ReviewMorte: Jogos Mortais - Saw

Estranho, eu sei, esse filme é de 2004, e é meio que, inesperado falar dele agora, do nada.

Porém, é uma boa oportunidade de falar o que acho deste filme que foi responsável por uma enorme franquia, incluindo alguns jogos, e aquela porcaria chamada Espiral. Inclusive, já falei do Primeiro Jogo, e também do "spinoff" da franquia... mas agora é hora de falar do primeirão, o classicão:

Jogos Mortais

Boa leitura.

Eu nunca falo de direção e afins, pois sou péssimo com nomes, mas preciso dizer que James Wan fez escola nesse filme. 

Com uma obra puxada pro Suspense, repleta de mistérios, esse filme de terror em nada se parece com suas sequências, e consegue se destacar por elementos tão únicos, e inovadores, que muito do que surgiu depois dele meio que, soa risório.

Na época sem qualquer pretensão de se tornar uma franquia (aham, sei), tinha como enredo algo simples, uma trama claustrofóbica, repleta de segredos, enigmas, e flashbacks.

Eu mal me lembrava dele, apenas de alguns elementos e reviravoltas no desfecho, o que me fez ter uma experiência bem satisfatória nessa nova olhada. Inclusive, me impressionei com o tanto de perguntas e respostas que as 2 horas de filme proporcionam, entregando algo completo, bem amarrado, e que pra ser sincero, de verdade mesmo, não precisava ser continuado.

Por um lado, foi bom o surgimento das sequências mais viscerais e letais, focando muito mais nas armadilhas e nas consequências, e menos no fator investigativo. Porém, nada se compara ao que surgiu neste primeiro longa.

Antes dele, haviam filmes com a mesma pegada, um bom exemplo é "Cubo" de 1997, onde personagens precisam descobrir onde estão, e sobreviver pra escapar de algum jogo insano. Em tempos mais modernos, vários títulos foram surgindo, não só os demais Jogos Mortais (que caminharam cada vez mais pro Horror e Gore do que pro Terror Psicológico), mas nada parecidos com o original. Sempre há mais foco na sanguinolência e violência, do que no Suspense.

Não é atoa que a recente série da modinha (que acabei falando no blog sem me tocar que iria ficar tão chato ver em todo lugar) brilhou tanto, seguindo o que reconheço como um modelo de Jogos Mortais, o primeiro, o original.

Algo que choca mais não pelas mortes (necessariamente) mas pelo impacto psicológico delas. As consequências de uma escolha equivocada, ou o trágico resultado de algo praticamente inevitável. Ta aí, lembrei de "O Nevoeiro", outro filme puxado pro Suspense e Mistério. 

Mas nada se iguala ao Saw. Nele, 2 personagens se encontram num banheiro, presos à correntes, com um cadáver entre eles, e precisam interagir uns com os outros pra descobrir quem são, onde estão, porque estão ali, e como escapar. 

Ta aí, "Escape Room" é outro filme nesse estilo, que provavelmente se inspirou muito no primeiro Saw. Várias pessoas tentando escapar de jogos e enigmas em salas mortais, que precisam confiar em seus passados e traumas pra vencer.

"O Poço", outro título incrível com um ar enigmático e pessoas presas num local, sem se conhecerem, mas dependendo umas das outras pra tentar sobreviver. É mais um título que pipoca na minha mente ao tentar lembrar algo que, soasse tão genial, quanto Jogos Mortais.

"O Círculo" (de 2015) também se enquadra nesse estilo, sendo um filme sobre várias pessoas presas numa sala, que precisam lidar com problemas sociais umas das outras, por assim dizer, sem deixar seus próprios círculos, e tramando pra decidir quem morrerá a cada 2 minutos, e quem sobreviverá no fim.

Obras assim, que nos fazem pensar, e tentar antecipar o desfecho, como se estivéssemos no meio da armadilha com os personagens, são sempre interessantes de mais, e nos prendem, independente da violência explícita.

O primeiro Saw quase nem tinha isso inclusive. Raramente se via alguma cena pesada de gore, e quando surgia, era meio que censurada, o que inclusive causava um pouco mais de terror, pelo mistério (essa é a palavra do dia) de como tudo ficou no fim, do que pelo escândalo da cena em si.

Nessa parte, devo dizer que o Espiral tentou emular essa técnica, e talvez até se sairia bem nesse quesito, se não fosse uma porcaria total no fim das contas.

