SérieMorte: Wandinha (Wednesday) - O Spin off da Família Addams

Essa é uma série complicada, pois consegue ser boa e ruim ao mesmo tempo. Nela, acompanhamos o alarmante clichê de enredos adolescentes com toques contemporâneos pra criar relações com a juventude, e o riquíssimo estilo mórbido consolidado pelas histórias da Família Addams, numa mistura incompatível e incômoda, resultante em discrepâncias gritantes.


O talento de Tim Burton é visivelmente podado por executivos da plataforma e qualquer provável genialidade em sua adaptação inicial (que após 5 episódios passa a direção pra outros), é rapidamente contornada por traços grossos de canetadas, que só mancham sua obra, tornando ela indigesta e repulsiva, no sentido ruim. No fim, nem é uma série realmente do Tim, mas sim de uma mescla de diretores e redatores.

Falarei mais a respeito a seguir, sem spoilers.

Boa leitura.

Fiquei abismado com a qualidade dos figurinos, ou pelo menos metade deles (os que remetem diretamente ao universo Addams), e me senti indignado com a exibição de todo o resto como a escola, os alunos variados, as espécies de "monstros", a população local que rejeitam os "monstros" e por ai vai.


Como adiantei, soam como duas metades de uma moeda, que até tem o mesmo valor, mas de países completamente diferentes, com cada metade tendo um tamanho, um formato, um estilo e até uma impressão completamente oposta a outra.


A própria série já no primeiro episódio, expõe visualmente o quanto tudo será ambíguo e ancípite, jogando indiretas de que não assistiremos apenas uma história de Wandinha, mas uma história adolescente esticada por irrelevantes relacionamentos e núncias de catástrofes iminentes.  

Mas, assim como o alerta é jogado em nossa face, toda a trama já é pré-estabelecida ainda no primeiro episódio.


Tudo que precisamos saber sobre a personagem já é mais do que explicado, no longo primeiro episódio que já desvia a obrigação de se concentrar nela, pra nos levar pra história que a série realmente quer contar: Investigação criminal na escola de monstros.

O que se refere a protagonista já é explicado no começo de tudo pra que nada mais seja realmente focado nela, e toda a atenção dos desenvolvedores é dedicada a trama fraquíssima e exaustante de algo que todo jovem deve amar assistir, com casais em potencial flertando em longas pausas dramáticas, ou reviravoltas com briguinhas infantis de dominância estudantil.


Pois é, se você foi seduzido pelo título da obra que sugere um foco maior em apenas um dos membros da famosa família excêntrica de monstros, eis um balde de água fria: É puro clickbait.

Tinham alguma história sobre uma escola de monstros que não são monstros, e uma investigação sobre um monstro assassino, mas sem algo chamativo o bastante pra atrair o público pra outro clichê do tipo. Então optaram por inserir a personagem, em sua fase adolescente como justificativa, pra nos segurar até o final da longa temporada de 8 episódios, de uma hora alguns, e pasme, 20 minutos outros.


E a audácia da Netflix foi tamanha, que ainda no início já estabelecem franquia! Já alegam que haverá segunda temporada antes mesmo da primeira começar direito. No fim do primeiro episódio, temos um trailer de tudo que nos espera ao longo da temporada, e ao chamar tudo de "primeira temporada" já estabelecem que planejam continuar, ideia essa ainda mais enriquecida com o desfecho onde deixam supostas pontas soltas (e fazem questão de expor isso) pra uma continuação... dependente é claro da recepção do público (que até o momento, foi ótima!)


Pena que será continuação de algo que já nem é tão interessante confesso... 

É que a parte boa mesmo, é Wandinha e seu relacionamento com sua família, e claro, com a sociedade. Porém isso já perde muito espaço e destaque, quando a personagem começa a desviar de seus encantadores trejeitos nefastos, pra algo mais voltado pro romance acadêmico.


Logo no primeiro episódio já temos 3 pretendentes de olho na personagem, até brigando por ela! Isso sem contar a amiga que incluíram de jeito forçadíssimo, para brincar com a ideia de que a protagonista poderia ter relacionamentos hétero ou não. Logo isso é descartado... por enquanto.


Preferiram reduzir o elenco de pretendentes, e dão um par romântico, ou melhor, vários, pra coadjuvante principal. Mas ainda assim, possibilidades não foram rejeitadas viu.


Os mistérios da psique de Wandinha são respondidos com pressa, e já a liberam pra protagonizar seu próprio romance, mais uma vez justificado por seus objetivos prévios.

