. E olha que ela é uma personagem com muitas camadas, que vai se revelando pouco a pouco, e sempre parece ter espaço na trama.


Ela vira destaque em praticamente toda a história, mas ao mesmo tempo, tudo ainda se volta pro Ted é claro. O carisma dela é sem igual.


Por fim, Ted é aquele ursinho chapado, com as piores ideias imagináveis, que parece esquecer que seu melhor amigo é um garoto de 16. 


Só que ele não chega a ser vilanizado, nem é apenas um alívio cômico. Ele tem grande participação em tudo que acontece, as vezes diretamente, as vezes apenas como comentarista quebra clima, mas é muito divertido de assistir, e sua presença é indispensável. 


A história é sobre ele afinal de contas, mas ela não ignora todo o resto, como o mundo em que ele existe, e tudo que o cerca.




Encerramento


É curioso como a série termina em um epílogo que comenta a si mesma, e uma suposta segunda temporada, mas sem dizer exatamente isso.


O ano da vida de John e Ted foi o que a temporada mostrou, e os dois conversando a respeito, e fazendo suas previsões sobre o que viria, é uma clara referência a uma provável segunda temporada. E assunto tem, ainda mais com o jeito como lidam com tudo que mostram.


Vivi pra ver uma série falando de orientação sexual, da forma mais sensata e flexível possível, mostrando um personagem homofóbico debatendo com um gay fluído, enquanto um ursinho de pelúcia zombava da palavra "homofóbico".


É pra todos os públicos!

E eu quero muito ver uma nova temporada.

Ainda fiquei pensativo sobre a Blaire. Ela é alguém crucial na vida de John, e de Ted, tê-la retirada do mundo deles agora é um choque, mesmo sabendo que ela não está nos dois filmes. 


Precisam fazer um terceiro filme com ela! Mas teria de ser com a mesma atriz (a personagem combina com o carisma dela, simples assim). O ruim é que, nos dois filmes trocaram a atriz coadjuvante principal (a história acompanhou a mudança, mas né... aconteceu), e temo por esse precedente. 


Mas, se ficarem só na série também não tem problema. Apesar de querer ver o Mark Wahlberg como John ao lado do Ted e gostar da química deles, não vejo problema com a versão rejuvenescida dele.

A série se saiu muito bem, e é uma obra original do streaming Peacock. Esse serviço é da Universal (tecnicamente), e aqui no brasil deve sair pelo Universal +, e talvez apareça na Prime Video. Chato de serviços de streaming é que estão se ramificando muito, e muito rápido. Então tudo fica com exclusividade aqui e ali, e no fim temos de assinar um monte de pacotes mensais, pra assistir meia dúzia de séries, muitas delas de qualidade duvidosa.


Mas, essa aqui compensa assistir. Ted é realmente muito divertido, até pra quem nem curtiu os filmes. Muito do humor mais pesado dos filmes não tem na série, ou foi amenizado.

Aliás, mesmo quem nem viu os filmes, pode assistir sem medo. A série é canônica, mas ela também mostra o passado, então tecnicamente ela está construindo o mundo base pros filmes existirem.


Ela também explica algumas questões sobre o próprio Ted. Ver como ele nasceu, através de outro nascimento, é muito engraçado. A gente entende que é tudo só um monte de besteiras, mas ao mesmo tempo, a gente entende.


É isso.

Obrigado pela leitura.

Espero que tenha ficado legal...

See yah.

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2 Comentários

  1. Assisti esses dias os 2 filmes, cara é impressionante como envelheceu bem, o humor, os personagens, a história, o filme é demais cara, queria assistir mas pelo visto só tem em redes de streaming fora do Brasil...triste, mas, fazer o que ne kkkk.

    See yah!!

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    Respostas
    1. Hei sr Wilson!

      Eu também curto Ted, é engraçado apesar de meio grotesco.

      Acho que não demora até passagem dublado por aqui, a série é muito boa, não vão perder essa chance.

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