É preciso ter bastante cuidado com como se esconde as coisas, e como as revela, pra não soar algo desnecessário ou forçado, e pra não distanciar a atenção do público ao invés de atraí-la. Isto é algo bastante exercitado aqui, onde a história traz uma reviravolta e resolução atrás da outra, mostrando não apenas corpos mortos, e vilões omissos, mas... pessoas.

Várias pessoas, com escolhas e consequências, que desencadearam os eventos daquele banheiro. Nenhum personagem é desperdiçado, todos eles são perfeitamente aproveitados, mesmo quando quase nem tem tempo de tela (por exemplo, o próprio Jigsaw, antagonista da coisa toda, que quase nem surge, quase não é citado, e consegue ser triunfante no desfecho).

Pra se ter uma noção, o Boneco do Jigsaw (aterrorizante por sinal, e marca registrada da franquia, até mais que os Quebra-Cabeças que ele recortava nas vítimas) aparece muito mais do que ele próprio. Claro, em parte pelo mistério, mas pra ser sincero, na primeira vez que vi o filme eu nem entendi quem era o velhinho.

Eu achava que o vilão era a pessoa da máscara de porco que sequestrava geral, e fiquei perdido na resolução. No entanto, hoje (ainda mais pelo vilão ter sido muito mais explicado nas continuações) eu sei quem ele é, e consigo entender melhor o desfecho.

Talvez os únicos personagens que são só, jogados atoa, são os jogadores que falharam. Incluindo a Amanda (famosa nas sequências, tanto que até eu me lembro o nome dela), que mesmo tendo suas histórias relacionadas diretamente com o "Assassino do Quebra-Cabeças", pouco influenciam ou precisam influenciar na trama principal.

Outro ponto positivo desse filme é este. Você o assiste, e pesca vários elementos secundários, que soam interessantíssimos, mas que no fim são apenas pecinhas de um grande quebra-cabeças que, forma uma imagem assustadora.

As mortes dos jogos eram só pra mostrar que, as pessoas morriam nos jogos. Eram pra trazer aquela realidade cruel e nos tirar a esperança de ver os personagens saindo numa boa (coisa que ainda surge de relance até os últimos segundos!) Isso nos fazia mergulhar mais a fundo na trama psicológica pra tentar compreendê-los, e tentar prever o desfecho, trabalho esse involuntário, e infrutífero, pois é impossível antecipar qualquer coisa. 

Exemplo disso é quando um policial consegue pegar uma pista que nem mesmo o vilão havia percebido. Ele consegue, em seu trabalho de detetive, descobrir exatamente onde ele se escondia, e mesmo assim, ele cai numa armadilha.

Igualmente, um dos protagonistas percebe uma pista quase inaudível, coisa que nesse caso foi plantada de propósito, mas que igualmente oferece a sensação de imprevisibilidade.

Aliás, é importante frisar que ele é e não é linear ao mesmo tempo.

A história principal leva quase 2 horas pra ser contada, e nós a acompanhamos em tempo real mesmo. Os personagens ficam ali trancados por esse tempo todo, enquanto as coisas os flashbacks mascaram o tempo perdido atoa.

Não ficamos enjoados por isso, nem percebemos direito, pois constantemente os eventos são cortados por flashbacks. Eles, em suas conversas, relembram coisas e eventos, alguns que nem sequer ocorreram diretamente com eles, mas que ilustram suas histórias.

Talvez, sem esses cortes, o que escutaríamos seria apenas a conversa deles, e o que eles achavam e pensavam (o que demoraria muito e ainda seria bem chato) mas, o filme nos leva a acompanhar pessoalmente o resultado dessas palavras, revelando de forma mais visual o que os personagens também descobriam, aos poucos.

Isso é bacana, pois além de nos confundir e pegar de surpresa, sem contar ao certo para onde estão nos levando, isso também surpreende os próprios personagens que ,assim como nós, vão entendendo melhor a situação e pegando as pistas, chegando às conclusões junto conosco.

Isso cria o fator surpresa em ambos! E a reação dos personagens nem precisa ser mostrada, pois a nossa cara fica idêntica. Ou seja, a emoção deles, é transferida pra gente. Pensa, genial isso não?! O Diretor sabia disso, tanto que de fato em vários momentos nem mostra o rosto dos personagens ao se chocarem com algo, pois nós já estamos daquela mesma forma.

Porém, nem tudo são flores. O filme tem alguns eventos duvidosos que, sinceramente, ao rever, eu considero bem tolos, e com soluções bem mais fáceis das que ele oferece.