É que como sempre, ela não quer ser como seus pais, e seus pais são românticos apaixonados (muito bem representados diga-se de passagem) mas que desejam que ela se torne como eles, quase se encaixando no perfil de antagonistas, o que já seria o bastante pra nos segurar.


Só que ao invés do enredo mostrar Wandinha resistente às investidas alheias, ela compactua com elas, interage, e aos poucos se afasta de quem ela escolheu ser... e sim, ela escolheu ser.

A série nem perde tempo ao nos contar e mostrar a razão da protagonista ser como é. E é uma razão tão estúpida, que desculpe, não me convenceu. A personagem decide se fechar ao mundo pela morte de um bichinho de estimação, e foi isso.


Explicação essa tão desnecessária que além de não mudar nada na trama, também não justifica nada com sucesso, então não havia a menor razão para incluí-la, tirando é claro a forçada interação para aproximar Wandinha da co-protagonista de sua própria história: A estudante lobisomen kpoper que não pode virar lobisomem, tadinha.

Mas a fórmula é repetida várias vezes, pra que de algum jeito deem significado ao nome da série.


A personagem foi reestruturada e mais humanizada para caber na série, e não o contrário. E o pior, é que não foi só com ela que isso ocorreu. A própria família Addams, que aparece bem mais do que eu acreditava que apareceria, também é modificada em pequenos detalhes, para corresponder ao que a série pede, quando pede.

Em muitos momentos é aquela mesma família de sempre, um grupo perturbador de pessoas com uma visão sombria, mórbida e até oposta de como o mundo é e deveria ser, mesmo também mostrando características positivas, como empatia, amor, paixão, felicidade, etc. Tudo isso existe neles, mas por razões diferentes do que estamos acostumados a ver.


Mas as vezes, a série obriga os personagens a agirem como "normais", com olhares de repreensão pra Wandinha quando ela diz algo que normalmente (ou anormalmente) os faria sentir orgulho.

Contraditoriamente, em cenas também há exatamente o que esperamos destes personagens, com eles se orgulhando de frases e ações macabras uns dos outros. É ai que me perco.


A sensação que tenho é que estou assistindo duas famílias diferentes interpretadas pelos mesmos atores, pois eles mudam o jeito de pensar dependendo do que a cena pede, do que o roteiro pede.

Mesmo com alguns esforços consideráveis pra manter a magia da família, e da personagem, como o fato dela quase nunca piscar (só o faz quando está abalada com algo), acabam se perdendo por causa desses sutis desvios.


Ponto positivo no entanto é que, isso é ajustado conforme a história avança, trazendo a família pro foco parcial nos longíssimos episódios, "parcial" pois é claro que tem-se de dividir o tempo de tela com importantíssimas tramas secundárias como o mistério das sereias ou o romance dos lobisomens com górgonas. 

Mas, os momentos em que a família começa a ganhar mais atenção conseguem ser incríveis, com destaque é claro, para o Mãozinha.


Melhor personagem da série de longe, e em todo caso nem é o mais importante (apesar de quase nos fazer chorar em um certo momento).

Também temos o Tio Chico que rouba a cena, simples assim. Não da pra não curtir esses personagens, pois estão bem atuados, bem construídos, e claro, combinam com o enredo. 


Os problemas são quando o outro lado da moeda é explorado. Há o esquema das Tribos, aquela clássica temática de que em toda escola, haverão grupos e panelinhas onde o protagonista deve se encaixar e nunca consegue. Aqui chega a ser ridículo como tudo funciona.

Uma escola somente pra monstros (chamados de "excluídos") mas que tem espaço pra apenas 4 espécies, e suas respectivas panelinhas: Vampiros, Lobisomens, Sereias e Psíquicos (tem outras, mas as panelinhas são essas).


Os Vampiros são pessoas com óculos escuro que andam na luz do dia mesmo e dane-se. 

Os Lobisomens são jovens de cabelo desgranhado e que são agitados, e viram lobisomens de noite, indo uivar por ai.


As Sereias são jovens de olhos diferentes que ganham escamas ao tocar na água, e andam de boa por ai, com pernas, e amuletos que impedem que eles usem seus poderes (que hipnotizam a galera no canto).


Os Psíquicos são pessoas que podem usar poderes psíquicos normalmente e são relativamente poderosas, mas não há nenhuma regra de contenção de habilidades.

