SérieMorte: Lovecraft Country

10 episódios de uma hora cada dessa série da HBO e o que eu aprendi?

Boa leitura.

Antes de mais nada não, essa não é uma série baseada nos contos de H.P. Lovecraft, ao menos não diretamente. Ela é uma adaptação de um livro de mesmo nome escrito por Matt Ruff e publicado em 2016, o qual acaba por se inspirar em alguns elementos lovecraftianos, mas foca-se e sustenta-se totalmente no conceito racial.

Ta, pelo que vi o livro não é tão focado assim, apesar de ser ambientado em tempos de pura segregação racial, mas a adaptação em forma de série é, e se é, completamente direcionada para a conscientização de quem assiste.

Posso dizer que essa série é maravilhosa, e assustadora, mas não no sentido fantasioso. Aliás, a parte em que se inspira nos contos de H.P. Lovecraft, ao menos na adaptação em tela, pareceu só um chamariz para o verdadeiro tema.

Ela fala tanto de racismo e preconceito que, as poucas criaturas e coisas místicas que nos são apresentadas de fundo soam como coadjuvantes e enfeites, as vezes muito mal desenvolvidos ou explicados, e com uma conveniência de roteiro de causar incômodo.

Tudo na história sempre ocorre com uma mesma família, e tudo é completamente relacionado a eles, com vários momentos sendo de um exagero lógico que nos faz mergulhar numa completa descrença, e simplesmente ignorar o que nos é mostrado.

Temos fantasmas, temos bruxos, temos monstros, temos até demônios, mas a série não brilha por causa disso, na verdade esses são os momentos que tudo sai do controle e perde a beleza. A série é linda pela discussão racial que levanta, pelos eventos que mostra, e como mostra, e por toda a carga emocional e dramática que apresenta.

E ai ta a parte chata... A impressão que passa é que quem criou tava tão preocupado em chamar a atenção para um tema social sério, que tomou uma "carona" nas obras de Lovecraft e em suas bizarrices pra atrair o público, como um pedacinho de queijo numa ratoeira. 

O pior é que, essa não é a verdade! O livro de 2016 é totalmente coerente, e equilibrado, entre o lado fantasioso e o lado social. Ele faz suas críticas, ele levanta discussões, mas faz isso ao mesmo tempo que conta uma baita história que sim, é totalmente moldada aos padrões aterrorizantes de Lovecraft.

Mas a série apenas, preferiu focar mais no conceito racial e, acabou exagerando a parte da fantasia, deixando ela um pouco confusa, desinteressante, e repito, conveniente de mais.

Em cada episódio de 1 hora em média, geralmente 10 minutos são reservados para a fantasia, enquanto os outros 50 são de pura conscientização. E isso não é de todo ruim não, mas causa desconforto, pois cara, tudo nos faz esperar pelos momentos bizarros, os momentos de "ação", mas esses momentos chegam, sem se ligar ao que a obra conta, pelo menos não de uma forma satisfatória.

Por exemplo, existe um episódio onde os personagens ficam ele inteiro falando e debatendo uns com os outros sobre uma criança negra que foi morta de forma violentíssima, e de como isso afetou toda a cidade. Temos isso mostrado na forma de multidões revoltadas pra ver o corpo da criança, e das pessoas lidando com a perda de jeitos diferentes, uns entrando em depressão, outros com discursos emocionados, e por ai vai.

Daí, uma menina passa por um momento de humilhação diante policiais brancos, e acaba sendo perseguida, caçada, corre riscos, e paralelo a tudo isso, mais discussões sobre o quanto o que ocorreu com o garoto foi chocante. Então, nos 10 minutos finais, um monstro aparece e mata um monte de policiais brancos. Fim.

Cara?! Sim, no meio do episódio temos umas bizarrices, que no fim nem se quer tem razão pra estarem ali. Os policiais brancos jogam uma maldição na menina que passa a ser perseguida por uma criatura que apenas ela vê, mas tipo, isso é tão aleatório e nem ao menos se relaciona de forma coesa com o restante da trama que, pra que?! Não tinha uma razão pra isso ser incluído, não do jeito que foi incluído.

Eis o grande erro, o tempo que se consome em tela para falar do racismo, não apenas de forma expositiva, mas com cenários, com temáticas, com expressões, fotografia, edição, som (quantas vezes botaram discursos de negros e ativistas famosos como música de fundo) e até tipos de atuações, é tão grande, que aquele espaço reservado para a progressão do enredo, soa como desperdício, pois não é bem aproveitado.