Mas, que tal, ao invés de só lançar um spoiler pra comentar a respeito, eu contar logo tudo de uma vez?

Se por alguma razão, você nunca assistiu o primeiro Jogos Mortais, dê uma chance pra este. Ele não é um filme violento ao extremo como os outros, e não assusta de forma gráfica. O terror dele, é mais psicológico mesmo, e ele nos faz pensar, só isso.

Agora, vou contar o enredo, da forma como me lembro, sem me estender tanto, mas comentando o que achar necessário.

Bora la!

A História de Jogos Mortais

Tudo começa com um médico e um garoto, presos num banheiro, cada um acorrentado de um lado.

O jovem acorda em uma banheira lotada de água, que acaba esvaziando quando ele sai, sem que ele note algo brilhante indo pelo ralo.

Então, o Médico acende a luz do banheiro, e entre eles, tem um corpo caído, segurando um Toca Fitas, e uma pistola.

Em seus bolsos, há fitas, mas o Médico tem mais uma coisa: uma bala.

Eles se matam (sentido figurado viu) então pra pegar o toca fitas, com o médico mesmo sugerindo que o jovem (por estar mais perto) usasse a camisa pra agarrar o objeto.

Depois que consegue, ao usarem as fitas, recebem cada um uma mensagem de uma voz horripilante: O garoto estava ali pra pagar por seus erros, e o médico, teria de matar o garoto até as 6h (18h), pra conseguir salvar sua esposa e filha.

Daí pra frente é só conversa. Um tenta conhecer melhor o outro, e desvendar os mistérios do banheiro, encontrando pistas em todo canto, e até conseguindo umas Serras. São com elas que tentam cortar suas correntes, sem sucesso nenhum, mas guardando pra mais tarde (a do garoto no entanto se quebra).

Conforme conversam, relembram eventos que poderiam explicar a razão de estarem lá. O médico conta que ele foi suspeito numa investigação de um Serial Killer que, botava pessoas em armadilhas, meses atrás.

E pela perspectiva de dois detetives, acompanhamos essa narrativa. Também testemunhamos de relance alguns dos jogos, apenas os resultados, com os cadáveres de quem falhou.

O único que vemos um pouco mais de detalhes é aquele narrado pela Amanda, que o Médico em pessoa escuta (viu, mais detalhes surgem quando eles próprios presenciam) ela contar. Os jogos eram os seguintes:

Primeiro, um homem com tendências suicidas, é posto numa sala cercada por arame farpado. O jogo era ele sair de lá, passando pelo arame e se cortando, até chegar a saída. Ele morre de hemorragia antes do tempo chegar ao fim.

O segundo jogo, um homem nu e besuntado com uma substância inflamável, preso numa sala cheia de cacos de vidro no chão, e números desenhados nas paredes e teto. Ele tem veneno no corpo, e o antídoto só pode ser pego num cofre no centro da sala, o qual ele só pode abrir com a senha que tá escrita na parede. Porém, a sala é bem escura, e pra procurar a senha, ele precisa usar uma vela, que vai se consumindo até queima-lo. No fim, ele morre carbonizado.

O terceiro jogo, foi o de Amanda. Ela teve sua mandíbula presa por uma armadilha de urso invertida, e precisava abrir a barriga de seu namorado, pra pegar a chave. Ele ainda tava vivo, mas dopado. Tecnicamente ela mata ele, e se salva da armadilha, mas acaba ficando traumatizada, e pior, ela fica grata, pois isso lhe ensinou a valorizar mais a vida (antes ela era viciada).

O médico era suspeito pois uma caneta dele foi encontrada em uma das cenas do crime, mas mal sabia ele que na verdade, ele era o alvo, de um jogo muito maior.

O médico tinha o péssimo hábito de trair a esposa, mas por mais arrependido que ele estivesse (tecnicamente ele tinha parado justamente no dia que foi levado pro jogo) ele tinha de pagar. Só por isso, ele foi levado pro banheiro, e sua esposa e filha foram amordaçadas, ameaçadas de morte caso ele não matasse o garoto antes das 6h.

Ele até tenta fingir o assassinato, mas o garoto além de ser péssimo ator pra encenar a própria morte, ainda é eletrocutado pela corrente, pra checar se tava vivo. Porém, a verdade começa a surgir.