Aliás pra nenhum deles. A função da escola é apenas deixar eles conversando no pátio, passeando pelas instalações e, raramente estudando de fato. Quase não se vê professores, ou monstros, pois o objetivo mesmo é fingir que todo mundo ali é "normal".


Existem outros monstros é claro, tipo o Górgona que aparece de toca (pra economizar CGI claro, mas também pra não paralisar geral, inclusive a si mesmo), ou a criatura grande que vira alvo de investigação, ou claro, o pessoal sem rosto que nem chega a ser mencionado, mas aparece. 

Infelizmente essa mistura de espécimes é camuflada por suas aparências joviais, tudo para economizar em figurino. Chega a ser hilário que apenas Wandinha se veste diferente, enquanto todo o resto, além de nem se parecerem diferentes, ainda andam sempre uniformizados, e nunca expõe qualquer característica que os consolidem como "excluídos".


Entende-se que na sociedade desse universo, monstros são excluídos por serem monstros. Mas o que vemos são apenas crianças achando que são monstros, e algumas agindo como, sendo rudes, competitivas, malvadas, exatamente como qualquer escola do ensino médio.

Mas nada vai ao extremo, tudo é normalzinho de mais, e só Wandinha é o oposto de tudo isso. Somente ela é realmente monstruosa mesmo não transparecendo isso, o que me faz questionar: Pra que a existência dessa escola exatamente?


Pois no contexto da própria série, é uma escola pra preparar os jovens pra convivência social, e ta bem que Wandinha entrou na metade do ano, mas todos já estão praticamente formados? Todos já estão preparados pra tal convivência?! É no mínimo esquisito.

Sobre a parte técnica, a série também cambaleia entre gostos. Musicalmente vai de picos de criatividade com conversões orquestradas de rock tocadas num Violoncelo e afins, pra uma onda repentina de Pop e Eletrônica pois, são jovens, jovens gostam.


A própria trilha clássica da família foi totalmente ignorada, e nem mesmo na sutil referência dos estalares de dedos ela é lembrada (me senti decepcionadíssimo). Os dedos são um código pra um clube e se limitam a isso.


Em certo ponto, os ótimos embalos dão lugar ao simples acorde sonoro de tensão e é isso. Chega a soar repetitivo. Tem até um episódio que incluíram "movimentos com sons", pra incrementar a movimentação da personagem. Pareceu uma série de humor repentinamente, o que talvez tenha se dado à troca de diretores.

Entre um episódio e outro, roteiristas e diretores passam a bola e Tim Burton mesmo não foi o responsável por tudo, e isso fica perceptível, pois seu toque gótico vai desvanecendo a cada segundo que passa, rendendo-se aos padrões Netflix. 


Na parte de efeitos especiais, não estão excelentes, mas são o bastante. Os monstros só aparecem no escuro e são totalmente plastificados em CGI. Nem mesmo assustam, mas em momento algum se propuseram a "assustar" ou "chocar" então, tanto faz.


Agora, no caso do mãozinha, ele ficou perfeito pronto.

Sobre a investigação criminal em si, ela é muito óbvia. Pra bons observadores é possível descobrir tudo logo no começo mesmo, tudo é bastante óbvio.


Mas a série facilita mais usando e abusando da "regra da Apple".

Aprendi a um tempo que para séries de detetives e investigação, é sempre um desafio usar qualquer produto da Apple em cena pois, existe uma regrinha contratual deles de que vilões jamais podem ser vistos consumindo seus produtos.


Ou seja, se tem algo da marca num filme ou série, já pode ir descartando qualquer suspeito que o use. E adivinha?! Wandinha é um comercial longo da Apple!!!


Todo mundo usa celular ou notebook, exceto a heroína. E, aqueles que não usam realmente passam a ser os principais suspeitos, até que começam a usar e entregam o jogo.


Da pra sacar quem é o vilão ou não só pelo aparelho que ele empunha, e confesso que fiquei apressado pra confirmar minhas teorias, e do nada desenvolvi a habilidade de identificar que celular a pessoa usa! 


No fim eu errei bonito, mas por inversão de papeis. Apostei nos cavalos certos, na ordem errada, mas eu tava certo pelo menos na teoria da Apple.


Sem contar que de certa forma minha suspeita original criada ainda no começo se provou correta, mas a série consegue desviar nossa atenção com muitas pistas falsas e óbvias. Fiquei até decepcionado por cair em algumas, o que me fez largar minha teoria inicial (e correta) pra só retoma-la depois.