Não daria pra aproveitar isso, não da pra chegar e contar uma história fantasiosa sobre como pessoas negras num mundo assustador, acabam ficando ainda mais ferradas da vida, ao descobrir que existem monstros além daqueles que elas já enfrentam diariamente, quando esses monstros do cotidiano já extrapolam no conceito da crueldade.

Poxa, o que vemos em tela são brancos literalmente CAÇANDO negros com armas de fogo, e eles lidando com isso com naturalidade, pois sim, nessa época isso (1950) era "comum". E ai surge um bicho feio matando justamente, os caras brancos. O que sentimos é felicidade por ver os monstros de aparência matando os monstros de comportamento, não medo.

E sim, a série se vende como sendo algo de Terror, e até alcança essa categoria, mas é com Terror Social, e Horror pelo gore forçado que coloca em tela.

É como assistir o filme "12 Anos de Escravidão" e considera-lo terror, pois ele até se enquadra nisso, mas seu foco é o drama. E a parte que se enquadra em terror é assistir o jeito que as pessoas lidam umas com as outras guiadas por um preconceito vil e incompreensível. 

Enfiar criaturas bizarras de Lovecraft com conceitos assombrosos, numa história de drama puríssima, não faz dela melhor. Isso prejudica! E sim, eu fiquei em cima do muro com ela.

A história fantasiosa de Lovecraft Country acaba retratada como "supérflua"! Uma única família vive antologias que, no fim se conectam só pelo fato deles serem negros, e claro, uma mesma família. Meu, um grupo de meia dúzia de pessoas vive em questão de meses uma porrada de eventos paranormais que, no fim, estão todos relacionados só por eles serem "os especiais", e ai acaba. 

Temos de tudo, tudo mesmo, até viagem espacial, temporal, e por ai vai. Mas a questão é que, o fato de contarem isso mostrando personagens já calejados com os pesares e sofreres de vidas pra lá de cruéis, é forçadíssimo!

Imagine, sei lá, "A Procura da Felicidade", aquele filme que o Will Smith tem de dar um jeito de vencer na vida por seu filho, num mundo pra lá de cruel, estando ele todo ferrado economicamente, socialmente, profissionalmente, e ainda por cima sendo negro, tendo como esperança uma máquina que inventou e ta tentando vender. Ai sei lá, bota ele inventando uma máquina do tempo no final do filme. Isso seria bom ou ruim pra obra? Concluir algo tão forte com uma solução mágica assim, seria realmente legal?

A impressão que Lovecraft Country passa é que sim, eles queriam que todas as soluções fossem fantásticas, mágicas, e que os problemas do povo negro simplesmente se resolvessem por magia!

Sendo que, cara, a série realmente mostra um lado pútrido do mundo, e da época na qual se ambienta. Ela poderia ser levada a sério, e se focar no que quer mostrar.

Ela só com isso já ensina muito, e já nos prende muito. Os monstros nos 45 minutos do segundo tempo são idiotas, mesmo tendo uma composição excepcional, mesmo dando medo visualmente, mesmo sendo realmente bem produzidos, eles não tem espaço na trama, e nem de longe encabeçam qualquer mistério.

Isso tudo da a impressão que foram duas séries, duas narrativas, contadas ao mesmo tempo, misturadas de forma forçada pra validar o título. Sim, a impressão que da é que fizeram uma série sobre racismo, e incluíram elementos do livro pra dizer "É sobre ficção cientifica, num mundo racista".

E digo isso, pela SÉRIE. O livro já sustenta sua história sem pesar no lado social e racial. Os conceitos estão ali, estão todos presentes. Quem lê percebe que sim, Matt Ruff tinha algo a contar, uma história fantástica, de ficção com terror, mas também com suas passagens dramáticas e sociais. La, a sociedade da época era o pano de fundo, enquanto aqui, o pano de fundo é a história.

Aliás, no livro, o mundo não gira em torno dos personagens. Muitos dos contos e principais eventos racistas são de personagens secundários, que acabam por chegar aos ouvidos dos principais, influenciando suas decisões mas, não sendo necessariamente parte da jornada do herói. Algo que na série, preferiram tornar tudo uma enorme bagagem carregada por uns poucos, e sim, isso é ruim.