O garoto, tinha sido contratado por um cara pra fotografar e perseguir o médico, afim de descobrir seus maiores segredos. Esse foi o único erro dele! Ele fez o trabalho que foi pago pra fazer, e isso o condenou ao banheiro.

Quem sequestrou a família do médico, foi um colega de trabalho dele, que tem seus motivos explicados no fim.

Quem contratou o garoto pra seguir o médico, foi o próprio policial afastado, que depois de perder um colega, ficou obcecado por capturar o cara dos jogos, e ainda achava que era o médico.

Inclusive, esse policial só pirou e foi afastado do serviço, pois conseguiu encontrar o esconderijo do vilão, e quase o capturou. Só que ele achou também uma vítima futura num jogo em potencial, e se encasquetou todo, quase morrendo degolado, e ainda perdendo o parceiro.

O erro desse policial foi nem ter chamado apoio, e achado que se garantia. Por conta disso, o colega que assumiu uma perseguição, é enganado pelo vilão, e morto por várias espingardas penduradas no teto. 

Por fim, com toda a verdade revelada, o médico e o garoto juntam as peças mas, o tempo acaba.

No desespero, ele recebe um telefonema (pois tinha encontrado um celular que só recebia chamadas, como parte do jogo), do qual sua esposa e sua filha se despediriam, sendo executadas pelo colega dele.

Porém, a moça consegue escapar das amarras e fica numa luta corporal com o cara, que gera disparos, e chama a atenção do policial (que pra variar, tava de tocaia num prédio próximo).

Tudo isso sendo transmitido pela chamada, e o médico sem entender nada, só desespera por completo e acaba sendo eletrocutado pela corrente como punição por falhar no jogo.

Mesmo sobrevivendo a isso, o celular cai muito longe, e começa a receber uma chamada.

Ele tenta alcançar, mas nem pensa em fazer o óbvio, como usar a camisa, ou então a própria Serra pra puxar o aparelho, e depois de ficar em pânico, ele pega a serra e corta o próprio pé.

É garoto gritando, médico amputando, telefone tocando, perseguição de carro (pois o policial tinha conseguido afugentar o colega do médico e salvar a esposa e filha dele, mas agora tava correndo pro cativeiro do médico) e chega o clímax.

O policial morre com um tiro no peito no confronto com o colega do cara.

O médico consegue cortar o pé, pega a arma do corpo morto no meio da sala, pega a bala, e atira no garoto, que cai duro.

O colega dele entra no banheiro, diz que não adiantou de nada matar o garoto pois o tempo acabou, e na hora que vai executar o médico, num é que o garoto ainda tava vivo e agarra a perna dele, desarmando-o e depois, matando ele com um pedaço de concreto na cabeça?!

Daí o médico se arrasta até o jovem, e diz que vai buscar ajuda, saindo arrastado pela porta. O garoto não tem escolha, e só espera depois de gritar.

É ai que vem a última reviravolta. O corpo morto no meio do banheiro/sala o tempo todo, não tava morto de verdade!

Era o próprio Jigsaw, um velhinho com câncer que o médico menosprezava, mas que ironicamente o colega do médico era mó gente boa (o que levanta questões sobre os reais critérios de Jigsaw no início de sua carreira como justiceiro de armadilhas observador controverso). Ele envenenou o amigo do médico, e ofereceu a cura apenas se ele sequestrasse a esposa e filha do cara, e as matasse caso ele falhasse no jogo. Ou seja, o cara era uma vítima!

O cara é tão sádico que simplesmente deita lá no meio do jogo e se finge de morto! Daí depois que geral capota, o velho levanta como se nada tivesse acontecido e diz que, o garoto ta livre, e a chave ta  na banheira. Mas o garoto não entende, tenta atirar nele, e o velho aciona a eletricidade da corrente, desarmando ele.

Em seguida ele vai até a porta, e simplesmente a fecha, deixando ele ali, sozinho, com um corpo, pra sempre! Pois a chave tinha decido pelo ralo no começo de tudo.

Novamente, isso levanta certas questões sobre os critérios do vilão, pois o garoto tecnicamente era um inocente! Ele condenou ele a uma morte certa, independente das escolhas ou ações dele. Não tinha como ele saber da chave na banheira quando acordou!

Mas, o que importa é que, a esposa e filha do médico ficaram a salvo... mas o médico e o garoto, permaneceram uma incógnita.

Isso, até surgir a continuação e trazer as respostas...

Só que isso já fica pra outro filme, e outro artigo.

É isso.

Espero que tenha ficado ao menos claro... e fica como registro.

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