E é, isso foi legal. A tempos não me via amarrado por um enigma e gostei de ter sido enganado algumas vezes. Mas deixo claro que isso é mérito pelo longo tempo e desvio de tramas que a obra proporciona.


São muitas histórias paralelas, as vezes que nem mesmo fazem parte da jornada da Wandinha, e muitos momentos alongados desnecessariamente. Mesmo algumas coisas "chatas" sendo importantes por sutis referências no final, senti que muitos pontos não precisavam ser mostrados... como o lance das Sereias (perda de tempo de mais, que só serve pra deixar algo pra próxima temporada).


Apesar da investigação principal, e uma investigação secundária envolvendo a Família Addams (que é rapidamente resolvida), no geral nada disso é impactante.

A grande ameaça pra protagonista é uma profecia de 30 anos que diz que ela talvez arruíne a escola. Mas a própria personagem quer o tempo todo fugir de lá, e não quer se envolver com ninguém, passando por isso forçadamente pra criar vínculos e decidir lutar contra a tal profecia.


Então ela vira uma detetive, que vai contra todo mundo pra descobrir as verdades, que são cada vez mais absurdas.

Coisa que eu fiquei sem entender até agora, como o fato do vilão nem ser um monstro, mas um cara comum que matava bruxas (logo, matava os excluídos) e foi endeusado pela cidade, que ironicamente, deve tudo inclusive só existe por causa da Escola de Excluídos, que eles mesmos rejeitam.


O ponto que me confunde muito é que a cidade de pessoas normais é SUSTENTADA pela escola de monstros que não são monstros, e mesmo assim eles são rejeitados publicamente! Chega a ser revoltante, o grupo de excluídos sendo convocado pra uma festa em homenagem ao matador de bruxas, inclusive sendo postos pra trabalhar como "voluntários forçados" no evento, e ninguém nem liga pra tamanha bizarrice!

Felizmente, cenas maravilhosas existem pra compensar a tortura lógica que é assistir essa série, como a da "fogueira na estátua" seguida por uma performance sublime de Wandinha...


Ou a hilária cena do necrotério (bizarro dizer isso, mas é uma cena engraçada).


Tem uma inclusão de gênero que a princípio pode até parecer, mas não é forçada, apesar de rasteira. Um personagem secundário (Eugene, o guri das abelhas) tem duas mães ao invés de pais tradicionais. 


Isso só faz alusão ao vício dele por abelhas, e as citações sobre inexistência do patriarcado, apesar de ainda não revelar muito sobre sua natureza "excluída", algo que só é mostrado no fim mesmo, e é bem na pegada das abelhas.


Por fim, vale falar que eu nem tinha percebido isso, mas enquanto assistia vi que a Wandinha (Jenna Ortega) contracena com a antiga Wandinha (Christina Ricci) dos filmes dos anos 90. 


Porém agora o papel dela ganha um destaque bem diferente, numa nova personagem, que tem uma tremenda importância.

Por respeito ao mistério, eu prefiro não revelar os segredos. Mas adianto que a série não é tudo aquilo que andam falando não.


Ela não é nada sangrenta (mostra corpos aqui e ali, mas nada de mais) e nem é violenta. Na verdade ela é muito branda, amenizando os impactos de mortes com personagens descartáveis e sem qualquer relevância. 

Num momento até há uma cena que cria tensão, por brincar com a possibilidade de uma perda realmente cruel. Mas logo isso é corrigido e, nos vemos aliviados rapidamente (ainda que chocados).


No mais, eu recomendo que assista, apesar de eu ter gostado e desgostado, ao mesmo tempo.

Por mais que tenha muito desperdício de tempo mostrando coisas que não vale a pena ver, e muita enrolação infantil e adolescente... há momentos legais, e pelos momentos legais, a tortura compensa.

Mas, não espere nenhuma obra prima.

É apenas mais uma série Netflix.

E é isso.

Obrigado pela leitura.

Se quiser ver mais textos do tipo, visite a "Lista da Morte 2.0".

See yah!


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4 Comentários

  1. Até que enfim uma critica que expressa um sentimento parecido com o meu. Em meio a tantas críticas positivas, por um momento pensei ser a única que achou a série genérica e infantil. Parabéns pelo texto!

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    1. Minha sensação ao ver como falavam da série foi exatamente essa. Lamento apenas não ter escrito antes... nessas horas o tempo pra assistir essas longuíssimas séries Netflix faz falta.

      E bem, srta Roschildt, agradeço muito pela leitura e pelo comentário... e obrigado por ter gostado. Seja bem vinda.

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