Eu to batendo nessa tecla pois foi somente isso que me incomodou. Soou forçação de barra, entre um discurso e outro, ter uma criatura nada a ver. Você ta assistindo algo pesado, dramático, que te faz pensar, e ai do nada surge um efeito especial de uma criatura estranha que, nem tem razão pra estar ali.

Okay, talvez eu esteja exagerando um pouco, no sentido de esbravejar fúria sobre não terem desenvolvido a história de um jeito que focasse mais a ficção do que o social, mas poxa, é errado querer e esperar isso? Repito, eu gostei muito do resultado, mas ao mesmo tempo, não entendi a lógica do que queriam fazer.

Queriam contar uma história sobre os problemas raciais ou sobre ficção de Lovecraft? Se era sobre as duas coisas em equilíbrio, por que senti que o lado fantasioso tava de escanteio?

O que achei, foi apenas que, exageraram na mensagem social por trás da história fictícia, e sabe onde mais vi isso? Primeira temporada de Além da Imaginação de Jordan Peele.

Nela, quiseram mais focar nas mensagens sociais fod4s do que nas histórias de terror fod4s. E no fim, o que se teve foi uma bagunça. O irônico é que nessa outra série, isso fazia parte da história, eles forçaram a barra com as mensagens sobrepondo suas histórias, só pra no fim falarem "Isso não ta certo, mostraremos como se conta uma história de verdade na próxima temporada" e eles o fizeram. A segunda temporada de Além da Imaginação do Jordan Peele é tremendamente melhor, ainda com suas mensagens, ainda com suas alfinetadas críticas e filosóficas, mas com histórias igualmente incríveis.

Agora sabe o que é hilário? Jordan Peele meus caros, é o responsável por esta adaptação! Eu sempre costumo falar "eles" me referindo aos produtores, pois acredito que essas obras não devam ser creditadas a um único nome, visto que temos muitos outros envolvidos na produção, mas, não é irônico assistir algo que transmite a exata mesma sensação revoltante de outra obra que vi, e em seguida descobrir que o produtor é o mesmo?

Engraçado também que, Jordan Peele é o diretor de outros filmes como "Corra" e "Nós", e eles também tem suas constantes referencias ao racismo, pelo amor de deus, esses filmes são histórias de terror ambientadas na própria crítica social! E eles são excelentes, pois conseguem equilibrar e até conciliar tanto suas histórias, quanto sua sociologia. No entanto qual o problema do moço com séries?

Muita gente pode adorar, e até curtir, mas pra mim, Lovecraft Country foi uma série magnífica, desperdiçada ao mesmo tempo.

Nudez gratuita, trama mal encaixada, enredo superficial, criaturas sobrando, e terror fraco, isso acabou com a série pra mim.

Drama pesado, realidade retratada de forma convincente, atuações perfeitas, referências históricas, violência explorada, relacionamentos de personagens e efeitos especiais. Isso engrandeceu a série pra mim.

Dois pesos, duas medidas, na mesma obra. Pra que querer fazer lacração o tempo todo? Tem uma boa história em mãos, honre-a e confie no espectador para que ele note as alfinetadas!

Se tiver curioso, eu recomendo que assista. 


É isso... see yah.

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2 Comentários

  1. Há quanto tempo não lia uma crítica perfeitamente bem contextualizada. Se for por sites aí afora, estão batendo palmas como focas para esta série. Só assisti o primeiro episódio, e não gostei muito. Não faz o meu tipo. Daí, você cita que tem nudez gratuita. Vixi. Tô fora. Não gosto disso.

    Os personagens estão conversando e do nada, bimba! Os dois já estão transando sem contexto algum para a história, e isso não me prende na série. Me faz querer correr para as colinas.

    Bom texto, meu caro. E darei ênfase na sua frase: "pra que lacração o tempo todo?"

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    1. Hei Sammy, fico feliz por ter gostado.

      Acredita que eu inventei de tentar ler o livro pra fazer uma comparativa e, ele é muito diferente. Algumas falas são idênticas, mas o contexto muda.

      Alguns momentos de "relações" são até interessantes pelos efeitos especiais (em um episódio uma moça troca de corpo durante o coito e vira outra mulher, ai tem um monte de sangue e carne voando... é bizarro, mas de certa forma interessante). Mas no geral, bem desnecessário.

      O tenso é que uma parte da série é bem legal =/.

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